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Mulheres LGBT enfrentam, ainda mais, obstáculos no mercado de trabalho

A fim de combater a homofobia, especialistas defendem políticas públicas e o engajamento de empresas para promover a inclusão da população LGBT. Um dos grandes caminhos para mudar a realidade de travestis e transexuais é a educação

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postado em 27/11/2016 10:21 / atualizado em 27/11/2016 10:48

Ana Paula Lisboa

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

 

As mulheres, em geral, enfrentam mais barreiras no mundo do trabalho. Quando se trata de trabalhadoras que fogem da heteronormatividade, os obstáculos podem ser ainda mais severos. Fazem parte desse grupo lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. “As mulheres vivem essa condição de subjugação, tendo dificuldades em todas as frentes do mercado de trabalho, há centenas de anos, devido ao fato de termos uma sociedade fundada em modelos e morais altamente patriarcais. Então a adversidade é geral, algumas, porém, enfrentam resistências a mais por conta do espaço que habitam. É o caso das mulheres LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), especialmente as trans, que sofrem muito mais”, analisa Valdenízia Peixoto, professora-assistente do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB).

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A mestre em serviço social pela Universidade Federal de Pernambuco (2008) e doutoranda em sociologia pela UnB justifica a afirmação, ao explicar que lésbicas e bissexuais não são obrigadas a revelar a própria condição no mercado de trabalho, enquanto travestis e transexuais são mais facilmente reconhecidas. Uma  diferença entre o primeiro e o segundo grupo é o fato de que gays são atraídos por pessoas do mesmo sexo e aceitam o próprio gênero. Já trans não se identificam com o gênero em que nasceram, mas não necessariamente são homossexuais.


“Existe preconceito, mas a homossexualidade é um tema debatido há mais tempo, e houve mais conquistas nesse sentido. A questão T é a mais crítica”, complementa Claudio Neszlinger, executivo de RH na Dentsu Aegis, agência de publicidade britânica no Brasil, que, durante o mestrado em gestão para a competitividade na Fundação Getulio Vargas (FGV), tem pesquisado a inclusão de pessoas trans no trabalho. Ambas as populações, no entanto, são discriminadas no mercado.


“Muitas lésbicas optam por não revelar a própria orientação sexual por não se sentirem confortáveis”, afirma Valdenízia Peixoto. “No entanto, sempre surgem questionamentos, por exemplo, ao serem assediadas por colegas de trabalho e não corresponderem, ao nunca dizerem que têm namorado, ao não levarem companhia para a festa de fim de ano da firma”, acrescenta a pesquisadora do Grupo de Estudos de Gênero, Política Social e Serviço Social (Genposs). 

Sociedade homofóbica
Valdenízia Peixoto observa que, “enquanto as lésbicas são hostilizadas por serem ‘sapatonas’, as bissexuais são tachadas de promíscuas, de estarem em cima do muro ou de não terem conhecido um homem direito”. A professora da UnB alerta ainda que, quando a mulher esconde a orientação sexual, e essa é descoberta posteriormente, o caso pode acarretar tratamento preconceituoso por parte de colegas e até demissão.


Na visão dela, o fato de muitas lésbicas e bissexuais preferirem esconder a própria identidade sexual demonstra que a sociedade em que estão inseridas é patriarcal e lesbofóbica. “A consequência é que a pessoa fica impedida de revelar quem de fato é, o que acarreta problemas de sociabilidade em todos os âmbitos. Assim, a mulher se torna retraída, tem que forjar uma aparência, o que implica o bem-estar”, resume.


Lenne Evangelista, vice-presidente da associação Elos LGBT, com sede na Candangolândia, avalia que o mercado de trabalho tem ficado mais aberto. “Em lanchonetes e até no comércio, em lojas de perfil mais liberal, é mais comum ver gays e lésbicas. Para as trans, continua difícil.” Ela acrescenta que é comum mentir ou esconder a orientação sexual por causa de piadinhas, não necessariamente por causa de violência. “Existe também muitas vezes uma exigência do empregador para que a mulher use saia, batom, o que é difícil para as lésbicas de perfil mais masculino”, percebe.


