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Turismo de memória: destinos que carregam as marcas de grandes desastres

De Pompeia a Tohoku, lugares transformados por grandes tragédias passaram a receber visitantes interessados em história, ciência, memória e reconstrução.

Turismo de memória: destinos que carregam as marcas de grandes desastres (Turista tira foto do vulcão com o celular, erupções são famosas por ser um forte atrativo a turistas. (Foto: Chris Burkard))

De cidades romanas soterradas por um vulcão a comunidades reconstruídas depois de terremotos e tsunamis, o turismo de memória apresenta alguns destinos que carregam as marcas de grandes desastres.

Viajar também pode ser uma forma de entender o passado. Em alguns lugares do mundo, essa experiência passa por paisagens que carregam as marcas de terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis e outros desastres que mudaram para sempre a vida de suas populações.

Não se trata simplesmente de visitar locais onde uma tragédia aconteceu. Em muitos casos, o turismo surgiu justamente como uma maneira de preservar a memória, explicar os fenômenos naturais e mostrar como as comunidades encontraram caminhos para seguir adiante.

Pompeia, no sul da Itália, talvez seja o exemplo mais conhecido. Mas há outros destinos em que a destruição passou a fazer parte da própria identidade do lugar.

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Pompeia e Herculano, Itália

Em 79 d.C., a erupção do Vesúvio atingiu duas importantes cidades romanas: Pompeia e Herculano. Pompeia foi soterrada principalmente por cinzas e lapilli, enquanto Herculano foi atingida por fluxos e ondas piroclásticas.

O resultado foi uma das maiores fotografias arqueológicas da vida cotidiana do Império Romano. Ruas, casas, edifícios públicos, pinturas, mosaicos e objetos foram preservados sob os materiais vulcânicos.

Hoje, caminhar pelas áreas arqueológicas é muito diferente de visitar uma atração turística convencional. O visitante percorre uma cidade que deixou de existir há quase dois mil anos e que continua sendo estudada por arqueólogos.

Pompeia e Herculano fazem parte do conjunto reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial. A organização destaca justamente a excepcional preservação dos dois sítios e a possibilidade de compreender aspectos da vida romana daquele período.

Pompeia e Herculano foram soterradas na mesma tarde, pela mesma erupção em 79 d.c. (Foto: Divulgação)

Montserrat, Caribe

No Caribe, a pequena ilha de Montserrat guarda uma das paisagens mais impressionantes criadas por uma erupção vulcânica recente.

O Soufrière Hills entrou em erupção em 1995, depois de quase quatro séculos de relativa inatividade. O processo se estendeu por anos e devastou grande parte do sul da ilha. Plymouth, a antiga capital, acabou soterrada por cinzas e fluxos de lama e hoje é conhecida como a cidade enterrada.

A área não pode ser visitada livremente. O acesso a Plymouth ocorre de maneira controlada e com guias certificados. Há também pontos de observação do vulcão e passeios de barco que permitem enxergar os restos da antiga capital a partir do mar.

Montserrat mostra como um desastre pode alterar não apenas a paisagem, mas a própria geografia humana de uma ilha. Dois terços do território ficaram dentro da chamada Zona de Exclusão, e parte significativa da população deixou o local após a erupção.

Montserrat, em 1995 é quando o vulcão Soufriere Hills desperta, depois de estar adormecido por séculos, desde antes de Colombo. (Foto: Divulgação)

Heimaey, Islândia

Na madrugada de 23 de janeiro de 1973, moradores de Heimaey, nas Ilhas Vestmann, foram surpreendidos pelo surgimento de uma fissura vulcânica próxima à cidade.

A população, com mais de 5 mil pessoas, foi evacuada rapidamente. A erupção do Eldfell destruiu casas e alterou a paisagem da ilha.

Décadas depois, a história continua presente no cotidiano de Heimaey. O museu Eldheimar preserva uma casa que foi soterrada pela erupção e apresenta a história da população durante aquele período.

