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Consumo e tráfico de crack invadem as quadras residenciais do Plano Piloto

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postado em 12/12/2010 07:41 / atualizado em 12/12/2010 08:44

Breno Fortes/CB/D.A Press
Fim do dia na 402 Sul, o relógio marca 18h30. A quadra, como de costume, está bastante movimentada no horário. Por trás do comércio local, dois moradores conversam tranquilamente sob uma árvore, ao lado de um bloco residencial. A menos de 30 metros deles, um movimento estranho chama a atenção de quem passa. Um homem aparentando não mais que 25 anos recebe de um adolescente algumas notas. Eles parecem divergir sobre o valor, chegam a se empurrar, mas o conflito é resolvido logo, quando o maior apresenta ao menor três pedras de crack. O jovem, ansioso para consumir a droga, não se preocupa em esconder o rosto e, aos olhos de crianças, estudantes, idosos e trabalhadores, senta-se no chão. Com o auxílio de uma lata de refrigerante, fuma a substância com uma velocidade impressionante. Quem assiste ao garoto se autodestruir não se espanta mais. A vida segue como se nada de diferente tivesse acontecido naquele dia.

A mesma cena se repete em outras quadras (Veja mapa) das asas Sul e Norte, mudam apenas os personagens. Não importa se é dia ou noite, se a presença de pessoas é constante ou não. Os usuários de crack e os traficantes já não respeitam mais os espaços das famílias, os bancos das praças, os calçadões de cooper. A droga, que avança no Brasil de forma avassaladora, na capital do país deixou de ser restrita às tradicionais cracolândias, como no Setor Comercial Sul, no Setor de Diversões Norte e na Rodoviária. Ela invadiu as quadras nobres do Plano Piloto e, ao que tudo indica, não sairá de lá tão cedo. O retrato desse fenômeno foi constatado pela reportagem do Correio, que, durante a tarde de quarta-feira e a noite de quinta últimas, flagrou a atuação de traficantes e de dependentes em redutos antes considerados pacíficos.

Na 109 Sul, são dois mundos distintos no mesmo lugar. Enquanto centenas de pessoas se divertiam em bares e restaurantes, homens e mulheres alimentavam o vício num lugar escuro, atrás dos estabelecimentos. Em uma hora de observação, a reportagem identificou oito usuários e pelo menos dois traficantes. Um rapaz usando boné e camisa branca fez o percurso de cerca de 20 metros que separa a frente dos comércios e o fundo da quadra pelo menos seis vezes em 50 minutos. Ele se passa por flanelinha e, ao receber uma boa quantia de dinheiro dos proprietários dos veículos, corre até o traficante, que o espera encostado num muro, longe das poucas lâmpadas instaladas no local.

Enquanto o viciado acende mais uma pedra de crack, o “dono do pedaço” continua sua rotina de distribuição sem se importar. Ele é o único que não aparenta ser morador de rua. O traficante carrega uma mochila de marca, veste camisa e calça de grife e tem a barba e os cabelos bem aparados. Bem diferente dos seus “clientes”, a maioria maltrapilhos e sujos. Ele é discreto; evita se expor à luz das lojas, que pode revelar seu rosto. Toda transação é feita num piscar de olhos. O dependente entrega o dinheiro, recebe a droga e deixa a companhia do explorador em poucos segundos.

Por um instante, o consumo e o tráfico são interrompidos com a chegada de uma senhora, que, com um guarda-chuva, bate num rapaz de bermuda vermelha. A mulher parece ser mãe do usuário e exige que ele saia dali. O traficante e os viciados acompanham tudo sem esboçar reação. A senhora consegue tirar o rapaz do grupo, mas cerca de 20 minutos depois, lá estava ele, no mesmo lugar, fumando crack.

Efeitos
O crack age no sistema nervoso central, provocando aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremores, excitação, maior aptidão física e mental. Os efeitos psicológicos são euforia, sensação de poder e aumento da autoestima. Seu consumo pode levar à morte.

SAQUES E ZOMBARIA

Em plena luz do dia, na 403 Sul, é possível assistir a cenas estarrecedoras de crianças e jovens se drogando. Para sustentar o vício, eles contam com a boa vontade dos clientes de um supermercado na região. A todo momento, um deles consegue moedas, ou até mesmo alimentos, que são trocados pela substância que agrega cocaína, bicarbonato de sódio, amônia e água destilada. Quando a abstinência aperta e os jovens demoram para arrecadar dinheiro com as esmolas, eles resolvem furtar mercadorias no estabelecimento. A coordenadora de segurança do mercado, que não quis se identificar, contou que eles estão cada dia mais ousados. “Eles entram, saqueiam e correm, sem nenhuma cerimônia. Tem dia que ainda zombam da cara dos nossos funcionários, pelo fato de serem menores. Dizem que nós não podemos fazer nada porque eles não ficam presos. O que deixa a gente mais impotente é que tudo isso é verdade. Estamos de mãos atadas”, relatou.

Um outro trabalhador afirmou que o mais violento dos menores chegou ao ponto de dizer que ia denunciá-lo à polícia por conta de ferimentos que teve no rosto ocasionados por uma briga com um de seus colegas. “Ele brigou com um amigo dele por causa de droga e ficou com o rosto todo arranhado. Teve um dia que eu o coloquei para fora da loja e ele, irado, disse que ia chamar a polícia e falar que eu tinha batido nele. Me sinto impotente diante disso. Não sabemos mais o que fazer para que eles parem de incomodar”, lamentou o funcionário.

Articulação
Para a coordenadora do curso de Tecnologia, Segurança e Ordem Pública da Universidade Católica de Brasília (UCB), Marcele Figueira, qualquer ação isolada no campo da segurança pública será ineficaz para combater o avanço do crack. “Não será com a repressão que o crack deixará de ser consumido, porque eles vão buscar a droga em outros espaços. Esse problema só pode ser enfrentado com uma articulação federativa, porque nenhum estado consegue resolver isso sozinho. É um problema nacional, que precisa ser combatido com a união dos governos local e federal, a ação da Polícia Federal para impedir que as drogas entrem pelas fronteiras, além, é claro, da área social. De fato, só vamos avançar em algum sentido quando o crack deixar de ser tratado apenas como um problema da segurança pública e passar a ser tratado como um problema de saúde pública”, analisou a docente.

 

 

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