Cidades

Verba da União que estava rendendo juros no BRB finalmente vai para a Saúde

Juliana Boechat
postado em 06/01/2011 08:00
Agnelo e Rafael Barbosa visitaram o Hospital de Ceilândia ontem: garantia de obras para a unidadeA Secretaria de Saúde vai finalmente utilizar os recursos que vieram do governo federal para serem investidos no DF e estavam depositados em aplicações financeiras do Banco de Brasília (BRB). O secretário Rafael Aguiar Barbosa adiantou ontem que vai usar os R$ 467 milhões para ajudar a tirar o setor do estado de emergência. Do total, R$ 200 milhões irão para pagamento de dívidas herdadas da última gestão e o restante será destinado a programas como o Saúde da Família e o de combate à Aids.

O dinheiro estava no BRB havia três anos. Em 2009, uma investigação do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus) mostrou que o GDF recebeu, em 2008, R$ 378 milhões do Ministério da Saúde para investimento em programas específicos, mas, em março de 2009, R$ 238 milhões estavam aplicados no banco. Questionado, o governo da época disse que o recurso estava investido enquanto durasse o desenrolar burocrático das licitações. O problema é que até hoje esse dinheiro permanece aplicado no BRB. A diferença é que agora, depois de três anos de rendimentos, o montante chega a R$ 467 milhões.

A inutilização dos recursos chegou a ser motivo para ameaças de devolução ao órgão de origem. Mas a promessa do governo petista é de que o dinheiro será imediatamente utilizado. O secretário Rafael Aguiar Barbosa detalhou que quase a metade da verba será usada para quitar os chamados restos a pagar ; débitos acumulados de um ano para outro. A dívida reclamada pelos hospitais particulares pelo aluguel de leitos de unidades de terapia intensiva (UTI) pode entrar neste rol, mas primeiro está sendo auditada pelo GDF.

Dinheiro carimbado
Os demais R$ 267 milhões terão, obrigatoriamente, de ser investidos nos programas para os quais foram inicialmente destinados, como o Saúde da Família, o de combate à Aids e no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). ;Esse dinheiro chega carimbado. Se eles falam que devemos investir no combate à Aids, devemos respeitar isso;, explicou Barbosa nesta quarta-feira, durante visita ao Hospital Regional de Ceilândia (HRC) ao lado do governador do DF, Agnelo Queiroz (PT). Na ocasião, foram anunciadas várias medidas para melhorar o atendimento na unidade hospitalar. ;Estamos fazendo um esforço gigantesco para requisitar profissionais e recompor o quadro do hospital;, disse o governador (leia mais na reportagem abaixo).

Segundo o secretário, os recursos aplicados no BRB serão investidos na Saúde imediatamente. ;Estamos executando esses recursos desde hoje (ontem);, garantiu. Questionado sobre as dívidas deixadas pela antiga gestão, ele criticou: ;Não há dinheiro em caixa. Só há dívidas, que chegam a R$ 100 milhões;. As investigações do Denasus foram resultado de uma força-tarefa do governo federal no DF e decorrem de sucessivas denúncias de má aplicação dos recursos públicos por parte da Secretaria de Saúde.

HRC demanda reforma e profissionais
Pacientes levam horas na fila da unidade à espera de um médicoO governador Agnelo Queiroz (PT) continuou a saga pelos hospitais regionais do Distrito Federal, na manhã de ontem. Um dia após visitar o Gama, a equipe do Gabinete de Crise ; composta pelos secretários de Governo, Saúde, Obras e Transparência ; inspecionou o Hospital Regional de Ceilândia. Durante quase duas horas, o governador e os secretários conversaram com a cúpula do centro de saúde e olharam de perto a estrutura disponível. Apesar de avaliar o HRC como uma ;boa perspectiva;, Agnelo identificou questões emergenciais. Entre elas, a necessidade de consertar os aparelhos de tomografia, contratar funcionários, ampliar o espaço físico e reabrir o centro cirúrgico em 10 dias.

Segundo o governador, essas medidas poderão ser executadas em um curto espaço de tempo. Atualmente, o hospital conta com seis leitos de unidade de terapia intensiva (UTI). Mas a alta demanda obrigou a direção a fazer do setor de arquivos um espaço para internações. No futuro, o governador espera erguer um prédio à parte para acomodar 40 leitos que atendam aos pacientes neonatais, infantis e adultos.

Na próxima semana, a Secretaria de Saúde deverá abrir edital para contratação de novos médicos, principalmente clínicos-gerais e anestesistas. A diretora Imara Silva de Souza disse que são necessários de 36 a 40 clínicos e, pelo menos, 19 especialistas em anestesia.

Emergência
Nos primeiros 100 dias de gestão, Agnelo pretende abrir duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em Ceilândia. ;Se uma UPA realizar uma média de 500 atendimentos por dia, já desafogamos o hospital, que recebe 1.100 pessoas diariamente;, avaliou o governador. Após denúncias de piolho de pombo e infiltrações no local, o hospital iniciou os reparos da estrutura do centro cirúrgico. No futuro, o GDF pretende construir um prédio para ambulatórios. Dessa forma, Agnelo acredita que desafogará o edifício-sede.

Um convênio garante o andamento de nove obras no HRC. A do Centro de Anatomia Patológica começou há dois meses. A ampliação da farmácia, da UTI, do banco de leite, do setor de endoscopia digestiva, laboratório, pronto-socorro e do auditório, além da construção do ambulatório, terá início em fevereiro. ;Se o governo der os recursos que pedimos, resolvemos todos os problemas;, disse Imara, otimista.

Do lado de fora é possível ver a situação decadente do HRC. A falta de médicos se reflete em filas quilométricas. Ontem, no entanto, quando a reportagem chegou ao local, o segurança chamou os pacientes que esperavam há pelo menos meia hora. Porém, a demora apenas mudou de lugar. Não havia médico para atender quem sentia dor do lado de fora. O vigilante Paulo Ricardo Souza Gomes, 22 anos, estava com cólica renal e chorava de dor. Fez a ficha de atendimento e foi avisado da falta de médico. ;Vou procurar outro hospital ou voltar para casa. É muita dor e tudo o que eu quero é um medicamento;, suplicou. (JB)

Pressão do Entorno
Ceilândia é uma das mais populosas cidades do Distrito Federal: abriga um quarto do total de habitantes. Mas, além de atender a comunidade, o sistema de saúde da região administrativa recebe pacientes de cidades do Entorno, principalmente de Águas Lindas (GO), devido à proximidade geográfica. Atualmente, há apenas um hospital regional, 12 centros de saúde e duas equipes da família para atendimento em casa.

Melhorias à vista
; Reabrir o centro cirúrgico do HRC nos próximos 10 dias

; Consertar os equipamentos quebrados do hospital. Os tomógrafos, por exemplo, estão encostados desde abril do ano passado

; Ampliar imediatamente a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), de seis para 10 leitos

; Ampliar o pronto-socorro

; Abrir edital na próxima semana para contratação
de clínicos-gerais (de 36 a 40) e anestesistas (a demanda é de 19);

; Requisitar pessoal de outras unidades para o Hospital Regional de Ceilândia

; Construir duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) na cidade nos próximos 100 dias

; Construir um bloco para ambulatório

; Erguer um bloco para 40 leitos de UTIs neonatal, infantil e adu

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