Durante a construção da capital, o clima festivo não ficou de lado

Música permeou a cidade em construção e o povo, da residência do presidente aos acampamentos candangos

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:49

Luiz Calcagno

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press


Dos alojamentos e acampamentos onde os candangos viviam, ao Catetinho, residência oficial do presidente Juscelino Kubitschek em Brasília, as músicas ressoavam ao longe. O clima festivo era animado por figuras famosas que vinham do Rio de Janeiro (RJ) para se reunir com Juscelino, por  artistas convidados pela Rádio Nacional e pelos músicos que saíam dos canteiros de obras, das boates da Cidade Livre, e das festas populares, locais em que, — lembra o cantor Fernando Lopes, 81 anos, 53 de DF —, “ninguém ficava sentado”.

Serestas, forrós e xaxados representavam a primeira arte nas ruas de uma cidade em construção. Tendas de circo, prostíbulos  e até caçambas de caminhão viraram palco para cantores de todas as regiões do Brasil. Pioneiros que tocavam um instrumento e tinham coragem para se apresentar, além de, algumas vezes, ganharem o privilégio de conhecer o Presidente da República, muitas vezes terminavam amigos de personalidades como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Jamelo do Baião, 73 anos, 55 de Brasília, aprendeu a tocar com a sanfona do pai, no barracão da Novacap, na Cidade Livre. Tinha 18 anos. Com o dom para a música, ouviu no rádio a canção de Luiz Gonzaga Santa beata mocinha e tirou de ouvido. “Já saí tocando. Vim para cá no Batalhão de Engenharia do Piauí e trabalhei na construção por três meses. Fui o segundo sanfoneiro no Trio Paranoá. Toquei no Acampamento da Candangolândia, na zona boêmia, no Hotel Brasília e na Placa da Mercedes, que era um prostíbulo. Na época, quase não tinha mulher aqui”, contou.
Em uma boate chamada Eucalipso, Jamelo, que ainda era conhecido como Jamelão, tocava de terno e gravata borboleta. Em 1969, o sanfoneiro abriu um show para Luiz Gonzaga no Cine Teatro Alvorada, em Sobradinho. “Eu comecei a tocar para os operários da Novacap nos alojamentos e depois vim para o Bandeirante. Já toquei em todas as cidades-satélites de Brasília. Em 1969, o pessoal do Trio Siridó se apresentava comigo no meu próprio conjunto, Os Cobras do Baião”, disse.

Foi no segundo encontro com Gonzagão que o músico e compositor chamou a atenção do ídolo. “Um primo me chamou para me apresentar no restaurante do aeroporto e ele (Luiz Gonzaga) estava lá. Ele me mandou solfejar uma música minha que se chama Olhe Marilu. Solfejei e o Gonzagão disse para mim, ‘olha, Jamelo’, o apelido era Jamelão, mas ele me chamou de Jamelo. Alguém me deu esse apelido (de Jamelão) na Candangolândia. Ele olhou e disse, ‘Jamelão não’, e me batizou de ‘Jamelo’. E falou: ‘Você sabe que eu não gravo qualquer música, mas essa ai, eu vou gravar’”. Porém  o músico ficou tímido e não teve coragem de ceder a canção para o Rei do Baião. Acabou levando uma bronca por isso.

Arquivo Pessoal

Água de beber


Reza a história que foi na primeira residência de Juscelino que Tom e Vinicius tiveram a ideia de uma conhecida canção. Quem relata é Fernando Lopes, que ouviu a versão de outra cantora pioneira de Brasília, Glória Maria. “Ela contou que a dupla saiu para caminhar pelo bosque do Catetinho. Lá corria uma água muito cristalina e eles pararam às margens do riacho. Tom pegou a folha de uma árvore qualquer e a enrolou, para fazer um copo. Pegou um pouco de água e deu um gole, se virou para Vinicius e disse: ‘Água de beber’. Nisso, Vinicius olhou para o companheiro e respondeu: ‘Água de beber, camará’. E eles riram e comentaram que isso dava música”, riu.

Fernando esteve no Catetinho um dia antes do ocorrido. Ele relata que, nos fins de semana, Juscelino recebia músicos, principalmente do Rio de Janeiro, que se apresentavam em churrascos e saraus da residência. O presidente se reunia com engenheiros para discutir obras e projetos e, ao término dos trabalhos, fazia a festa. “Fui convidado pelo maestro Isaac Colman, que era da Rádio Nacional, para cantar para um amigo dele. Eu tinha vindo de Inhumas (GO) para trabalhar na rádio. Era 1959. Nem sonhava ver JK, mas quando dei por mim, estávamos frente a frente. Fiquei emocionado. Não sabia se apertava a mão dele, se o abraçava, se falava alguma coisa ou  me calava”, contou.

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

Promessa


Com os lábios trêmulos e o rosto vincado, Vera Silva Tomé, 83 anos, há 53 na capital, narra, cuidadosamente, trechos importantes da origem musical de Brasília. Vera saiu de Uberaba (MG) grávida, em julho de 1960, cinco meses após o marido, o músico João Tomé, deficiente visual, que tocava violão e mais oito instrumentos. “Um homem chamado Nego Véio o chamou para cá, mas ele descobriu que essa pessoa procurava um músico para substituí-lo. Desistimos. Outra pessoa convenceu meu marido a vir. Ele queria trabalhar na Rádio Nacional. Aqui não tinha água, estava tendo surto de febre amarela. Fiquei com medo e chorei.”


João Tomé tocava na noite. Além de trabalhar na Rádio Nacional,  apresentou-se em boates na Cidade Livre e no Hotel Nacional. A mulher ficava em casa cuidando dos filhos. Moravam com outros funcionários da rádio em um prédio invadido, na 410 Sul. Vera deu a luz a uma menina, no apartamento que ocupavam. Depois, foram transferidos para a 403 Norte. “Saiu uma ação de despejo seis meses depois. O assunto foi tema da Voz do Brasil. “Questionaram como colocariam uma filha de Brasília, recém-nascida, na rua. Nos mandaram para a 403 Norte”, lembrou.

Os primeiros músicos a tocar em Brasília vieram do Rio de Janeiro, mas, em seguida, começaram a aparecer artistas entre os candangos. Vera trabalhava como costureira. Fazia cenário para peças e musicais da Rádio Nacional. Com o tempo, além dos shows, João Tomé começou a dar aula na Escola de Música de Brasília, que funcionava no Centro Educacional Caseb, na Asa Sul. Eram vizinhos do ator e palhaço de circo Manfred Santana —  Dedé Santana, mais tarde um dos quatro Trapalhões. “Eles vieram para cá, desmancharam o circo que tinham e abriram uma boate. O Dedé e a família apareciam nos espetáculos da rádio” relata a candanga.

Em dezembro de 1960, ela se arrumava para um show da rádio, onde João Tomé se apresentaria. Os vizinhos bateram à porta da mulher quando ela estava quase pronta. “Ele (Dedé Santana) tinha um filho pequeno e que estava doente. Só que toda a família era de artistas. Todos iam se apresentar. Não tinham com quem deixar a criança. Então fiquei cuidando dela e não vi o show do João”. João Tomé morreu 11 anos depois, em 1971. “Trabalhei na Rádio Nacional por 15 anos. Além de costurar, ocupei um cargo de auxiliar administrativa. Até hoje deixo meu rádio sintonizado na estação”, sorriu.
 

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