Voluntários se mobilizam para ajudar pacientes do Hospital de Apoio

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postado em 04/09/2011 08:12

Leilane Menezes

Iano Andrade/CB/D.A Press

Há sempre alguém a se despedir da vida nos corredores do Hospital de Apoio. As paredes brancas e frias não são suficientes para abafar o choro, contido ou desesperado, vindo dos leitos. Nem tudo, porém, é tristeza. A fé também vive ali. As orações vencem o pranto e ecoam pelo ar. As preces vêm da capela ecumênica, cheia de flores. Aos pés de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, fotos de quem necessita de intercessão. Apesar do símbolo católico, há espaço para todas as crenças.

Enquanto isso, algumas pessoas seguem esperançosas na luta pela vida. O Hospital de Apoio não é um centro de atendimento comum. Ali não existe pronto-socorro. Quem chega a esse local deseja prolongar seus dias de vida com conforto e tranquilidade. Esses pacientes já receberam todos os tratamentos viáveis em outros hospitais. Não encontraram a cura. Quando se internam nesse ambiente, buscam cuidados paliativos. A maioria vive em regiões carentes ou veio de outras cidades e estados.
Eles ganharam preciosos aliados nessa batalha: os Voluntários do Apoio. Graças à bondade de desconhecidos, a permanência para os doentes e acompanhantes tornou-se um pouco menos dolorosa. O grupo de voluntários presta 23 serviços diferentes. A intenção é fazer com que os pacientes sintam-se acolhidos, muito além das necessidades físicas.

A equipe construiu a capela. Os voluntários providenciam jantar, lanches de dia e à noite, remédios, roupas, cadeiras de dormir e cadeiras de rodas. Fornecem material de higiene pessoal, fazem reformas nos espaços físicos, mantêm um bazar e muito mais. Oferecem até cartões telefônicos a quem precisa ligar para casa. Os que estão em tratamento ganham ajuda para transporte, dinheiro para exames, cestas básicas e podem até ter facilidades para resolver problemas fora do hospital (jurídicos ou bancários, por exemplo). Sem pagar nada por isso. Há também grupos católicos, evangélicos e espíritas que levam conforto aos doentes e familiares.

Casamento
A atuação dos 141 voluntários não tem limites. No ano passado, um dos pacientes, João*, 26 anos, que sofria de câncer em estado terminal, manifestou o desejo de se casar. João tinha um tumor na cabeça. A doença se espalhou para outras partes do corpo. Ele não queria ir embora sem antes tornar-se o marido da mãe de sua filha. Os voluntários se mobilizaram para cumprir o desejo. Recorreram ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) para acelerar o processo, que pode demorar mais de um mês. Conseguiram autorização.

João não tinha um mês para desperdiçar. A festa foi organizada às pressas, com tudo a que um casamento tem direito: vestido de noiva, padrinhos, convidados, juiz de paz e bolo. João e sua namorada disseram sim dentro do Hospital de Apoio. Durante um momento, o medo da morte deixou de existir. Só importava a vida. Meses depois, porém, João não resistiu ao câncer. Mais do que alimento ou dinheiro, os voluntários doaram vida a João e a muitos outros.

Organização
Os Voluntários do Apoio se organizaram em 2010. Ações individuais de solidariedade, entretanto, ocorriam desde a fundação do centro de saúde. No ano passado, surgiu a necessidade de catalogar as doações, cadastrar as pessoas dispostas a ajudar e mapear as carências do centro de saúde. A turma se dividiu e cada área ganhou um coordenador. Nos encontros mais recentes, ficou decidido que a verba dos próximos meses será para trazer privacidade a quem está internado.

Os voluntários vão instalar cortinas de plástico entre as camas. Há três doentes no mesmo quarto. Um vê a dor do outro, acompanha os procedimentos médicos e até a morte do colega ao lado. Os espaços serão divididos, em breve. Outra urgência é a compra de cadeiras de dormir. Os acompanhantes ficam o tempo todo ao lado de quem está enfermo. Sem ter onde deitar-se, passam a noite em bancos de madeira, colchonetes finos ou até no chão.

