Jornal britânico causa polêmica com imagem do Cristo Redentor armado

Imagem ilustra uma extensa matéria do The Guardian sobre a Operação Lava-Jato; arcebisbo do Rio diz que charge "ofende o povo brasileiro"

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postado em 02/06/2017 16:54 / atualizado em 02/06/2017 17:31

Reprodução/The Guardian

 
O jornal britânico The Guardian publicou uma extensa reportagem sobre a Operação Lava-Jato. O que chamou a atenção dos brasileiros, porém, foi a imagem que ilustra a matéria: o Cristo Redentor armado e segurando um saco de dinheiro.
 

Em entrevista ao jornal RJTV, da Rede Globo, o arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, repudiou a ilustração. "O Cristo Redentor é símbolo de uma nação e de uma fé. Ao representar o Redentor dessa forma, o jornal The Guardian ofende o povo brasileiro. Cristo nos ensinou exatamente o contrário. Nos ensinou a amar o próximo, a fazer o bem ao outro e a ser despojado. E [o jornal] não sabe respeitar o povo brasileiro, tampouco os cristãos. É lamentável. Nós lamentamos muito isso e pedimos que seja respeitada a imagem de Cristo", afirmou.
 
Na reportagem, o jornal detalha toda a história da operação, desde seu começo, em março de 2014. Nada sobre os recentes escândalos políticos no país foi deixado de fora. Desde a prisão de Nestor Cerveró, até a delação do empresário da JBS Joesley Batista, passando pela morte do relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, Teori zavascki e pelos áudios do senador e ex-ministro Romero Jucá (PMDB-RR), dizendo que era preciso "estancar a sangria".

Logo no título, a publicação questiona se a Operação seria "o maior escândalo de corrupção da história". "O caso passaria a descobrir pagamentos ilegais de mais de 5 bilhões de libras (cerca de R$ 20 bilhões) a executivos e partidos políticos, colocaria bilionários na prisão, levaria um presidente para o tribunal e causaria danos irreparáveis às finanças e à reputação de algumas das maiores empresas do mundo. Também viria a expor uma cultura de corrupção sistêmica na política brasileira e provocaria uma reação feroz do establishment, suficiente para derrubar um governo e deixar outro à beira do colapso", afirma o jornal. 

Também há menções ao juiz Sérgio Moro, definido como "jovem e ambicioso" e à cidade de Curtiba, berço da Operação: "para os parâmetros brasileiros, a 845km de distância, ela não fica tão longe do Rio, mas culturalmente, são dois mundos distintos. Curitiba é conhecida como a Londres brasileira, porque as pessoas são consideradas mais inclinadas a se apegarem às leis do que os residentes das maiores cidades mais ao norte".

Por fim, o jornal alerta que, ao mesmo tempo em que há a esperança de que a Lava-Jato faça do Brasil "uma nação mais justa e eficiente", há o risco de a Operação "abalar a fragil democracia do país e abrir caminho para uma teocracia evangélica de direita ou o retorno de uma ditadura".
 

Confira outros trechos importantes da matéria:

"A Petrobras não era uma empresa qualquer. Além de ter o maior valor de mercado (e as maiores dívidas) entre as corporações da América Latina, ela também era o carro-chefe de uma economia emergente que tentava perfurar a maior descoberta de petróleo do século 21: vários campos de petróleo em águas profundas na costa do Rio de Janeiro" 
 
"A cena política do Brasil é altamente vulnerável à corrupção. Com dezenas de partidos e eleições em três níveis (federal, estadual e municipal) em um dos maiores países do mundo, as campanhas são extremamente caras e é quase impossível para um único grupo político garantir a maioria. Ganhar poder envolve conquistar eleições e pagar outros partidos para formar coalizões, ambas exigindo enormes somas de dinheiro" 
 
"Lula e [Dilma] Rousseff, sem dúvida, se beneficiaram politicamente com a corrupção. Mas é menos claro — particularmente no caso de Rousseff — se também tiveram ganhos pessoais. Por outro lado, a hipocrisia de muitos de seus acusadores era assombrosa. Na sessão de impeachment parlamentar em abril, muitos dos que votaram para expulsar Rousseff do cargo já foram acusados ou foram investigados por crimes muito mais sérios" 
 
"Temer escolheu um de seus aliados próximos para substituir Zavascki. Alexandre de Moraes, que era ministro da Justiça, foi direto do gabinete para a Suprema Corte. Foi uma clara violação do princípio constitucional de uma separação de poderes. Vários dos senadores que confirmaram sua nomeação eram seus colegas de Ministério — incluindo Jucá e o presidente do Senado, Renan Calheiros — que foram acusados na Lava-Jato. Quando um juiz do STF ordenou que Calheiros deixasse o cargo enquanto aguardava julgamento, ele simplesmente o ignorou. Moraes, que não tinha nenhuma experiência como juiz, é agora um dos 11 ministros da Corte que ouvirá o seu caso"
 
A matéria está disponível na íntegra (em inglês) aqui

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