Economia

Nova lei ambiental da União Europeia ameaça exportações de cacau da Costa do Marfim, principal produtor mundial


A proximidade da implementação do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) joga luz sobre um impasse complexo na cadeia global do cacau, focado especialmente na Costa do Marfim. Como maior produtora mundial da commodity, a nação africana fornece cerca de um terço do volume global do produto, tendo o mercado europeu como destino de dois terços de suas exportações. O cerne do problema reside na incapacidade estrutural de monitorar a trajetória do fruto.

Por Flipar
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Dados da organização britânica Trase apontam que menos da metade do cacau marfinense exportado possui origem identificável até as cooperativas de cultivo. O volume restante circula por uma rede complexa de intermediários, o que inviabiliza a fiscalização ambiental e o combate a práticas ilícitas, como o trabalho infantil.

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A nova legislação europeia surge com o objetivo de frear a degradação florestal global, uma atividade que figura como a segunda maior propulsora das mudanças climáticas no planeta, superada apenas pela queima de combustíveis fósseis. Sob as novas regras, os importadores do bloco econômico precisam atestar que o cacau, além de outras commodities como soja e café, não provém de áreas desflorestadas.

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No contexto marfinense, o histórico é alarmante, visto que o país perdeu quase 80% de sua cobertura florestal nas primeiras duas décadas deste século, com a expansão cafeeira e cacaueira como principal vetor dessa devastação. Atualmente, a redução no ritmo do desmatamento local reflete mais a escassez de florestas remanescentes do que o sucesso de políticas de preservação.

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Diante desse cenário, a transição para um modelo sustentável gera fortes tensões diplomáticas e econômicas em âmbito internacional. Nações exportadoras de grande porte, como Brasil, Estados Unidos e Indonésia, criticam as exigências europeias devido à complexidade operacional e aos elevados custos financeiros envolvidos, pressões que já resultaram em dois adiamentos no cronograma de aplicação da lei por parte da própria União Europeia.

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Embora as autoridades da Costa do Marfim trabalhem na criação de um mercado digitalizado para validar a trajetória do cacau, existe um temor global de impacto social negativo. Os países cultivadores apontam que a conta das reformas ecológicas pesa justamente sobre os agricultores mais vulneráveis, obrigados a se adaptar ao rigor dos blocos compradores.

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Além de liderar o mercado mundial do produto e abastecer grande parte da indústria internacional de chocolate, a Costa do Marfim é um dos países mais importantes da África Ocidental pela diversidade cultural. Banhada pelo Oceano Atlântico, faz fronteira com países como Gana, Libéria, Mali e Burkina Faso.

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Colonizada pela França no século 19, a nação conquistou a independência em 1960 sob a liderança de Félix Houphouët-Boigny, primeiro presidente marfinense. A capital política é Yamoussoukro, conhecida pela gigantesca Basílica de Nossa Senhora da Paz, enquanto Abidjan concentra a maior parte da atividade econômica e urbana do país.

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Café, óleo de palma, borracha e castanha de caju também possuem papel importante nas exportações do país. Apesar da riqueza agrícola, a Costa do Marfim enfrenta desafios relacionados à desigualdade social, desmatamento e instabilidade política em determinados períodos de sua história recente.

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A população reúne dezenas de grupos étnicos, entre eles os baoulés, senufôs, dioulas e bétés, cada um com costumes, idiomas e tradições próprios. O francês atua como língua oficial, herança do período colonial, mas muitos idiomas africanos permanecem presentes no cotidiano.

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A música ocupa espaço central na cultura nacional, com ritmos populares que misturam influências africanas e modernas. O coupé-décalé, surgido em Abidjan nos anos 2000, ganhou fama internacional e tornou-se símbolo da vida noturna do país. A culinária marfinense valoriza ingredientes locais como mandioca, banana-da-terra, arroz e peixe.

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Entre os pratos mais conhecidos está o attiéké, preparado a partir da mandioca fermentada. Além disso, o país se destaca pelas paisagens naturais, que incluem praias tropicais, florestas densas e uma rica biodiversidade. O Parque Nacional de Taï, por exemplo, abriga uma das últimas grandes áreas de floresta tropical preservada da África Ocidental.

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