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Palestrante e fenômeno na web Rossandro Klinjey fala de educação e perdão

O psicólogo paraibano se tornou sucesso nas redes sociais

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postado em 13/04/2017 20:35 / atualizado em 13/04/2017 20:37

 
Ele estava na Suíça para o lançamento do mais recente livro, As 5 faces do perdão, quando começou a receber, por mensagens, os próprios vídeos. Eram de uma entrevista feita em novembro do ano passado que viralizou nos últimos dias. O psicólogo clínico por formação Rossandro Klinjey, de Campina Grande (PB), começou a carreira como professor universitário, descobriu um talento para falar em público e, desde então, trabalha como palestrante em escolas, empresas e órgãos públicos. 

Aos poucos, expandiu o trabalho para os livros e também para as redes sociais, onde acumula quase 100 mil seguidores. Klinjey conta que o objetivo era trazer o universo do “mundo emocional” para palestras e livros que pudessem ser compreendidos por qualquer pessoa. 
 

Como o senhor trabalha esse fenômeno das redes sociais?
Penso no bem estar que essa informação poderia provocar nas pessoas que não estão perto de mim. A informação não é minha, não criei nada disso, é o que dizem as pesquisas e a ciência. Mas trago o conteúdo de uma forma palatável e compreensível. Falo bastante de coisas que mudaram para melhor na família, como o diálogo e paz, mas coisas que precisam continuar, como respeito.

Rede social é um ambiente neutro como outros, pode ser um instrumento para o que quiser, desde instruções para fazer uma bomba do ataque terrorista de um lobo solitário até melhoria de vida. Depende de como você usa essa ferramenta. A educação dos filhos é uma demanda crescente no mundo ocidental. Percebo o quanto os pais estão perdidos, desde a geração de 1980 pra cá. E o preço disso é muito alto.

Quais são as dificuldades de trabalhar nessa área?
A vida é mais fácil do que as pessoas falam. Não sei se sou positivo demais. Coisas acontecem comigo sem que eu faça esforço muito grande, para ser sincero. Maior dificuldade foi ser visto continuando na minha cidade. Morar em Brasília ou São Paulo talvez fosse mais viável devido ao aeroporto, mas aqui [Campina Grande] estão minha esposa, as pessoas que amo. O reabastecimento afetivo não posso levar comigo, preciso de raiz porque árvore não sobe sem raiz, a raiz me nutre. 

Sinto uma reação irônica ao sotaque mas ao final as pessoas esquecem de onde eu sou. Hoje não me sinto afetado pelo preconceito, é só uma preconcepção, ignorância no sentido de ignorar e desconhecer, mas aí conhecem e entendem. Perguntam se onde eu moro tem Coca-Cola, se ando de carro. Hoje vejo isso como brincadeiras, é mais cômico do que trágico.

Como é a rotina de palestrante?
As pessoas veem só o lado glamuroso, mas não veem os voos com horários complexos, a ausência em casa, o dormir pouco. A parte cansativa é mais física. Emocionalmente é muito rico, encontro amigos em vários lugares, aprendo em cada palestra, conheço pessoas incríveis. Sou um jovem do interior da Paraíba e o Nordeste é muito discriminado, por isso eu não subestimo inteligência de ninguém. Dou a mesma palestra nos Estados Unidos e na minha cidade, porque todo canto tem gente inteligente que merece respeito. Ser de uma região discriminada traz esse benefício. 

Como o senhor decide o tema dos vídeos?
Decidi os temas dos primeiros vídeos, depois perguntei o que as pessoas acharam, o que queriam ouvir. A interação é grande na internet, as pessoas mandam muitos temas, então eu listo esses conteúdos. E quando acontece um evento mais incisivo, procuro produzir um vídeo que reverbere. 

