Forró candango une Jackson do Pandeiro e Alceu Valença com a galera jovem

Quem agita a cidade há 40 anos é o Trio Siridó

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 15:39

Verônica Machado

Rafael Ohana/CB/D.A Press

O menino só queria subir no palco e cantar. A batida do coração estava no ritmo da zabumba; a respiração, no compasso da sanfona; o suor compunha a melodia. Ali, na praça Coronel João Guilherme, na cidade de Caruaru, em Pernambuco, nasceu o desejo de espalhar a música nordestina para terras de futuro. Ele foi e o fez. O garoto seria um dos maiores representantes do que ouvia e cantava com tanta intensidade e levaria aquela mesma sensação para os ares da nova capital: Brasília. Bastou o carro de som informar que o bairro receberia Luiz Gonzaga e Marinês para um show que José Torres, 10 anos, implorou à mãe para levá-lo. No meio da multidão, parou para ouvir o anúncio: a criança que subisse ao palco e cantasse uma música do Rei do Baião ganharia um prêmio. E ele, ofegante, cantou: “Não boto a mão em buraco de tatu / Que é muito perigoso, é preciso ter cuidado / Lá dentro pode ter uma cascavel, ou um urutu / esperando com o bote armado”. De surpresa, seu Gonzagão se admirou: “Ê, moleque arteiro!”. José saiu falado na cidade, com as mãos aparando os doces prometidos, e com o destino traçado. Seria, quando homem feito, Torres do Rojão, o fundador do Trio Siridó.

Ainda no fim da década de 1950, o magro e esguio rapaz andou pelo Brasil e pousou no Rio de Janeiro como ajudante de obra. Nas construções, fazia o cimento entre assobios, carregava peso e cantarolava o forró de gafieira de Jackson do Pandeiro. O chefe da obra prestou atenção na empreitada e, como faltava o cantor de um trio conhecido, convidou-o para substituí-lo. A aventura durou três meses, até Torres resolver sair à procura do irmão desaparecido, Severino Torres da Silva. Destino: Brasília, 1962. “Nunca o encontrei. Mas cheguei aqui e não saí mais.”

Em meio à poeira da cidade que nascia, fez história e também 17 filhos. Netos? Perdeu a conta. Bisnetos, deve ter oito ou mais. O sucesso com as garotas — e com o público em geral — vem do charme de cantar seu forrozinho desde 1965. As poucas casas noturnas da época ficavam no Núcleo Bandeirante, conhecido como Cidade Livre, enquanto a W3 Norte era só barro. Nos cinco anos seguintes, destacou-se no famoso Casarão do Samba, ponto de encontro para dançar forró, seresta e samba, onde artistas de todo o Brasil tocavam quando iam conhecer Brasília. Existiam também as casas Camisa Listrada, Panela de Barro e Cachopa. Torres tinha muito o que tocar para os candangos. O encontro dos paus-de-arara, por exemplo, ficava perto da rodoviária em um lugar chamado Tabuleiro da Baiana. “Ali, a gente tocava forró até amanhecer.”

Quem chegou à capital primeiro para animar a noite dos trabalhadores, até antes da inauguração, foi o Trio Paranoá, que não existe mais. Na onda, Torres se juntou aos Cobras do Baião, com Jamelo do Baião, e surgiu a oportunidade de tocar com Luiz Gonzaga em Barra do Garças, Mato Grosso — como profissional dessa vez, 45 anos depois da cantoria de criança. Não perdeu tempo e instigou o sanfoneiro se lhe conhecia de alguma época remota. Relembrando o caso, vem a surpresa: “Rapaz, você era aquele moleque arteroso que tinha lá em Caruaru?”, e gargalhadas tomaram o ambiente com a ajuda de Dominguinhos e Arnaud Rodrigues.