“O assédio é muito grande e, em muitos casos, ele é velado, de modo que fica mais complicado provar.” Aos 49 anos, ela faz questão de deixar claro que é lésbica. “Eu chego chegando, todo mundo vê que sou sapa mesmo. Sou madura e bem resolvida. Se alguém vem com piadinha, corto logo, e as pessoas passam a me respeitar”, diz ela, que trabalha como cozinheira e mora com a companheira e a enteada.

Revolução pela educação

Professora de serviço social da UnB, Valdenízia Peixoto observa que “o conhecimento é libertário”, por isso vê com bons olhos iniciativas que tentam incentivar a permanência e o avanço das mulheres LGBT nos estudos.  É o caso de cursinhos pré-vestibulares específicos para pessoas trans: há registros de iniciativas nesse sentido em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Goiânia — numa iniciativa da Universidade Federal de Goiás (UFG). Valdenízia cita ainda como importantes iniciativas de instituições de ensino superior, como a UnB, que tem uma Diretoria da Diversidade, que atende alunos, docentes e funcionários; e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das pioneiras a ter um serviço de assistência ao público LGBT.

 

Relatos de mulheres LGBT 

 

Juventude engajada
Jussara Barros, 24 anos, cursa serviço social e trabalha como corretora numa empresa de plano de saúde. Lésbica e integrante do Conselho Distrital de Direitos Humanos, ela diz que foi natural se assumir. “Quando contei para a minha mãe, tinha 18 anos e estava namorando. Ela não esperava, mas hoje é tranquilo.” No serviço, ela diz nunca ter sofrido discriminação. “Eu não chego num trabalho contando, mas meu posicionamento fica claro para os colegas. Se perguntam, eu conto.” Por atuar no conselho, ela recebe denúncias de pessoas que sofreram com homofobia. “Caso apareça alguma piada ou comentário discriminatório, não devemos deixar passar. Se a gente finge que não aconteceu, vai voltar a acontecer”, diz.

 

Militância na esfera pública
Gestora pública na Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh), Ludymilla Santiago, 34 anos, é transexual. Formada em publicidade e propaganda, ela só atuou na área durante a faculdade, em estágios. Na visão dela, as dificuldades para pessoas transexuais no trabalho acontecem a todo momento. “Nem sempre a discriminação é dita na sua cara, mas as pessoas arrumam subterfúgios para deixar a mensagem de preconceito. Um exemplo é te chamarem para uma vaga de emprego e, quando te conhecem pessoalmente, afirmam que você não tem o perfil.” 
Na esfera pública, ela percebe que a discriminação é mais velada. “É mais difícil fazerem algo de forma direta, pois existem instâncias a que você pode recorrer. Mas tinha gente que questionava qual banheiro as trans podiam usar. Além disso, tentaram me tirar do cargo comissionado, alegando corte de gastos, mas não iam fechar minha vaga”, revela. A gestora pública acredita que o preconceito só não foi mais intenso porque, quando começou a trabalhar, tinha o nome social retificado. “Assim, as pessoas têm que me respeitar.”


Na adolescência, Ludymilla se via como homossexual, mas, com o tempo, se deu conta da questão de gênero. A partir daí, passou por acompanhamento psicológico até chegar a mudanças físicas. A situação não foi bem-vista por parte da família. “A relação foi quebrada. A gente convive, com respeito, mas não há vínculo”, diz. “Eu dependia financeiramente da minha mãe, então a transição foi adiada ao máximo. Saí de casa aos 27 anos, trabalhando com projetos direcionados à temática LGBT”, lembra.


Ela acredita que ter adiado o processo foi positivo para que tivesse a chance de se capacitar. “Sem apoio financeiro, nossa vida pode ter outro rumo — é o que leva muitas de nós ao mercado do sexo. A prostituição não é necessariamente ruim, mas, quando a lógica é de necessidade e não de escolha, é negativa.” Ludymilla defende que o Brasil precisa de uma legislação específica para a população trans.

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