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Correio Braziliense

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Empresas de ônibus cobram aumento na passagem e fazem ameaças

Sindicato das companhias de ônibus reivindica reajuste médio de 30,7% na tarifa, uma das mais caras do Brasil. O presidente da entidade diz que, se o GDF não abrir a negociação, patrões não pagarão o salário e o 13º dos rodoviários

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postado em 16/11/2010 08:14

Juliana Boechat

Os empresários do sistema de transporte público voltaram a pressionar o Governo do Distrito Federal por aumento das passagens de ônibus. Eles alegam que o atual faturamento de R$ 50 milhões por mês oriundos da frota de 2.800 veículos é insuficiente para a manutenção da normalidade do serviço prestado à população e pedem um aumento de 30,75% em média nos atuais valores da tarifa. Caso o governador do DF, Rogério Rosso, não atenda as reivindicações “imediatamente”, os empresários ameaçam não pagar o óleo diesel para circulação dos ônibus, além de atrasar o salário e o 13º dos funcionários, o que resultaria em greve da categoria e, consequentemente, prejuízos para a população. Especialistas e usuários de coletivos rechaçam a ideia de reajustes, uma vez que consideram o serviço prestado pelas empresas de péssima qualidade. Ainda em agosto, Rosso descartou a possibilidade reajuste de passagens em sua gestão.

Em entrevista exclusiva ao Correio, na tarde de ontem, o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo do DF e dono da Viação Planalto (Viplan), Wagner Canhedo Filho, alegou que a as passagens deveriam render pelo menos R$ 70 milhões para o sistema de transporte público “sobreviver”. Para isso, ele propõe o aumento das passagens de R$ 2 para R$ 3 (50%); de R$ 3 para R$ 4 (33%); de R$ 1,50 para R$ 1,80 (20%); e de R$ 2,50 para R$ 3 (20%). “Nosso último reajuste de tarifas foi em 1º de janeiro de 2006. Ou seja, vamos para quase cinco anos sem aumento. Nesse período, aumentamos em 40% os salários dos rodoviários. Isso prejudica em demasia as empresas. Corremos o risco de não honrar nossos compromissos com os rodoviários”, explicou. No próximo dia 20, as empresas devem pagar os salários dos funcionários. A primeira parcela do 13º será transferida em dia 30. Os rodoviários garantem que, caso não recebam no fim do mês, vão parar imediatamente.

Apesar de não ter sido concedido o aumento desejado pelos empresários desde 2006, o ex-governador José Roberto Arruda deu desconto de 12% referente ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) sobre o preço do óleo diesel. Quando assumiu o GDF em caráter provisório, o distrital Wilson Lima cancelou o subsídio, o que foi mantido por Rosso. “Se o governo acha o valor da tarifa muito alto e não quer transferir o ônus para a sociedade, então que pague uma parte. As decisões políticas acabam comprometendo 75% da folha de pagamento neste mês e no próximo”, disse Canhedo.

Diretor do Sindicato dos Rodoviários do DF, que representa cerca de 10 mil trabalhadores, Lúcio Lima reconhece que as tarifas não são reajustadas há muito tempo e que os funcionários receberam aumento. Mas ele garante que a categoria não vai aceitar atrasos no pagamento de salários: “A qualquer momento que as empresas deixarem de cumprir a convenção coletiva, a reação será imediata. O Natal poderá ser sem ônibus”.

Iano Andrade/CB/D.A Press
Quatro perguntas para Wagner Canhedo Filho, presidente do Sindicato das empresas de Transporte Coletivo no DF

Qual é o maior problema do sistema de transporte público?
Nosso último reajuste de tarifa foi em 1º de janeiro de 2006. Nesse período, tivemos mais de 40% de aumento no salário dos rodoviários. O governador Rogério Rosso fez um estudo e chegou à conclusão que o reajuste não era necessário. Isso prejudica as empresas em demasia porque corremos o risco de não conseguir pagar os salários e a primeira parcela do 13º salário este mês. Se o governador não corrigir isso a tempo, o problema vai ficar muito grande para o próximo governador.

Qual é a saída para essa situação, no seu ponto de vista?
O reajuste tarifário imediatamente. Precisamos de 33% de reajuste tarifário, em média. A tarifa de R$ 2 passaria para R$ 3; a de
R$ 3, para R$ 4; a de R$ 1,50, para R$ 1,80; e a de R$ 2,50, para R$ 3.

