hotelaria

Hoteleiros se manifestam contra aumento de comissões sobre reservas  

Reajuste de 18% nas comissões do Programa Preferencial da Booking.com pegou o setor de surpresa e gerou reação de entidades como FOHB, ABIH e Resorts Brasil. Por outro lado, a plataforma sustenta boa parte da distribuição digital dos hotéis no país e, além disso, a dependência do canal é real.

Hoteleiros se manifestam contra aumento de comissões sobre reservas   (Foto gerada por IA)

A Booking.com, maior plataforma de reservas do mundo anunciou que a partir do próximo dia 1º de julho vai aplicar uma comissão de 18% sobre todas as reservas dos participantes do Programa Preferencial Genius, no Brasil. Até o momento as taxas variam de 10% a 15%, conforme o acordo comercial de cada propriedade.

A comunicação deu-se somente no último dia 26 de maio pegando de surpresa todo setor de hospitalidade que como sabemos, estabelece suas premissas orçamentárias anuais de forma antecipada, usualmente estabelecida no final do exercício do ano anterior. Este impacto não projetado alterará significativamente as projeções de resultados visto que a hotelaria está, de forma preocupante, demasiadamente dependente da produção gerada pelas OTAs (agências de viagens online), em especial a Booking. Empresa líder do setor fundada em 1996 na Holanda e que hoje distribui reservas em mais de 1 milhão de acomodações entre hotéis e afins ao redor do mundo através de seu consagrado portal disponível em 45 diferentes idiomas.

Elevação do percentual de comissionamento surpreendeu hoteleiros

As entidades representativas do setor se manifestaram e o assunto virou tema entre hoteleiros independentes como entre os que gerem as redes em operação no Brasil. Foram rapidamente emitidas notas de repúdio das diversas entidades representativas do setor hoteleiro o que reforça a ideia da necessidade de um estreitamento do diálogo entre as partes. Importante ainda que cada player calcule o impacto real sobre sua operação antes da entrada em vigor já na semana que vem. FOHB, Resorts Brasil e ABIH Nacional emitiram um manifesto conjunto solicitando o adiamento da medida para 2027 e a abertura de uma mesa de negociações.

O argumento central foi exatamente o que citei acima, que os hotéis já haviam fechado seu planejamento financeiro de 2026 junto aos seus investidores, e que uma nova linha de custo inserida no meio do exercício fiscal comprometerá a previsibilidade financeira do negócio. A BLTA (Brazilian Luxury Travel Association) foi mais direta: A medida ameaça hotéis independentes no Brasil, que são exatamente os mais dependentes da plataforma resume Camilla Barretto, CEO da associação. A FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), alertou para os impactos sistêmicos sobre a margem operacional de propriedades menores. O contexto geral atual agrava o problema visto que em 2026, os hotéis independentes já enfrentam aumento de custos com a mudança da escala 6×1, a entrada em vigor da NFS-e obrigatória e a reforma tributária. Incluir mais 3 pontos percentuais de comissão sem aviso razoável pontua Alexandre Sampaio, presidente da entidade federativa que congrega dezenas de sindicatos representativos de hospedagem e alimentação fora do lar no Brasil.

Posição da Booking.com sobre o novo percentual nas comissões sobre reservas

Procurada pela coluna a assessoria encaminhou o seguinte posicionamento: A Booking.com mantém um diálogo aberto com seus parceiros de acomodação e esclarece que a recente atualização comercial busca alinhar suas operações locais no Brasil às práticas da indústria já implementadas pela empresa em vários mercados no mundo. Ressaltamos também que a Booking.com manteve suas condições comerciais inalteradas no Brasil por 12 anos e que, a partir de 1º de julho de 2026, a taxa padrão da plataforma no Brasil será de 15%, enquanto a taxa de 18% se aplicará exclusivamente às propriedades participantes do programa Preferencial. Como um canal de marketing baseado em performance, no qual os parceiros de acomodação só pagam após a receita ser gerada, continuaremos ajudando propriedades de diferentes perfis a ampliarem sua visibilidade e competitividade no mercado. Esta atualização é importante para sustentar investimentos contínuos, tais como novas soluções financeiras e ferramentas de pagamento e a infraestrutura oferecida aos parceiros, incluindo suporte 24 horas por dia, 7 dias por semana, atendimento em 45 idiomas e o alcance global da plataforma em mais de 220 países e territórios. A Booking.com reforça seu compromisso de longo prazo com o desenvolvimento do setor hoteleiro no Brasil e segue aberta ao diálogo contínuo com a indústria e seus parceiros de hospedagem locais.