Há 19 poltronas de descanso. Dessas, 16 estão quebradas. Sobram apenas três para uso dos acompanhantes. O grupo de ajuda está em busca de dinheiro para consertá-las. São 800 crianças cadastradas na instituição. Somam-se a elas os adultos, distribuídos em 70 leitos. São feitos mais de 1,2 mil atendimentos nos ambulatórios, todo mês. Quem está em tratamento precisa da companhia de um responsável, de acordo com as normas da Secretaria de Saúde. Mesmo com essa exigência, os acompanhantes não têm direito a jantar. São três refeições diárias, e o último lanche é servido às 17h. Depois não há comida, somente a servida pelos voluntários.

Os voluntários tiram dinheiro do próprio bolso. A verba também vem do bazar — importante para garantir roupas, sapatos e acessórios a quem, muitas vezes, mora durante anos no hospital e não tem salário. As peças são vendidas a preços simbólicos, R$ 1 ou R$ 2. O valor arrecadado volta para os pacientes em forma de melhorias. Um projeto de reciclagem ajuda a suprir despesas. Eles vendem mais de 1,5 tonelada de material reciclável (caixas de leite e de suco, por exemplo) por mês. Uma biblioteca e uma brinquedoteca devem ser construídas. Tudo com ajuda de parceiros, como o Movimento Maria Cláudia pela Paz (fundado pela mãe da moradora do Lago Sul assassinada em casa, em 2004).

Anjos
Os motivos para entregar-se ao voluntariado são diversos. Algumas pessoas já estiveram doentes e passaram a ver a vida de outra maneira. Outras sentem satisfação em se tornar úteis. Mais do que boa vontade, é preciso firmar um compromisso com a responsabilidade. A aposentada Lúcia Irene Minikowski, 60 anos, moradora do Park Way, é uma das coordenadoras do grupo. Ela também atende por Sukhari, nome espiritual que ganhou na Índia.

Sukhari dedica-se a ajudar o outro pelo prazer de ser mais humana. “Quando a gente faz algo de bom por alguém, ganha muito mais de volta. É uma sensação maravilhosa. Eu não sou a mesma pessoa de antes. Hoje, minha religião é o amor. Aprendi que as minhas dores são mínimas”, relatou. A princípio, muitos demonstram receio em conviver com os pacientes do Hospital de Apoio. Para isso, é preciso saber lidar com morte e sofrimento.

“No começo, eu não sabia se ia conseguir conviver com tanta dor. Em pouco tempo, vi que todos aqui têm esperança. Eles não se entregam. São exemplos de força”, afirmou a voluntária Maria da Conceição Oliveira, 58 anos, moradora da Asa Norte. Quem recebe a ajuda agradece. “Elas chegam com o coração brando, aberto. Peço que nunca nos deixem”, afirmou Isaías Andrade, 48. Ele perdeu os movimentos da cintura para baixo, depois de levar um tiro. O fato ocorreu na porta de sua casa, no último Dia dos Namorados. Com a ajuda do amor doado pelas voluntárias, pacientes como Isaías aprendem a enxergar o Hospital de Apoio como um lugar melhor.

*Nome fictício, a pedido
da equipe do hospital.

Para saber mais

O Hospital de Apoio, no Setor de Áreas Isoladas Norte (Sain), foi inaugurado há 17 anos. Divide-se em alas: A, B e C. Na primeira, ficam os pacientes de câncer em estado avançado. A segunda é destinada a doentes crônicos, em geral pessoas com danos neurológicos, que perderam total ou parcialmente a capacidade de se movimentar. Na última funciona a onco-hematologia pediátrica, onde são tratadas as crianças com problemas hematológicos ou câncer. Existem oito ambulatórios no Hospital de Apoio: psicologia, fisiatria , fisioterapia , nutrição, serviço social, odontologia, hematologia e terapia ocupacional. 

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