Rap é manifestação artística tão importante como o rock em Brasília

Vera Veronika, DJ Ocimar, DJ Raffa e GOG são os representantes do gênero na capital

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 15:44

Felipe Moraes

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

Passa da hora do almoço, um vaivém de gente ocupa cada canto do Conic, uns sozinhos com fone de ouvido, outros em grupos, no lugar mais propício da região central de Brasília para uma boa prosa. DJ Raffa, num visual discreto, que não o denuncia como um dos patronos da cultura hip-hop no Distrito Federal, narra um episódio que serve como amostra da força da rima, dos MCs, dos DJs, dos b-boys e dos grafiteiros para a construção da urbanidade brasiliense. Em 2005, no Abril Pro Rap, um DJ de São Paulo, habitat dos Racionais MC’s, esteve no festival em Brasília e não acreditou no que viu e ouviu. “O público cantava as músicas de todos os grupos. E ele disse, ‘Caramba, nunca vi isso, tenho que mostrar lá”, lembra.

Isso em 2005. Mas o rap, antes e depois, no centro e nas periferias, é uma manifestação artística talvez tão importante e identificada com Brasília quanto o rock. “Se tem que ser dado um título musical para Brasília, é o de capital do hip-hop”, diz GOG. “Não ficamos só no avião. Vamos para as cidades, para dentro das cadeias, temos campeões de break, ações sociais reconhecidas. As pessoas falam da São Bento (estação de metrô em São Paulo que abrigou o início do hip-hop no Brasil), e ela foi importante, mas não temos histórias de maior longevidade do que aqui. Brasília funciona em termos de mercado e proposta, tem show todo fim de semana. Que movimento subterrâneo é esse? É o hip-hop do DF e do Entorno”, descreve um dos porta-vozes desse próprio movimento, a caminho do décimo trabalho de estúdio.

Do chão aos palcos

O tempo de envolvimento — três décadas — dos protagonistas da primeira geração do rap brasiliense confirma a declaração de GOG. DJ Raffa, do Plano Piloto, DJ Jamaika (Ceilândia), ex-Câmbio Negro, Japão, do Viela 17 (Ceilândia), e o próprio GOG, do Guará, começaram ainda adolescentes e meninos, frequentando bailes de soul e funk, depois migrando para rodopios e giros no chão. O prelúdio do rap é o break: no Plano Piloto, no Guará e em Sobradinho, no raiar dos anos 1980, e em outras cidades do DF, do meio para o fim da década. O Conic era um dos principais pontos de encontro.

Pouco a pouco, os dançarinos, com os ouvidos doendo de tanto escutar fitas cassetes copiadas de rádios ou vinis de bandas norte-americanas (N.W.A., Spice 1, Public Enemy, entre outras), começam eles próprios a compor, a falar de coisas que viam, ouviam e viviam. Violência, preconceito, intolerância, pobreza, fome, delinquência e sobrevivência.

Os Magrellos, grupo do qual GOG participou como b-boy, assinam com a Sony e gravam o primeiro disco brasiliense de rap. O recado sobre o que aconteceria nos próximos anos já é apontado no título: A ousadia do rap de Brasília. “Os anos 1990 no rap deveriam ter sido o que foram os anos 1980 para o rock de Brasília. De certa maneira, foram sim”, diz Raffa, que depois reforçaria os Magrellos. O DJ Leandronik, hoje no Patubatê, também ajudou a tornar o planalto referência na produção musical.

“Show é bom, é legal, mas sua participação com o público fica distante. Um caminho que o hip-hop tem que seguir é entrar nas escolas”, diz X, que se afastou dos palcos no começo da década passada e assinou projetos solo.

Cantando junto

“Todo mundo sempre falou da mesma coisa. Rap no Brasil já falou só de racismo. Mas as coisas foram mudando. A gente falava sobre onde morávamos. N.W.A. era sobre Compton (Califórnia). A gente, Ceilândia”, conta Jamaika, que alimenta carreira e projetos sociais. Da época de sucesso, guarda pelo menos uma lembrança dolorosa. Em 1995, quando havia formado o Álibi ao lado do irmão, Kabala, fez um show de lançamento do disco de estreia, Abutre, no P Sul. Era aniversário da região. “Meu irmão mais velho, Jackson, era policial militar, estava de folga. Passou por lá e levou nove tiros. A violência vinha pra dentro da casa da gente”, conta.

Japão, desde 2000 à frente do Viela 17, tem um currículo extenso de obras autorais e colaborações. Nasceu em 1971, mesmo ano da fundação de Ceilândia, e recorda as dificuldades de fazer música no DF. “De 1989 a 1994, era muita correria, sacrifício. Para fazer mil cópias de vinil, tinha que sair de carro. Lembro que trazia 250 vinis de São Paulo dentro de um ônibus. Hoje, é tudo no pen drive.”

Se no passado o estilo dos rappers era intimamente ligado a um visual carregado de marcas e grifes — tênis, agasalhos, blusões, correntes brilhantes, calças relaxadas —, os anos 2000 trouxeram novidades. A principal delas foi uma leitura diferente do que deveria ser feito nas canções. Agora, o público consegue cantar músicas e refrões inteiros com os MCs.

Duckjay, que divide as atividades do Tribo da Periferia com o DJ Bolatribo, vê o estouro de Carro de malandro como essencial para a continuidade do trabalho. “A gente tinha sonho de subir no palco, ver a galera cantar o refrão. E essa música fez isso, realizou um sonho”, diz o rapper. Hoje com estúdio próprio em Planaltina, a dupla opera uma marca chamada Kamikaze.

Com uma proposta diferente, aliando rap a funk e jazz e tocando com banda, o Ataque Beliz, criado em 2001, reúne um pouco da diversidade procurada pelo hip-hop brasiliense. O conjunto veio se metamorfoseando ao longo dos anos, mas sempre com o trio da formação original — Higo Melo, Alisson Melo e Anderson Silva. O discurso político é uma das bandeiras. “A definição política está nas entrelinhas, mais na postura de quem ouve do que quem canta”, acredita.

Top five

GOG
É o representante do rap na sua forma mais reflexiva e intimista. O empenho de GOG em elaborar crônicas sobre o cotidiano e a vida comum o coloca na condição de poeta da urbanidade.

Rapadura
Sem prejudicar a argumentação rapper, o cearense radicado em Brasília incorpora elementos nordestinos numa colagem sonora orgânica, tão regional quanto urbana.

Ataque Beliz
Inscrito numa linha musical que prioriza o diálogo do rap com outros ritmos — do jazz ao forró —, o Beliz merece atenção pela produção cuidadosa, que tem a rima como matriz.

X e o Câmbio Negro
Mesmo encerrado na virada dos anos 1990 para a década seguinte, o grupo clássico de Ceilândia ainda é lembrado pelo repertório de grooves e versos contundentes. Antes de O Rappa, O Câmbio mixou rap e hardcore.

DJ Raffa
Referência na produção de rap, Raffa é como o RZA ou o Dr. Dre do Planalto Central. A sagacidade nos scratches e na coleta de samples deu relevo criativo a artistas em Brasília e fora dela.

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