Em 1972, com a formação do amigo Tico da Sanfona, surgiu o Seridó. “Mas não era palavra boa para emplacar; o gostoso para falar é Siridó com i”, diz. A parceria do trio com o Rei do Baião durou 25 anos. “Toda vez que ele baixava nessa região do Centro-Oeste, ligava para a gente tocar junto”. Não por menos, são quatro décadas de carreira, com oito discos gravados. Tocaram, além do Nordeste, no Sul do país, em Portugal, África do Sul e Uruguai. Foram além: apresentaram-se para o ex-presidente Lula, no fim do primeiro mandato. Tomaram uísque e comeram buchada de bode juntos, em um aniversário do presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha. “Ele queria ouvir forró do Nordeste. Indicaram a gente”, diz, orgulhoso.

A atual formação conta com Torres do Rojão no vocal e triângulo, Tico da Sanfona no acordeon e o zabumbeiro Charlinho da Zabumba. Este último está há dois anos no trio, mas foi criado com a turma.

O repertório hoje varia de canções da banda de forró Mastruz com Leite ao sertanejo dançante. No entanto, não se dispensa uma tradição: Mestre Tico da Sanfona encerra todos os shows com o Hino Nacional e difícil é ver alguém não se emocionar. O patriotismo está ao falar com carinho do orgulho de ser brasileiro e tocar um ritmo genuinamente nacional. Nesse assunto, podem contar com o parceiro Alceu Valença. O trio regravou uma obra do “cantor pernambucano porreta” com Carlos Fernando chamada Plano Piloto. “O Trio Siridó representa a síntese do artista de origem nordestina que se muda para a capital federal, incorpora-se ao universo dela, mas mantém intactas sua identidade e sua vocação cultural mais verdadeira”, declara Alceu ao Correio.

A peregrinação de Tico da Sanfona


Francisco Izidro, 65 anos, toca sanfona no Trio Siridó. Ele morava em Itaporanga, na Paraíba, quando descobriu sua paixão pela música. O pai era sanfoneiro, mas queria o filho na roça. Nos intervalos, Izidro aproveitava para aprender o instrumento. A vontade era tanta que, com 15 anos, foi até Olhos d´Água, no Ceará, a pé, para tocar em uma sanfona de um amigo. Percorreu, segundo o Google Maps, 461km (seriam 94 horas de caminhada, se não houvesse pausas).

Plano Piloto
Alceu Valença e Carlos Fernando


“É Asa Norte, é Asa Sul, é avião
É Lago Norte, é Lago Sul, é construção
Pau de Arara, pioneiro da nação
É Alvorada, é Taguatinga, é solidão
Na Asa Norte
Eu me lembrei de seu Oscar
Na Asa Sul
Eu me lembrei do meu irmão
Na W3 me lembrei de JK
Foi maquinista
Enquanto nós fomos vagão
E fomos lenha
Fomos fogo e fornalha
E o reverso da medalha
E o futuro sem razão
É Asa Norte, é Asa Sul, é avião”


Duas perguntas para Alceu Valença


Cadu Gomes/CB/D.A Press


O que Brasília representa para você?
Fiz duas músicas em homenagem a Brasília. A primeira delas foi no início dos anos 1980, uma parceria com Carlos Fernando chamada Plano Piloto, que gravei em dueto com Luiz Gonzaga. Depois, fiz Te Amo Brasília, que é uma declaração de amor à capital. Já fiz shows memoráveis no Gama, no Guará, em Brazlândia, em Taguatinga e em Ceilândia. Adoro a atmosfera do cerrado, o céu com um azul que não se vê em outro lugar, a arquitetura extraordinária de Oscar Niemeyer; tem gente de todos os cantos do país. No fim de 2012, recebi da presidente Dilma a Ordem do Mérito Cultural, em cerimônia no Palácio do Planalto.

Como você analisa o cenário da música nordestina em Brasília?
A música nordestina autêntica muitas vezes está mais presente em Brasília do que em algumas localidades do próprio Nordeste, onde manifestações musicais de sentido meramente comercial sistematicamente usurpam a verdadeira arte nordestina e dominam os meios de comunicação. Em Brasília, o aspecto cultural é mais valorizado, existe uma integridade notável que funciona também como um referencial de integração entre as pessoas. Não posso deixar de citar a Casa do Cantador, em Ceilândia, que promove festivais de repentistas e poetas cordelistas e possui as funções social e cultural admiráveis. Fiquei emocionado nas vezes em que me apresentei por lá.

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