O vulcão também se tornou parte da experiência turística da ilha. A subida ao Eldfell permite observar a paisagem formada pela erupção e compreender, de perto, como a atividade vulcânica modificou Heimaey.

Na ilha de Heimaey, no sul da Islândia, se encontra uma formação rochosa de basalto que parece um elefante. (Foto: Reprodução/Shaefierce)

Klauea, Havaí

O Klauea, na Ilha Grande do Havaí, oferece outro exemplo de como uma catástrofe pode transformar uma paisagem.

Em 2018, uma grande erupção na região da Lower East Rift Zone foi acompanhada pelo colapso da caldeira no topo do vulcão. O evento foi considerado o maior episódio eruptivo daquela região em pelo menos dois séculos e provocou extensos danos à infraestrutura do Parque Nacional dos Vulcões do Havaí.

A região continua sendo visitada por pessoas interessadas em vulcanismo e geologia. Mas há uma diferença importante em relação a Pompeia ou Heimaey: o Klauea permanece ativo.

Por isso, as condições de visita mudam conforme a atividade vulcânica. Em agosto de 2026, o Serviço Geológico dos Estados Unidos informa que há atividade eruptiva episódica no cume, dentro de uma área fechada do parque.

É um lembrete de que, nesses destinos, a natureza não é apenas parte do cenário. Ela continua em movimento.

O nome Kilauea significa vomitar ou muito se espalhar na língua havaiana e sua constante atividade faz jus a seu nome. Não só um vulcão ativo, mas o mais ativo dos cinco vulcões que juntos formam a ilha do Havaí. (Foto: Divulgação)

Tohoku, Japão

No Japão, a relação entre turismo e desastre ganhou uma dimensão diferente depois de 11 de março de 2011, quando um terremoto de grande magnitude provocou um tsunami devastador na costa nordeste do país.

A região de Tohoku passou a desenvolver iniciativas que combinam preservação da memória, educação para prevenção de desastres, natureza e recuperação econômica.

Um dos exemplos mais conhecidos é a Michinoku Coastal Trail. A trilha acompanha a costa do Pacífico por mais de mil quilômetros, entre Hachinohe, na província de Aomori, e Soma, em Fukushima. A trilha foi criada como parte dos esforços de reconstrução posteriores ao terremoto e tsunami.

O percurso passa por praias, montanhas, falésias, comunidades costeiras e áreas ligadas à história da região. A proposta não é transformar a tragédia em espetáculo, mas aproximar o visitante da paisagem e das comunidades que vivem ali.

A Trilha Costeira de Michinoku (Michinoku Coastal Trail) é uma rota de caminhada com mais de 1.000 km que revitalizou o turismo na região de Tohoku após o terremoto e tsunami de 2011. (Foto: Divulgação).

Quando viajar também significa aprender

Existe uma linha tênue entre conhecer a história de uma tragédia e transformar o sofrimento de uma população em entretenimento.

Os destinos acima mostram que é possível estabelecer uma relação diferente com esse tipo de turismo. Em Pompeia, o visitante entende a vida romana e a força do Vesúvio. Em Heimaey e Montserrat, percebe como vulcões podem redesenhar comunidades inteiras. No Havaí, acompanha uma paisagem que continua mudando. Em Tohoku, encontra uma região que usa memória, natureza e caminhada como parte de um processo de reconstrução.

A experiência mais interessante, portanto, não está apenas na paisagem deixada pelo desastre, ela está nas histórias que permanecem depois dele.

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Para quem escolhe conhecer esses lugares, a melhor postura é chegar com curiosidade, mas também com respeito. Fotografar pode fazer parte da viagem. Ouvir moradores, conhecer museus, contratar profissionais locais e entender a história do território também.

No fim, são destinos que lembram uma coisa simples: a natureza pode mudar uma paisagem em poucas horas. As marcas deixadas nas pessoas, porém, permanecem por muito mais tempo.

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