A origem da obra remonta à França em um período marcado pela forte influência dos salões literários aristocráticos e das histórias morais voltadas à educação da elite. A versão considerada mais antiga surgiu em 1740, escrita pela autora francesa Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve. Seu texto apresentava uma trama extensa, cheia de elementos políticos, conflitos familiares e detalhes sobre o passado da Fera, muito diferente da história simplificada conhecida atualmente.
Na obra original, Bela era filha de um comerciante arruinado que se via obrigado a viver longe do luxo. Durante uma viagem, o pai colhia uma rosa em um jardim misterioso e acabava despertando a fúria de uma criatura monstruosa. Como punição, a Fera exigia que uma de suas filhas fosse viver no castelo. Bela se oferecia para salvar o pai e passava a conviver com a criatura, que aos poucos revelava sensibilidade, inteligência e gentileza.
Anos depois, em 1756, a escritora francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont publicou uma versão reduzida e mais acessível da história. Foi essa adaptação que se popularizou mundialmente. Beaumont eliminou grande parte das tramas paralelas e transformou o conto em uma narrativa moral voltada às crianças e jovens. A mensagem central passou a enfatizar a importância da bondade, da virtude e da capacidade de enxergar além das aparências físicas.
Essa versão circulou amplamente em livros educativos europeus e ajudou a consolidar a história como um clássico da literatura infantil. Ao longo do século 19, o conto ganhou novas interpretações em peças teatrais, ilustrações e óperas. A atmosfera sombria do castelo, combinada ao romance impossível entre uma jovem e uma criatura monstruosa, despertava fascínio no público.
Muitos estudiosos acreditam que a narrativa também se inspirou em casos reais, especialmente na história de Petrus Gonsalvus, um homem que sofria de hipertricose, condição rara que cobre o corpo de pelos. Ele viveu nas cortes europeias durante o Renascimento e acabou se casando com uma mulher considerada muito bonita na época.
O cinema rapidamente percebeu o potencial visual e emocional da história. Uma das adaptações mais famosas surgiu em 1946, com o filme 'La Belle et la Bête', dirigido por Jean Cocteau. A produção francesa ficou conhecida pelo visual poético, pelos cenários surreais e pela atmosfera de fantasia sombria. Até hoje, muitos críticos consideram essa adaptação uma das mais artísticas já feitas sobre o conto.
Nas décadas seguintes, surgiram versões para televisão, musicais e filmes em vários países. Entretanto, a transformação definitiva da história em fenômeno global aconteceu em 1991, com a animação lançada pela Walt Disney Company. O filme modernizou a narrativa, acrescentou números musicais memoráveis e aprofundou o romance entre Bela e a Fera.
A protagonista passou a ser retratada como uma jovem inteligente, apaixonada por livros e interessada em liberdade intelectual, algo incomum entre heroínas clássicas das animações daquele período. A animação se tornou um marco histórico ao ser o primeiro longa animado indicado ao Oscar de Melhor Filme.
Canções como “Beauty and the Beast” e “Be Our Guest” ajudaram a consolidar o sucesso internacional da produção. Além disso, personagens como Lumière e Cogsworth foram criados para dar leveza e humor à trama. O filme também gerou séries, musicais da Broadway, brinquedos e novas adaptações para diferentes mídias.
Outra diferença para a versão original foi a criação de um vilão 'bonitão', que serviu para inverter o tema original: o verdadeiro monstro pode ter um rosto bonito, enquanto a bondade pode estar escondida sob uma aparência fera. Em 2014, foi lançada uma versão francesa do romance, que tentou retornar às raízes visuais de Villeneuve, focando mais na mitologia da floresta e no passado da Fera.
Em 2017, a Disney lançou uma versão em live-action estrelada por Emma Watson e Dan Stevens. O longa manteve muitos elementos da animação de 1991, mas acrescentou detalhes inéditos sobre o passado dos personagens e atualizou algumas questões sociais da narrativa. O sucesso comercial reforçou o interesse do público por releituras de contos clássicos.
Mesmo após quase três séculos, 'A Bela e a Fera' continua relevante porque aborda temas universais. Cada geração reinterpretou a história de acordo com seus próprios valores culturais, o que explica sua permanência no imaginário popular e sua capacidade de conquistar novos públicos até os dias atuais.