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Correio Braziliense

Banda Raimundos completa mais de 25 anos de estrada

O grupo já se desfez, refez, quase se desfez novamente e continua atuante. Para o vocalista Digão, a cidade virou uma simples consumidora de produções exportadas.

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:44

Raissa Lomonte - Especial para o Correio

Patrick Grossner/Divulgação - 15/12/10

A história dos Raimundos começou sem muita pretensão. Vizinhos em um bairro nobre da cidade, Rodolfo Abrantes, o primeiro vocalista do grupo, e Digão, atual vocalista, se tornaram amigos por compartilharem o interesse pela música. Era1987. Os jovens eram fãs do Ramones, banda norte-americana de punk rock formada em 1974, e neles se inspiravam. Por muito tempo, tocavam apenas covers dos grupos preferidos. Rodolfo, então, começou a produzir versões punks de músicas nordestinas, especialmente do sanfoneiro Zenilton, conhecido pelo bom humor de suas letras. A partir daí, surgia o Raimundos, nome que homenageia o Ramones. Rodolfo tocava guitarra, Digão, bateria, e para completar a banda, chamaram Canisso para assumir o baixo.

Com a chegada do último integrante, as primeiras composições do grupo começaram a surgir. E no réveillon de 1988, na casa de um amigo, eles fizeram o primeiro show da banda. Tempos depois, em 1990, a banda se separou. Rodolfo casou e foi morar no Rio de Janeiro. Alguns anos depois, os amigos receberam um convite e decidiram ressuscitar o Raimundos. Digão havia deixado a bateria e assumido a guitarra, por conta de problemas auditivos. Para ocupar o lugar vago, chamaram Fred, que era fã do grupo. A partir de então, a banda foi formalizada. A primeira fita demo foi gravada em 1993, um sucesso levou os brasilienses a programas de TV.

“Quando comecei a tocar, Brasília estava no auge do rock, era uma febre. Tinham muitas bandas. Foi aberto um espaço para nós, mas se fechou rapidamente. Tanto que o Raimundos acabou em 1990, e voltou depois de dois anos parado. Nós nunca fomos uma banda de ideologias, críticas políticas, nem nada. Falávamos o que tínhamos vontade”, recorda Digão.


O reconhecimento nacional veio em 1994, quando lançaram o primeiro álbum, Raimundos, que trazia a mistura característica da banda: forró com hardcore, uma produção assinada por Carlos Eduardo Miranda. Com o primeiro disco, eles venderam mais de 200 mil cópias e tiveram a oportunidade de conhecer seus ídolos do Ramones. “Nunca vou me esquecer de ter tocado com eles. Esse foi um dos maiores presentes que o Raimundos me deu”, reconhece Digão. O segundo álbum, Lavô tá novo, estendeu ainda mais a turnê dos jovens pelo país.

Em 1999, o grupo lançou um novo CD, com o nome Só no forévis. A música Mulher de fases, uma das mais conhecidas do Raimundos,  estava estourada nas rádios. Inesperadamente, no auge da banda, em 2001, Rodolfo decidiu abandonar a carreira que construiu com os amigos. O ex-vocalista credita sua saída à insatisfação que tinha consigo mesmo, e assume que exagerava com o uso de drogas. Pouco tempo depois, ele seguiu uma carreira voltada para a música gospel. Era mais uma vez, o fim do Raimundos.

Meses depois, Fred, Canisso e Digão resolvem retornar com a banda. Lançaram o disco Éramos 4, que conta com músicas de um show com o ex-baterista do Ramones, Marky Ramone. Digão assumiu os vocais, e Marquim entrou na banda como novo guitarrista. “O Raimundos representava o rock de Brasília. Um disco nosso tinha punk, hardcore e metal com rap. Essa época ficou para trás. O mercado mudou. Hoje há mais espaços para divulgação gratuita de músicos, mas, para chamar atenção, tem que fazer mais coisas. É mais difícil conseguir reconhecimento hoje em dia”, avalia Digão. Em 2002, a banda fez o lançamento do primeiro álbum totalmente inédito, o Kavookavala. Pouco tempo depois, o baixista Canisso abandonou o grupo e foi substituído por Alf, vindo de outra banda.

NOVA FASE


Após alguns desentendimentos, a banda sofreu mais duas baixas. Dessa vez, Fred deixou o grupo após Canisso retornar, em 2007, como baixista. Alf também deixou a banda. No mesmo ano, Digão convidou o baterista Caio para integrar o Raimundos. O brasiliense participava das bandas Sapatos Bicolores e Dr. Madeira.

O grupo voltou a fazer shows e lançou uma turnê em 2008. “Eu adaptei um estilo mais pesado na banda. Estamos nos esforçando ao máximo para não sermos os mesmos de antes. Somos um novo Raimundos. O público daqui nos valoriza e respeita. Brasília tem uma das rodas de rock mais animadas do país. Tocar aqui é muito bom”, diz Caio, que concilia a carreira de músico com a de dentista.

Digão e Caio continuam morando em Brasília, enquanto Canisso e Marquim se mudaram para São Paulo. Os encontros acontecem nos shows. “Eu já morei em São Paulo e Rio de Janeiro, mas não quero mais sair do DF. Me identifico com a cidade. Brasília é arborizada, tranquila, com uma bela arquitetura. Sofri muito com isso fora, pois em outros lugares não é assim, é muito tumultuado”, ressalta Digão.

O vocalista afirma que a nova formação da banda conseguiu atingir um público mais jovem. Para ele, a fase do Raimundos com Rodolfo ficou enterrada em um passado distante. “A galera que é fã das antigas não vai mais nos shows. Já estão casados, ficam mais em casa. Quem vai nas nossas apresentações é a ‘molecada’ de 14, 15 anos. Eles me veem como o vocalista. Este é o momento ideal. Apesar das mudanças, ainda é o Raimundos”, assegura o veterano. Para ele, Brasília já teve mais qualidade musical. “Em questão de música, a cidade está fraca. Vemos outros locais com o mercado mais avançado e diversificado. Brasília ficou presa ao sertanejo e à música eletrônica. Se antes nós exportávamos cultura, hoje somos meros consumidores de outros estados”.

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