Violência ameaça a tradicional Festa do Divino, em Pirenópolis

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postado em 03/06/2011 14:39 / atualizado em 03/06/2011 16:00

Renato Alves

Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 31/5/2007
A violência que toma conta das cidades goianas compromete a mais tradicional festa do estado vizinho do Distrito Federal. Números cobrirão os trajes coloridos dos mascarados das cavalhadas de Pirenópolis. A medida inédita visa identificar os participantes da encenação e coibir crimes, alegam um promotor e um juiz da cidade, distante 140km de Brasília e com pouco mais de 20 mil habitantes.

Representação da luta medieval entre mouros e cristãos, as cavalhadas são o ponto alto da Festa do Divino Espírito Santo. Realizado há quase 200 anos, o evento ganhou o título de patrimônio imaterial do Brasil em 15 de abril de 2010. As celebrações religiosas de 2011 começam hoje — com alvoradas, missas, procissões e a peça musical — e vão até o dia 14.

Os mascarados saem às ruas nos três últimos dias da festa, quando também ocorrem as cavalhadas. Figura irreverente, o mascarado satiriza situações sociais e personagens políticos. O anonimato é fundamental na composição do personagem. No entanto, criminosos têm se escondido por trás das máscaras durante os festejos, alega o juiz Sebastião José da Silva.

O magistrado acatou a ação civil pública do promotor Rafael de Pina Cabral e estabeleceu regras aos mascarados. Ele tornou obrigatório o cadastro de quem quiser participar da festa trajando a tradicional fantasia de máscara de boi e roupas coloridas e brilhantes. Ao fazer o cadastro na Secretaria Municipal de Cultura, os foliões receberão uma espécie de adesivo com o logotipo da prefeitura e uma numeração.

Limites
Os mascarados terão ainda horário e local específicos para sair às ruas. Por ordem do juiz Sebastião da Silva, o mascarado flagrado fora do centro histórico da cidade ou do horário permitido (das 6h às 18h30) poderá ser preso acusado de crime de desobediência. O mesmo vale para quem estiver sem o adesivo de identificação.

Em sua decisão, o juiz cita um assassinato ocorrido em 2009. Jane Abreu de Brito, 39 anos, morreu com tiros disparado por alguém usando máscara na noite de segunda-feira da Festa do Divino. A polícia ainda não identificou o assassino. Para o promotor Rafael Cabral, o cenário piorou desde então, principalmente por causa do consumo de crack.

Cabral diz ainda ter relatos de furtos, roubos e até estupros cometidos por mascarados nas edições anteriores da Festa do Divino. Ele acredita que o cadastro inibirá os criminosos. “O dono do número será identificado imediatamente em caso de delito. O mascarado que quiser apenas brincar se sentirá ainda mais seguro”, afirma.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press -31/5/2007


Decisão divide a cidade

A identificação dos mascarados tem total apoio dos policiais de Pirenópolis. Sem apresentar estatísticas, a delegada Geinia Maria Etherna cita furtos, agressões e atentados ao pudor como os crimes mais frequentes cometidos sob o anonimato das fantasias durante a Festa do Divino. Segundo ela, as investigações do homicídio cometido em 2009 permanecem sem conclusão devido à dificuldade de identificação do suspeito, que usava máscara no momento do crime.

Além do homicídio ocorrido em 2009, Geinia menciona ainda carros danificados sem que os proprietários tenham a quem responsabilizar; mulheres submetidas à violência sexual; furtos de câmeras fotográficas e filmadoras; lesões a pessoas que nem sequer sabem quem e por quê cometeu a agressão; maus-tratos a animais; crianças e adolescentes ingerindo bebida alcoólica e circulando à noite. “A nossa intenção é intimidar a ação dessas pessoas que deturpam o espírito da festa e da figura dos mascarados e se aproveitam para cometer crimes e perturbar a ordem pública”, afirma a delegada.

Geinia Eterna garante o sigilo da identidade dos mascarados cadastrados. “Só a polícia terá acesso a esses dados, e se precisar.” Mas a alegação não convence os moradores mais antigos, como é Pompeu de Pina, 78 anos, 60 deles à frente da organização das cavalhadas. “A festa e a cidade vão ficar mais tristes. Não podem censurar o mascarado, um crítico dos políticos.”

Pompeu observa que, “se a moda pega”, as restrições às fantasias chegarão a outra famosa festa religiosa do estado, a Procissão do Fogaréu, realizada na semana santa, na cidade de Goiás, também conhecida como Goiás Velho. “Já pensou se proibirem os farricocos?”, indaga. Farricocos são os homens encapuzados que representam soldados romanos à procura de Jesus.

Participante quer outra solução

O cadastramento dos mascarados começou na segunda-feira. Até a tarde de ontem, pouco mais de 20 pessoas procuraram o posto montado na delegacia de Pirenópolis para pedir a identificação, a maioria pais de crianças que sairão fantasiadas. Geralmente, cerca de 1,2 mil mascarados circulam pelas ruas  da cidade em cada dia de festa. Foliões ameaçam não se registrar e boicotar o evento.

Moradores de Pirenópolis alegam que o fim do anonimato prejudica a identidade das cavalhadas. “A decisão (judicial) descaracteriza e criminaliza a figura dos mascarados”, reclama Daraína Pregnolatto, coordenadora do Ponto de Cultura Guaimbê, no município goiano. Ela encabeça o movimento contrário às regras impostas pela Justiça.

Daraína sugere outras medidas para resolver os problemas de violência relacionados a alguns mascarados. “A ação policial geralmente é bruta, autoritária e violenta. É preciso preparar os policiais para lidar com os mascarados, assim como promover ações educativas para valorizar a festa, a figura do mascarado e conscientizar a população.”

Rawston Barbosa da Veiga, 24 anos, veste máscara na Festa do Divino desde os 13. “Cresci vendo meus tios e meu pai fantasiados. O mascarado é a alegria do povo, ele brinca com todo mundo, pede comida, bebida, dinheiro pra comprar cachaça, tudo num clima de festa”, conta. Ele faz parte de uma turma de 250 mascarados do tipo catulé, que saem com roupa social e máscara de boi.

Para Rawston, a identificação ordenada pela Justiça não vai inibir os crimes. Ele critica o adesivo com o número distribuído pela prefeitura. “Qualquer um pode mandar fazer igual, a lona de banner é um material simples, dá para fazer em Anápolis ou qualquer cidade mais perto. Se eu me cadastro e alguém comete um crime com meu número nas costas, como fico?”, questiona.

Turmas de mascarados ainda tentam uma audiência com o promotor da cidade para pedir a retirada da ação civil pública que originou toda a polêmica. “Propomos a carteirinha dos mascarados, com nome, endereço, foto e a turma, para ser apresentada com um documento de identidade. Também seria feito um cadastro, mas sem um adesivo de quase 30 centímetros na fantasia”, explica Rawston. (RA)

Batalha medieval
As cavalhadas de Pirenópolis ocorrem sempre após os festejos da Festa do Divino Espírito Santo, em três dias: um domingo, uma segunda e uma terça-feira. Realizada desde 1826, representam as lutas entre cristãos e mouros durante a ocupação da Península Ibérica (do século 9 ao 15). Dois exércitos com 12 cavaleiros cada se apresentam no Campo das Cavalhadas — espécie de estádio construído na entrada da cidade —, encenando a luta, ricamente ornados e com coreografias equestres. Nessa época, mascarados saem às ruas, a cavalo ou a pé, fazendo algazarras.

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