Sobre a Booking.com

A Booking Holdings, da qual a Booking.com pertence, é um dos players mais fortes no setor de viagens online. Recentes estudos destacam a capacidade da Booking seguir expandindo consistentemente o número de diárias reservadas em ritmo superior ao do mercado de viagens em geral e ao de seus principais concorrentes. O crescimento da holding foi acelerado após aquisições da Booking.nl e da Agoda, que ampliaram ainda mais a presença da empresa na Europa e na Ásia. Um fator central por trás desse sucesso foi a capacidade da empresa de construir um dos maiores inventários de hotéis do setor, especialmente entre propriedades independentes.

LEIA TAMBÉM: Hotéis de lazer comemoram boas performances nos feriados 

Essa escala tornou-se uma vantagem competitiva diferenciada à medida que os viajantes passaram a buscar acomodações cada vez mais pelo Google. O forte reconhecimento de marca e a ampla cobertura de hotéis ajudaram a Booking a garantir seu crescente posicionamento de destaque nos resultados de buscas relacionadas à viagens. Taxas de conversão mais elevadas reforçaram ainda mais sua posição e criaram um ciclo de crescimento autossustentável. Para alguns críticos ela é um sócio que não contribui no pagamento das contas, não investe no ativo, não atua na experiência do hóspede, não assume riscos, que reduzem margens, diminuem a previsibilidade e transformam os hoteleiros em seus reféns. Considero essa abordagem extremada embora recomende sempre em minhas consultorias a adoção de métodos para incremento de reservas diretas. Formas de aumentar o percentual de receitas geradas através reservas feitas fora do ambiente das agencias online, sobre as quais não ocorrerão pagamentos de comissões que para piorar incidem sobre a diária bruta, ou seja, antes de abaterem-se os impostos. Ao longo do tempo, silenciosamente muitos hotéis passaram a depender cada vez mais da plataforma como origem majoritária de demanda. Isso permitiu que a Booking, assim como as demais OTAs, fortalecessem o relacionamento com os hotéis garantindo acesso privilegiado a inventários e condições favoráveis de reservas através de seu canal de distribuição.

Invasão de dados comprometeu a segurança

Em abril último cibercriminosos obtiveram informações sobre as reservas feitas na plataforma da Booking.com. Após invasão maliciosa as informações hackeadas passaram a ser usadas para envio de mensagens de phishing (pesca fraudulenta de dados) com aparência legítima aos usuários, alegando que a estada que realizaram foi cobrada a um preço excessivamente alto e que estes poderiam ser reembolsados clicando em um link obviamente fraudulento. Apesar da plataforma não ter informado o total de clientes afetados globalmente, um alerta de segurança cibernética em larga escala está em vigor e exige atenção do mercado de hospitalidade como um todo.

LEIA TAMBÉM: Busca pelo bem-estar conquista espaço na hotelaria

O futuro das reservas em hotéis

Olhando para o futuro, analistas enxergam a inteligência artificial como o principal potencial fator disruptivo para o setor de viagens online. Ferramentas de busca baseadas em IA podem mudar a forma como os viajantes descobrem, avaliam e comparam opções de acomodação. Nesse cenário, preço, flexibilidade e qualidade das informações de viagem podem se tornar fatores competitivos mais relevantes do que a escala por si só.

Apesar desse risco, a Booking ainda se beneficia de uma ampla rede de inventário, forte confiança dos consumidores e uma presença global que será difícil de ser replicada rapidamente pelos seus concorrentes ou mesmo pelos hotéis por si só. A cantilena de reforçar as vendas diretas através de seus próprios canais e assim desvencilhar sua dependência parece muito mais um discurso teórico do que realidade prática. Potencializar vendas diretas exige esforço, investimentos em marketing e dedicação intensa dos hoteleiros o que normalmente não acontece, em especial entre os meios de hospedagem pequenos e médios que configuram perto de 70% de toda oferta de acomodações disponíveis no país. Alocar seu inventário nas OTAs que, sejamos justos, transforma qualquer empreendimento por menor ou remoto que seja visível a qualquer pessoa no mundo, acaba sendo uma cômoda tentação a qual é difícil de resistir.

Muitos hoteleiros pecam ao não conseguirem gerir suas tarifas adequadamente. Em muitos hotéis a tarifa direta publicada ou consultada no balcão é a mesma disponível nas OTAs, as vezes até mais altas. Isso não faz qualquer sentido!

Maarten Van Sluys (Consultor Estratégico em Hotelaria – MVS Consultoria)

Instagram: mvsluys    LinkedIn: maartenvs1    E-mail: mvsluys@gmail.com

Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo

Mais Lidas

Tags