Construção de Brasília inspirou músicas contra e a favor da nova capital

Mais de 70 canções retratavam o entusiasmo, o espanto, as dúvidas, as incertezas e as perplexidades provocadas pela mudança da capital do país do Rio de Janeiro para Brasília

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:53

Laisa Queiroz /

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

Na virada da 1950, quando estava sendo construída, Brasília inspirou mais de 70 canções, contra e a favor, em um bem-humorado debate, com a participação de um time de craques da música popular brasileira. A polêmica envolveu todo o país e se transferiu para o território das marchinhas, dos sambas, dos cocos, dos xaxados e dos rojões. Esse precioso legado musical, em discos de 78 rotações, foi reunido pelo pesquisador e colecionador Jorge Brito, em uma garimpagem de mais de uma década por sebos, arquivos públicos e arquivos pessoais.

As canções retratavam o entusiasmo, o espanto, as dúvidas, as incertezas e as perplexidades provocadas pela mudança da capital do país do Rio de Janeiro para Brasília. Claro que os cariocas, bem instalados em uma cidade quatrocentona, foram os que mais espernearam com a possibilidade de abandonar todas as mordomias e comodidades para se aventurar no cerrado. O temor de que a alegria migrasse para Brasília está presente na marchinha de ritmo frenético, Nova capital (Aldacir Louro, Sebastião Mota e Edgard Cavalcanti), de 1957, interpretada por Linda Batista: “Dizem, é voz corrente / em Goiás será a nova capital / Leve tudo pra lá seu presidente / Mas deixe aqui nosso carnaval”.

Nem tudo era dor de cotovelo pelo paraíso perdido do Rio de Janeiro. Grandes compositores cariocas também aderiram a Brasília. É o caso do trio Wilson Batista, Antônio Nássara e Jorge de Castro, que desencadeou o embate mais polêmico em torno de Brasília com Vou pra Goiás, em 1957. Embora marcado pelo tom saudosista, o samba toma o partido da mudança da capital, na voz de Nelson Gonçalves: “Seu doutor, tá legal,/chegou a hora de mudar a capital,/Ai, meu Rio…, meu Rio de Estácio de Sá/ Adeus, Pão de Açúcar e Corcovado/Eu também vou pra lá”.

O samba em exaltação à mudança da capital não passaria em branco. E o revide veio com Não vou pra Brasília, em que Billy Blanco destila ironia e esnoba mesmo as facilidades da chamada dobradinha, instituída por JK para convencer os funcionários da Velhacap resistentes à nova capital. Billy Blanco se nega a se deslocar para o Planalto Central: “Não vou pra Brasília/Não vou, não vou/ Eu não sou índio nem nada/ Nem uso a argola pendurada no nariz/ Não uso tanga de pena/ E a minha pele é morena/ Do sol da praia/ Onde nasci e me criei”.

O cearense Jorge Brito coleciona documentos, objetos, livros, revistas e, claro, discos referentes à capital. Hoje, tem mais de 200 LPs que contêm músicas (ou ao menos fotos), uma coletânea cuidadosamente embalada e conservada. “Minha favorita é Vamos pra Brasília, de Átila Bezerra, Sebastião Gomes e Valdir Ribeiro, que tocou muito no carnaval de 1958.” A letra de Vamos pra Brasília conclama: “Está na hora, Emília/ Vamos embora pra Brasília/ A ideia não é má/Nasceu com JK/E vai ser um chuá”.

Multiplicidade de estilos


Entre os estilos musicais com a temática de Brasília estão samba, hino, guarânia, baião, rojão, forró, coco, chorinho, valsa, peças orquestrais e marchinhas de carnaval. Em comum, elas têm, de modo geral, ritmos animados, mesmo quando a letra é uma crítica. O professor do departamento de música da Universidade de Brasília Alexei Alves explica que, nessa época, a música brasileira se modernizava. “Muitos artistas tentavam romper com o dramalhão dos anos 1950 e suas músicas carregadas de sofrimento. Ser moderno era ser alegre.” E qual melhor ícone de progresso e vanguarda do que a arquitetura da nova capital? É importante lembrar que a cidade era muito mais uma inspiração do que uma fonte de produção musical. “Brasília não tinha uma identidade cultural e musical nesse período, por isso a presença dos ritmos de outras regiões, principalmente cariocas e nordestinos”, conclui Alexei.


Para Jorge Brito, ainda é preciso melhorar a atenção com a memória brasiliense. “Não é possível encontrar muitas dessas músicas na internet, são gravações raras. Um museu com enfoque na história mais popular poderia torná-las acessíveis ao público.”

