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Correio Braziliense

Tradições populares se misturam à cultura brasiliense e formam novos mitos

O Seu Estrelo mistura música, dança, teatro, circo e artes plásticas. O grupo e o folclore surgiram juntos

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Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

Foi um rebuliço. O Sol se apaixonou pela Terra. Ela, pelo Mar. Mordido pelo ciúme, o astro mais brilhante e imponente do céu tentou enganá-la. A mentira colou e, em pleno verão, ambos tiveram um enlace de amor. Foram dias de muita luz. Até que a Terra descobriu a armação. Tarde demais, já havia engravidado. Com vergonha de sua verdadeira paixão, o Mar, ela decidiu fugir. Queria dar à luz bem longe dali. De seu ventre, no coração do Planalto Central, nasceu um bicho diferente, um réptil alado.

A história é apenas um trecho da chegada e da saga do calango voador. Aos poucos, o mito se mistura à cultura brasiliense. Desde 2004, é entoado nas ruas da cidade, ao som do maracatu, pelos integrantes de Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro. O grupo popular foi quem criou a trova que só faz crescer, ganhar novos personagens e trazer para cá o ritmo vibrante e colorido típico do Recife. Assim como eles, músicos de outros conjuntos incorporam, à capital, a melodia contagiante que, há tempos, encanta terras pernambucanas.

O Seu Estrelo mistura música, dança, teatro, circo e artes plásticas. O grupo e o folclore surgiram juntos. O autor do mito do calango voador, Tico Magalhães, 35 anos, capitaneia a trupe formada por outros 12 artistas. Todos abusam de fantasias, pinturas e alegorias em performances embaladas por tambores, abês e gonguês. Criado por eles, o primeiro Festival Brasília de Cultura Popular se deu em 2004 e levou mil pessoas à Funarte. A pândega corre solta até hoje e, no ano passado, durou duas semanas, com público total em torno dos 35 mil.

No ápice da seca, lá por setembro, quando a umidade chega a níveis críticos e o sol parece rachar o chão, a cidade celebra o nascimento do calango. Por conta do aniversário do bicho, é nesse mês que ocorre o festival popular. Compassado pelo maracatu, um boneco verde, gigante e cintilante, nos moldes dos dragões chineses, representa o bicho folclórico da capital em dada hora da festa. “É uma homenagem para o calango”, sintetiza Tico. “A natureza propicia o mito e esse é cheio de elementos do cerrado.”

Mosaico

O batuque, a harmonia e as cores de gêneros tipicamente brasileiros aparecem também na Orquestra Marafreboi, mistura de maracatu, frevo e bumba-meu-boi. O aboio, o coco e a ciranda também se fazem presentes. Vindos de todas as partes do país, os 21 músicos que formam o conjunto se estabeleceram na capital federal por razões diversas e fazem questão de produzir um som com a cara da terra que escolheram para viver. “Brasília é um mosaico de estilos, do rock ao sertanejo”, pontua o maestro do grupo, Fabiano Medeiros, 43 anos. “O importante é fazer e difundir a música popular.”

Tem de tudo na orquestra, — de trompete e saxofone a guitarra e percussão. Composições autorais fazem parte do repertório com releituras de canções tradicionais de mestres como Sivuca, da sanfona, e marchinhas de carnaval. O manguebeat de Chico Science não fica de fora com uma interpretação instrumental de Praieira, uma das mais famosas do artista pernambucano. “É uma busca das raízes da música nordestina. O fato de pessoas de diferentes estados fazerem parte da orquestra enriquece nosso trabalho”, avalia o guitarrista Jorge Raposo, 37, o Jorge Recife, que também canta e compõe no grupo.

Mistura

O manguebeat foi um movimento musical que surgiu, na década de 1990, em Recife. Entre os principais representantes estão Chico Science e Nação Zumbi e o conjunto Mundo Livre S/A. Eles misturaram gêneros típicos de Pernambuco, como maracatu, coco e ciranda, com estilos da música pop internacional em voga na época. Chico Science morreu em 1997, aos 30 anos.
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