Olhar turístico

Turismo e identidade: por que ainda temos dificuldade de reconhecer o que é nosso?

Se existe um assunto que me chama a atenção desde a faculdade, é a relação entre turismo, identidade e pertencimento. […]

Turismo e identidade: por que ainda temos dificuldade de reconhecer o que é nosso? ((Foto: Imagem gerada por IA))

Se existe um assunto que me chama a atenção desde a faculdade, é a relação entre turismo, identidade e pertencimento. Ao longo dos anos, trabalhando com planejamento e desenvolvimento turístico, uma percepção continua presente: muitas vezes, um dos maiores desafios para desenvolver o turismo em uma cidade não está na ausência de atrativos, mas na dificuldade dos próprios moradores em reconhecer o valor do lugar onde vivem.

Tenho vontade de realizar uma pesquisa com consultores e profissionais que atuam no planejamento e desenvolvimento do turismo para entender se essa percepção também é compartilhada por quem trabalha diretamente com diferentes destinos. Afinal, quantas vezes, durante um processo de planejamento turístico, ouvimos dos próprios moradores que não há nada para fazer na cidade?

Essa situação se torna ainda mais evidente em municípios que estão começando a estruturar sua atividade turística. Uma cidade pode ter vocação turística sem, necessariamente, possuir um histórico consolidado de turismo. E essas duas coisas não são sinônimas. Quando começamos a olhar para o território, identificamos patrimônios culturais, paisagens, manifestações populares, gastronomia, eventos, comunidades tradicionais, áreas rurais, espaços de lazer e diferentes possibilidades de experiências. Mas, muitas vezes, quem vive ali diariamente não enxerga nada disso como um potencial.

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É como se tivéssemos uma espécie de regra não escrita: a cidade do outro é sempre melhor que a nossa. O destino do outro estado é mais interessante, o outro país é mais bonito, o atrativo que está distante merece ser conhecido. Podemos até brincar que é um jeito brasileiro de ser: temos uma facilidade enorme para apontar os problemas do lugar onde vivemos, mas uma dificuldade ainda maior para reconhecer suas qualidades.

E essa percepção interfere diretamente no desenvolvimento do turismo. Quando se fala em turismo, ainda existe no imaginário de muitas pessoas a ideia de ônibus chegando lotado, grandes grupos de visitantes e atrativos recebendo milhares de pessoas. Como se essa fosse a única forma de medir se uma cidade é ou não turística. Mas turismo não é apenas turismo de massa.

Uma cidade pode receber visitantes para participar de um festival, conhecer uma fazenda, visitar uma comunidade quilombola, participar de uma manifestação cultural, conhecer seu patrimônio histórico, consumir sua gastronomia ou participar de um evento. Pode receber pessoas que chegam para reuniões, negócios, congressos e compromissos profissionais.

Pode receber visitantes durante todo o ano, em diferentes momentos e por diferentes motivos.
O turismo de negócios é um exemplo claro dessa percepção que ainda precisa ser ampliada. Em muitos municípios existem empresas que atraem constantemente fornecedores, representantes, profissionais e parceiros de outras cidades. Essas pessoas chegam, utilizam serviços, restaurantes, hotéis, transporte e outros equipamentos. Estão se deslocando por uma motivação relacionada ao trabalho e, portanto, fazem parte de uma dinâmica turística. Entretanto, muitas vezes, nem a população nem o próprio município reconhecem essa movimentação como turismo. Isso acontece, em grande parte, porque ainda conhecemos pouco sobre os diferentes segmentos da atividade turística.

Por isso, falar sobre turismo é tão importante. Mesmo que determinado município não receba grandes fluxos de visitantes ou não tenha um turismo de massa, isso não significa que não tenha turismo. Talvez ele aconteça de maneira mais discreta, distribuído ao longo do ano e relacionado a diferentes experiências.

O desafio está justamente em perceber essas possibilidades e transformá-las em produtos, experiências e políticas públicas capazes de gerar benefícios para o território e para quem vive nele. E existe ainda uma questão fundamental: ninguém valoriza aquilo que não reconhece como seu.

O planejamento turístico pode identificar atrativos, criar roteiros, desenvolver produtos, estruturar sinalização e promover um destino. Mas, se o próprio morador não reconhece valor naquilo que possui, será mais difícil construir uma identidade turística consistente. A valorização começa dentro do próprio território.

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Não se trata de ignorar os problemas da cidade ou fingir que tudo é perfeito. Muito pelo contrário. Reconhecer o potencial turístico de um lugar não significa deixar de cobrar melhorias. Significa também conseguir olhar para o território com outra perspectiva e perceber que, entre tantas dificuldades, existem histórias, pessoas, paisagens, saberes, sabores e patrimônios que merecem ser conhecidos e valorizados.

Talvez precisemos mudar um pouco a pergunta. Em vez de perguntar apenas o que tem de turístico na minha cidade?, deveríamos perguntar: o que existe aqui que eu ainda não aprendi a enxergar? A população também faz parte da construção de um destino. E desenvolver essa percepção de pertencimento é fundamental para que o turismo não seja visto como algo que acontece apenas para quem vem de fora. Antes de convidarmos o visitante a conhecer a nossa cidade, precisamos aprender a reconhecê-la.

Então, fica o convite: vamos olhar novamente para os lugares onde vivemos. Vamos conhecer nossa história, nossos patrimônios, nossas comunidades, nossos eventos, nossa gastronomia e nossas paisagens. Vamos parar de olhar apenas para aquilo que falta e começar a perceber também aquilo que temos.

Porque uma cidade não precisa ser famosa para ter valor turístico. Às vezes, ela só precisa que seus próprios moradores descubram que existe muito mais para conhecer do que eles imaginavam.

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