A primeira canção sobre Brasília de que se tem notícia é a guarânia Brasília, de Zé Micuim, Goiazinho e Goiá, gravada pelo Trio Amizade, grupo de goianos favoráveis à mudança que se apresentava diariamente na Rádio Brasil Central — pertencente ao engenheiro e então governador de Goiás, Jerônimo Coimbra, integrante da missão de demarcação da capital. “Um dia um engenheiro / teve um grande ideal / Trazer para o planalto / A capital federal / E foi assim que surgiu / A rádio Brasil Central / O Palácio do Catete / Para Goiás ser transportado / Será um feito de glória / Para este estado / Brasília, Brasília, Brasília / Quer dizer progresso e grandeza de uma nação.”

Mas, enquanto os goianos se alegravam, os cariocas, em especial os funcionários públicos, não gostavam da ideia de trocar a praia pelo sertão. Era muito comum ver os compositores tratando Juscelino Kubitschek por apelidos menos respeitosos e mais familiares, como “Seu presidente”, “JK”, “o home” e “Nonô”. Em 1957, Joel de Almeida canta “Ai, seu presidente, isso não se faz / levar meu samba, o meu pandeiro / E a mulata lá para Goiás”.

A sátira, no entanto, continuou com seu espaço garantido. Presidente bossa nova, de Juca Chaves, com seu tom crítico, porém simpático, alcançou enorme repercussão e se tornou o primeiro hit do compositor. Juca foi até o Palácio da Alvorada cantá-la para JK, que acabou gostando da música. Mesmo assim, seu assessor, Geraldo Carneiro, mobilizou o Departamento de Censura para que proibisse a canção. Contudo, a estratégia se reverteu a favor de Juca Chaves, que conquistou a fama com sua sátira a JK.

Letras da polêmica federal


Nova capital
“Dizem, é voz corrente / em Goiás será a nova capital / Leve tudo pra lá, seu presidente / Mas deixe aqui nosso carnaval/ O carioca chora da lágrima cair/ Se o reinado de momo/ Também se transferir”
Marchinha de 1956, de autoria do trio Aldacir Louro, Sebastião Mota e Edgard Cavalcanti, interpretada por Linda Batista

Vou pra Goiás
“Seu doutor, tá legal,/chegou a hora de mudar a capital,/ Ai, meu Rio…, meu Rio de Estácio de Sá/ Adeus, Pão de Açúcar e Corcovado/ Eu também vou pra lá”
Samba de Wilson Batista, Antônio
Nássara e Jorge de Castro, gravado
por Nelson Gonçalves em 1957

Isso não se faz

“Ai, seu presidente, isso não se faz/Levar meu samba, o meu pandeiro/E a mulata lá para Goiás”
Samba gravado por Joel
de Almeida em 1957

Não vou pra Brasília

"Não vou pra Brasília/ Não vou, não vou/ Eu não sou índio nem nada/ Nem uso a argola pendurada no nariz/ Não uso tanga de pena/ E a minha pele é morena/ Do sol da praia/ Onde nasci e me criei.”
Samba de Billy Blanco, gravado
pelo grupo Os Cariocas em 1957

Vamos pra Brasília
“Está na hora Emília/ Vamos embora pra Brasília/ A ideia não é má/ Nasceu com JK/ E vai ser um chuá”
Samba de Átila Bezerra, Sebastião
Gomes e Valdir Ribeiro, gravado por Jorge Veiga em 1958

Três perguntas para Juca Chaves


Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


Aos 74 anos, o cantor, compositor e humorista carioca (que já morou na Bahia e hoje vive em São Paulo), continua na atividade. Brindou vários presidentes com sátiras musicais e, claro, Juscelino Kubitschek não poderia ficar de fora. Juca se referia a ele como “presidente Bossa Nova”.

O que o senhor pensava sobre JK?

Na época em que escrevi Presidente Bossa Nova, eu era muito novo, tinha só 16 anos. Muito do que falava e escrevia era baseado no que lia na imprensa e nas opiniões das pessoas sobre dele. E uma sátira é isso, mostrar como os outros enxergam alguém. Sempre que fazem uma caricatura minha, por exemplo, me botam com um nariz grande, não sei por que (risos). Então ele era tudo isso: simpático, risonho, original. E foi sensacional conhecê-lo, pois nós dois tínhamos um gosto em comum: as modinhas. Me lembro dele cantando Peixe vivo.

Como conseguiu cantar Presidente Bossa Nova para Juscelino, no Palácio da Alvorada?

Eu gosto muito de sonetos, coisa que aprendi com Guilherme de Almeida. Portanto, fiz um soneto pedindo para o presidente me receber. Lá, eu cantei, ele sorriu e gostou. Quem não gostou foi o Carneiro, o assessor dele. Tanto que a música foi barrada na censura, o que só fez promover ainda mais JK.

E como o senhor vê Brasília?
Eu gosto da cidade. Sempre que posso, vou até aí. Apesar dos problemas, ela surgiu com boas intenções.

Tags:
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.