A educação é um tema muito frequente dos seus vídeos e palestras. Por que o senhor trabalha com esse assunto?
Por efeito dominó, quando a família não dá certo, isso repercute na escola e na sequência, pelas falhas e gaps morais que as famílias têm dado aos filhos, as crianças não respeitam educadores e a educação. Como reverberação disso no mundo do trabalho e na sociedade em geral, vemos pessoas sem compromisso e sem ética. Falo para os pais que ainda dá tempo: é preciso força, energia e investimento emocional, mas ainda dá tempo de resgatar os filhos. 

O senhor mencionou falhas e gaps morais na educação dos filhos. Pode dar algum exemplo?
Quando os pais não explicam para a criança que ela não pode ter tudo o que quer no tempo que ela quer, não ensina as frustrações. E pessoas assim não desenvolvem imunidade. Fazendo uma analogia, nos Estados Unidos, por exemplo, eles usam muito álcool gel e lá pipocam as doenças autoimunes. As crianças têm sistema imune deficiente porque não foram expostas às bactérias na época certa. Isso é como não ouvir “não” na infância. 

As pessoas que não aprendem normas do cotidiano se tornam incapazes de respeitar qualquer norma e frustração. Há loucura de imaginar que todo mundo tem que ser feliz e ter tudo o que querem. Pais cobrem de amor entre aspas, mas é um amor doente

Quais são as perguntas e problemas que te trazem com mais frequência?
No ambiente corporativo, é convivência, ética, a ideia de competência técnica, compromisso. E a meritocracia, que hoje é vista mais com um viés político e de ideologia, mas falta entender que de fato precisamos entregar resultados.

Nas escolas, os professores sentem angústia, sentem que falam para o nada e que esta geração tem indiferença com as aulas, olham com entojo. Muitos professores se afastam por depressão. Gosto de ir às escolas porque digo coisas que a escola não pode. Falo das teorias e da experiência prática, de exemplos do cotidiano do que vai refletir no futuro. Muitos pais ficam chocados, mas acho isso positivo, porque eles tomam medidas que mudam o comportamento dos filhos. Sempre digo aos pais que tiveram relação difícil com os próprios pais que o pior erro é esquecer a educação que os tornou quem são. Você tem que fazer adequações ao tempo, história e cultura, mas não abrir mão de tudo. Algumas coisas são perenes para o essencial da construção da família.  

Qual é o tema mais difícil de abordar?
Perdão. É um tema difícil porque as pessoas sabem muito do ponto de vista filosófico e teórico, mas perdem o foco do perdão na vida. É uma escolha emocional e tratar isso de uma perspectiva racional não faz a pessoa mudar. Eu acho interessante falar o que não é perdoar. Perdoar não é esquecer, nesse caso você só ressignifica a cena. Perdoar não é deixar de sentir dor. Por exemplo, a Cissa Guimarães pode ter perdoado o jovem que matou o filho dela, mas ele não volta, a saudade continua… Ela mostra que conseguiu seguir a vida, perdoar, como se dissesse: “Você tirou de mim muita coisa, mas não tira isso também, não tira a minha dignidade”. Perdoar também não é concordar com o que o outro fez. Você pode perdoar e chamar a polícia no caso de um crime, não pode eximir o outro de responsabilidade, porque assim não contribuiria para o crescimento emocional da pessoa.

Os estudos da psicossomática, ciência que une psicologia e medicina, mostram o quanto o comportamento imprime no organismo certas doenças. Quando você arquiva e rescinde, imprime cotidianamente. Essa é uma escolha que é dolorosa e compreensível, mas atinge muito quem está sentindo, não quem provocou.
 
Qual mensagem final o senhor quer deixar?
Acho que o que me chamou atenção quando comecei a assistir a muitas palestras é que vejo pessoas como o Mário Sérgio Cortella virando YouTuber e penso que o país está mudando. Vejo professores virando fenômeno da internet, o país está mudado. Estes são sinais positivos mas não definitivos, ainda temos uma longa caminhada, mas o país finalmente resolve encarar. Quero ser apenas alguém que contribui com isso, independente do nível. Quero ser brasileiro, morar aqui, construir aqui a dignidade e a segurança que vemos lá fora.
 
*Estagiária sob supervisão de Anderson Costolli
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