Por entre ruas de pedra, casarões históricos e memórias musicais, a cidade recebe espetáculos, oficinas e intervenções gratuitas que celebram o circo contemporâneo e ampliam o acesso à cultura no Alto Vale do Jequitinhonha.
Diamantina, em Minas Gerais, é daquelas cidades, que parecem guardar histórias em cada esquina. Por lá, elas permanecem inscritas nas pedras do calçamento, nas sacadas dos casarões, nas igrejas, nas antigas construções e na música que, vez ou outra, transforma as ruas do Centro Histórico em uma grande plateia a céu aberto.
É nesse cenário, onde patrimônio, natureza e criação artística convivem, que o 3º Festival de Circo do Alto Vale Circo e Arte-Educação iniciam sua programação no dia 17 de outubro, às 10h, no Mercado Velho. Gratuito e voltado para públicos de todas as idades, o evento reúne espetáculo circense musical, oficinas formativas e intervenções cênicas.
O melhor de tudo, é que esta iniciativa também circulará por outras localidades do Alto Vale do Jequitinhonha, como Conselheiro Mata, Serro e São Gonçalo do Rio das Pedras, fortalecendo a presença das artes cênicas em cidades, distritos, comunidades quilombolas e territórios rurais que nem sempre integram os grandes circuitos culturais.
Em Diamantina a paisagem também conta histórias
Reconhecida como Patrimônio Cultural Mundial, Diamantina não se revela apenas por seus monumentos. A cidade carrega uma atmosfera própria, formada pelo encontro entre a herança colonial, a tradição musical, as manifestações populares e as paisagens naturais que cercam a antiga Vila do Tijuco.
Caminhar pelo Centro Histórico é como atravessar diferentes tempos. A Casa de Chica da Silva preserva parte da memória de uma das personagens mais conhecidas e simbólicas do período colonial mineiro. A Catedral Metropolitana de Santo Antônio da Sé, construída entre 1932 e 1938, integra a paisagem urbana e religiosa da cidade.
Nas sacadas dos casarões, a Vesperata faz a música descer sobre o público e ocupar as ruas, numa celebração que se tornou uma das expressões mais conhecidas da identidade cultural diamantinense. Em temporadas específicas, músicos e espectadores compartilham uma experiência que aproxima patrimônio, arte e convivência.
A cerca de 15 quilômetros do Centro Histórico, o Parque Estadual do Biribiri amplia essa narrativa. São trilhas, cachoeiras, inscrições rupestres e formações naturais, que embelezam a natureza e por lá encontra-se a Vila do Biribiri, núcleo fabril criado no século XIX por iniciativa do Bispo Dom João Antônio dos Santos. O lugar preserva memórias do trabalho, da vida comunitária e da ocupação humana em meio à imponência da Serra do Espinhaço.
Diamantina é muito mais que um amontoado de atrativos, a cidade oferece uma experiência marcada pela sensibilidade. É uma cidade que pode ser ouvida, percorrida e contemplada e que encontra no circo uma nova maneira de ocupar seus espaços e reinventar suas histórias.
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Música, comicidade e uma chuva de pipoca
A abertura do festival será realizada no Mercado Velho, na Praça Barão do Guaicuí, um dos espaços mais representativos da convivência cultural de Diamantina. No dia 17 de outubro, às 10h, o respeitável público poderá acompanhar o espetáculo Bambu e a Bandalhaça.
A apresentação combina música, habilidades circenses e cenas cômicas em uma experiência destinada a todas as idades. Palhaços e músicos conduzem um repertório eclético, embalado por forró, xote e outros ritmos capazes de despertar memórias afetivas e aproximar diferentes gerações.
O espetáculo também apresenta intervenções cênicas, balões de LED e um dos momentos mais aguardados pelo público, a divertida chuva de pipoca. A classificação é livre e a entrada, gratuita.
Formação artística e descoberta do corpo
A programação prossegue no dia 29 de outubro, às 14h, com a oficina gratuita Iniciação à Acrobacia e Portagem, ministrada pela atriz, circense e arte-educadora Liz Monteiro.
A atividade será realizada no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais Campus Diamantina, localizado na Fazenda Biribiri, às margens da Rodovia 367, próximo ao Aeroporto Municipal JK.
A oficina oferece aos participantes a oportunidade de conhecer princípios da acrobacia e da portagem, prática baseada na relação de equilíbrio, confiança e cooperação entre os corpos. Além da formação técnica, atividades dessa natureza estimulam concentração, consciência corporal, criatividade e trabalho coletivo.
Benjamin de Oliveira inspira espetáculo de variedades
Ainda no dia 29 de outubro, às 19h, o Teatro Municipal Santa Izabel recebe o espetáculo gratuito Varietê Benjamin de Oliveira, homenagem ao artista mineiro reconhecido como o primeiro palhaço negro do Brasil.
