Viagens duram muito pouco. Mesmo aquelas viagens que se revelam longas demais enquanto estamos nela, com o tempo parece que passaram tão rápido… Então buscamos fotos de eternizar esses momentos, fazendo fotos, vídeos, revendo essas fotos e vídeos, comprando lembrancinhas e as expondo pela casa. Mas há outra forma de relembrar uma viagem: escrever sobre ela.
Desde o surgimento dos blogs há muitos sobre relatos de viagem, e hoje há também muitos ótimos livros sobre viagem feito por pessoas comuns, não apenas por escritores profissionais. A catarinense Rúbia Scheffer já publicou Atacama – expedição a um novo planeta (Editora Dois por Quatro, 2019), e em 2015 lançou Patagônia: reviajando na pandemia, também pela Editora Dois por Quatro.
A edição é primorosa, toda colorida, com muitas fotos, mapa mostrando os locais percorridos pela road trip, um livro daqueles de ter na estande, guardar, presentear. A viagem aconteceu no outono de 2018, mas na época a autora estava envolvida com a finalização e lançamento do seu primeiro livro. Então veio a pandemia. E foi exatamente na pandemia que resgatar a viagem a Patagônia fez todo sentido, pois segundo a autora foi uma reviagem em tempos de confinamento. Com as oscilações de humor durante a quarentena eu parei e retomei a escrita várias vezes, demorando bem mais do que o previsto. Com isso, a publicação só veio a ser feita em 2015, afirma Rúbia.
O resultado é um livro que mescla a viagem com memórias e reflexões sobre um dos períodos mais tensos da nossa geração, a pandemia da Covid-19. Confira abaixo nossa entrevista com a autora:
Marcelo Spalding: Como surgiu a vontade de escrever e publicar livros sobre suas viagens?
Rúbia Scheffer: Foi numa viagem à Europa, em 2011, que fiz o primeiro diário. Na volta, organizei o texto no Word, incluí as fotos e compartilhei com familiares e amigos. Na viagem seguinte, muitos me pediram para fazer o mesmo. Repeti o feito várias vezes, e começaram a me perguntar quando eu iria fazer um blog ou escrever um livro. Comecei a estudar, a ler outros relatos e a participar de oficinas, até que resolvi publicar o primeiro livro.
Marcelo: Você faz anotações pensando no livro ao longo da viagem? Escreve trechos?
Rúbia: Rola de tudo, depende do tempo disponível e da emoção do momento. No celular, costumo anotar como uma lista, com as datas e os lugares visitados e algumas informações obtidas in loco. Já num caderninho, costumo registrar ideias mais desenvolvidas, mais emocionadas. Em ambos, registro muitas interrogações sobre dados que precisam ser pesquisados e conferidos. Também costumo fazer fotos úteis de placas, cartazes e situações para lembrar na hora de organizar o texto.
Marcelo: É a segunda road trip que vira livro, certo? Você gosta mais dos locais que visita ou da viagem em si?
Rúbia: Sim, é a segunda road trip que vira livro, mas muitas outras já aconteceram. Quando eu e meu marido nos conhecemos, em pouco mais de um mês saímos para uma viagem de carro que durou quase trinta dias. Entendo que visitar os locais e percorrer o caminho até eles são experiências complementares. Além de agregar muitas informações extras ao repertório durante o trajeto, tenho mais tempo para assimilar o que foi visto, fazer mais reflexões e até descansar. Já viajei de avião e não descarto esse formato, mas costumo dizer que, de carro, a viagem já começa a valer desde que se sai pelo portão.
Marcelo: Quantas cidades, ao todo, vocês percorreram nesta viagem para a Patagônia e em quantas pernoitaram? Qual o maior desafio dessa variedade de pousos?
Rúbia: Percorremos mais de 12.000 quilômetros durante os 28 dias da principal viagem relatada no livro, que inclui outras duas, de anos anteriores. Não contabilizei a quantidade de cidades no caminho. Mas, sim, há desafios em relação ao pouso. Não costumamos fazer reserva com antecedência. Vai que algo novo nos atrai no caminho, né? Entretanto, quando vemos que há um feriadão à vista ou que chegaremos muito tarde ao destino, recorremos aos aplicativos para não ter surpresas desagradáveis. Mas, às vezes, acontece de só achar muquifo, de só encontrar hospedagem muito cara ou de ter que nos dirigir a outra cidade por indisponibilidade no local desejado. Mas tudo vira história para compartilhar depois.
Marcelo: Tenho a impressão de que a Patagônia seria um dos mais importantes e badalados destinos turísticos do mundo se estivesse perto da Europa ou dos EUA. Você acha que a região é subestimada por estar na América do Sul?
Rúbia: Acho que sim, apesar de encontrarmos muitos turistas estrangeiros nos lugares mais famosos. Americanos são poucos. Os próprios brasileiros começaram a viajar mais pela América do Sul a partir da pandemia, principalmente de carro. A onda dos veículos 4×4 e as muitas expedições em grupo também passaram a valorizar mais essa região.
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Marcelo: Como é a estrutura das cidades e do percurso para quem se aventurar a fazer uma road trip como essa?
Rúbia: No geral, no sul do planeta, encontramos mais cidades de médio e pequeno porte, que costumam ter hospedagem para todos os bolsos, mercados e um povo muito acolhedor. Não há tanta variedade de frutas e verduras como no Brasil, mas a comida é bem gostosa. A maior parte do percurso é pavimentada, mas é preciso ficar atento aos trechos de rípio, às inúmeras retas e às condições do tempo. Os ventos patagônicos não são lenda e podem até esgaçar a porta do carro. Outro detalhe: sempre que avistar um posto de combustível, abasteça o tanque do seu carro. Podemos transitar por centenas de quilômetros sem ver uma estação de serviço.
Marcelo: Vocês fizeram alguma adaptação no carro para a viagem? Diz-se que, com a neve, as estradas ficam escorregadias e perigosas, não?
Rúbia: A viagem ocorreu no outono, antes do período previsto para as nevascas. Mas chegamos a ter problemas na Ruta 40, na Argentina, nos 73 Malditos, um trecho de rípio. Essa história está no livro, não vou dar spoiler. Agora, para quem vai viajar sabendo que encontrará neve, é preciso alugar ou adquirir as cadenas correntes para colocar nos pneus e cuidar para que o carro não deslize nas pistas. Quando houver subida em locais de maior altitude, como no caso das fronteiras localizadas na Cordilheira dos Andes, é necessária ainda mais atenção.
Marcelo: Tem algum outro livro planejado, de alguma viagem já feita? Ou alguma outra viagem em vista?
Rúbia: Fizemos uma viagem ao sul do Peru entre abril e maio deste ano. Tenho muitas descobertas e perrengues para compartilhar. Mas o material ainda está espalhado entre o bloco de notas do celular, o caderninho e as fotos. No perfil @expressotortuga, do Instagram, há várias postagens dessa viagem. Sem pressa, farei contato com essas histórias e, na hora certa, há de sair uma nova publicação. E, viagem em vista, sempre tem.
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