Se o governo não aceitar o aumento de tarifas, quais serão as consequências?
Se tivermos que parar o sistema, como os passageiros vão andar? À medida que não conseguirmos pagar o óleo diesel todos os dias, os ônibus não rodam. Se pararmos de pagar os rodoviários, eles também param. A atual fatura é de R$ 50 milhões por mês para 2.800 ônibus da frota. O sistema de transporte deveria estar faturando R$ 70 milhões por mês.

O senhor acha justo pedir esse reajuste, considerando que os ônibus não cumprem horários, quebram com frequência e a tarifa do DF é uma das mais altas do Brasil? Como fica a população?
Brasília foi a unidade da Federação que mais renovou a frota nos últimos três anos. São 50% de carros novos. É lógico que ninguém quer que aumente, mas 50% do nosso custo é de vale-transporte, que o empresariado paga, e 15% vem do passe estudantil, que o governo custeia. Os outros 35% são usuários que atuam como profissionais liberais e repassam o valor para o serviço. Se a tarifa aumentar, eles não terão prejuízo. Com o trânsito caótico em Brasília, como chegar na hora aos lugares? Além disso, o DF sofre com vazios populacionais entre o Plano Piloto e algumas cidades, o que torna o índice passageiro/km muito baixo. Temos que dividir o mesmo valor de outras capitais por um número menor de usuários, o que deixa a passagem alta.


Para especialista, serviço é péssimo
O professor e especialista em trânsito da Universidade de Brasília (UnB) David Duarte considerou “falta de responsabilidade” dos empresários em negociar com o GDF a um mês e meio da troca de governo. “Até porque a prática deles é de irresponsabilidade com os usuários, que não têm alternativas de locomoção. Isso não é hora de negociar nada”, criticou. Segundo Duarte, os donos de empresa se aproveitam dos pontos fracos do governo. “O governo é refém das empresas de ônibus, porque, se eles pararem de trabalhar, complicam a vida da cidade. O diagnóstico, hoje, é de um serviço ruim, caro, sem pontualidade, sem conforto, segurança e frequência. É tão ruim que, quem pode, prefere utilizar carro e moto para evitar o ônibus”, acredita o especialista.

Monique Renne/CB/D.A Press - 4/8/10
Um possível aumento nas tarifas afetaria diretamente a vida do auxiliar administrativo José Mauro Gouveia de Medeiros, 29 anos. Morador da Vila Planalto, ele utiliza ônibus para trabalhar durante o dia e também para estudar na UnB pela manhã e à noite. “Eu pego quatro ônibus e gasto R$ 7 diariamente. Sou totalmente contra o aumento já que o serviço é de má qualidade e deixa o consumidor sem ter como se defender”, criticou. Canhedo Filho chegou a alegar que o aumento nas tarifas não prejudicaria a população (leia entrevista ao lado).

O Correio tentou entrar em contato ontem à tarde com o governador Rogério Rosso, com o governador eleitor, Agnelo Queiroz (PT), e com o atual secretário de Transportes, Paulo César Barongeno, mas nenhum deles foi encontrado. A assessoria de imprensa da secretaria informou que o DFTrans, responsável pela gestão do transporte público na capital, está avaliando as planilhas de custo das empresas para aprovar ou não o reajuste, mas o órgão garantiu que, em um futuro próximo, não há qualquer previsão de ônus ao passageiro.

Memória
Greves e caos

A população do DF passou um ano conturbado em relação ao transporte público. Em 10 de junho, os rodoviários fizeram uma paralisação relâmpago, das 6h às 8h. Três dias depois, os rodoviários implementaram a Catraca Livre e permitiram que os passageiros circulassem sem pagar durante um dia. Na semana seguinte, foi a vez do Jornada Legal, na qual 25% dos veículos foram retirados das ruas nos horários de pico.

Diante dos terminais lotados e da impossibilidade de se descolar, passageiros iniciaram um quebra-quebra na Rodoviária do Plano Piloto. A greve dita começou em 21 de junho e durou três dias e meio. Os patrões concordaram em pagar rejuste de 9% sobre o salário, o tíquete e cesta básica), retroativa a maio.

No começo de julho, a categoria ameaçou parar novamente, já que os salários foram depositados sem o reajuste acordado. Mas o valor foi depositado imediatamente e a situação, contornada. Em agosto, o problema se repetiu. Já naquela época, os empresários do sistema pressionaram o governador Rogério Rosso a reajustr as passagens para compensar os aumentos salariais. Ele, no entanto, negou qualquer alteração na tarifa.
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