Com Fabiano Freitas como mestre de cerimônias, a montagem reúne os atores Liz Monteiro, Mariele Conceição, Camila Alvarenga, Vinicio Queiroz e Richard Rodrigues. O espetáculo recupera a força do formato de variedades, linguagem historicamente ligada ao circo, na qual diferentes números e expressões artísticas dividem o mesmo palco.
A homenagem também contribui para dar visibilidade à trajetória de Benjamin de Oliveira e à presença fundamental dos artistas negros na formação do circo e das artes cênicas brasileiras.
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Palhaçaria negra, memória e criação coletiva
No dia 30 de outubro, às 15h, o Lapidário das Artes recebe a oficina gratuita Palhaçaria Negra em Cena Formação Artística e Memória do Circo Negro, ministrada por Mariele Conceição e Vinicio Queiroz, integrantes da Trupe Gira, de Minas Gerais.
A atividade reunirá práticas de improvisação, musicalidade, jogos teatrais, exercícios corporais e experiências inspiradas na capoeira. Os participantes serão convidados a desenvolver criatividade, escuta, ritmo, presença cênica e capacidade de criação coletiva.
A oficina também abordará a trajetória de Benjamin de Oliveira e a participação dos artistas negros na história do circo brasileiro. Ao unir formação, memória e representatividade, a proposta reconhece o picadeiro como lugar de arte, identidade e construção de novas narrativas.
Um circo que ultrapassa a lona
De acordo com o produtor e arte-educador Paollo Preto, que também interpreta o palhaço Bambu, uma das principais missões do festival é descentralizar o acesso aos bens culturais.
A proposta é levar a programação não apenas aos centros urbanos de Diamantina e Serro, mas também a comunidades quilombolas e zonas rurais, alcançando territórios que frequentemente permanecem distantes dos grandes circuitos culturais. Além de promover o direito à cultura, iniciativas como essa ajudam a movimentar o turismo, fortalecer a economia criativa e valorizar artistas e trabalhadores da região.
Paollo Preto destaca ainda que o chamado novo circo amplia a imagem tradicionalmente associada a essa arte.
Ele não está necessariamente ligado à lona ou ao picadeiro e não se limita aos números circenses convencionais. É uma linguagem contemporânea que trabalha com o corpo, o movimento, a acrobacia e dialoga com o teatro, a dança, a música e outras expressões artísticas. É um circo que experimenta, que busca novas formas de contar histórias e que convida o público a imaginar e enxergar o mundo por outros ângulos, explica.
Essa diversidade de linguagens permite que o circo se renove sem abandonar sua vocação histórica para o encantamento. Ao combinar comicidade, música, teatro, dança, acrobacia, memória e arte-educação, o festival transforma praças, teatros e espaços formativos em lugares de encontro e pertencimento.
O 3º Festival de Circo do Alto Vale Circo e Arte-Educação foi contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura PNAB, por meio do Edital 4, alcançando o primeiro lugar entre os festivais de circo do Estado de Minas Gerais. A realização é da Ciranda do SER e da Bambu Produções.
Sobre Paollo Preto
Paollo Preto é bacharel e licenciado em Teatro, pós-graduado em Gestão Escolar e mestre em Educação. Produtor cultural, palhaço e multi-instrumentista, apresentou o espetáculo solo Bambu Roda Mundo Gira Roda em diversos estados brasileiros e na Europa.
Entre 2019 e 2020, atuou como professor e coordenador do curso de Circo da Academia Iluminarte, em Portugal. Desde 2015, é produtor do Festival de Circo de Rua de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro.
A partir de 2017, passou a desenvolver ações circenses na região do Alto Vale do Jequitinhonha. Entre suas iniciativas estão o Festival de Circo do Alto Vale Circo e Arte-Educação, realizado em 2022, 2024 e 2026, e o Festival de Forró do Alto Vale, promovido em 2023.
SERVIÇO
Programação: 17/10/26
10h – Espetáculo: Bambu e a Bandalhaça
Local: Mercado Velho Praça Barão do Guaicuí, 170, Centro Histórico
Entrada: gratuita – Classificação: livre
Programação: 29/10/26
14h Oficina Iniciação à acrobacia e portagem Com Liz Monteiro
Local: Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) Campus Diamantina Fazenda Biribiri, Rodovia 367, km 624, s/nº, próximo ao Aeroporto Municipal JK
Entrada: gratuita – Classificação: livre
19h Espetáculo Varietê Benjamin de Oliveira
Local: Teatro Municipal Santa Izabel Praça Dom Joaquim, 166
Entrada: gratuita – Classificação: livre
A programação completa pode ser acompanhada pelo Instagram @fest.altovale
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