Volta pelo Plano Piloto revela a crescente quantidade de moradores de rua

Na 906 Norte, um grupo de 15 homens e mulheres improvisou uma vila. O Correio flagrou ainda habitações precárias com dezenas de pessoas no Setor de Embaixadas Sul e próximo à UnB

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postado em 18/10/2011 06:22 / atualizado em 18/10/2011 07:56

Monique Renne/CB/D.A Press

 


Barracos de madeira, lona e papelão se espalham pelo Distrito Federal. O último levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) aponta que 2.365 pessoas vivem em situação de rua na capital do país. A quantidade de homens, mulheres e crianças em condições subumanas aumenta com a chegada das festas de fim de ano. As ações periódicas do Governo do DF de acolhimento dessa parcela da população não são capazes de conter os avanços das invasões em Brasília.

As ocupações das áreas verdes da cidade deixam a população incomodada. Cerca de 15 homens e mulheres se apropriaram do canteiro entre a 706 Norte e a 906 Norte, ao lado do UniCeub. Improvisaram moradias de madeirite, colocaram colchões e até um fogão para assar carnes. Fazem arruaça e promovem até festas em área pública. “Nos fins de semana, eles colocam o som em volume alto até tarde da noite. Às vezes, brigam entre si e a polícia não faz nada”, conta a moradora de um prédio próximo, que preferiu não se identificar.

Os becos entre as casas da 706 Norte, segundo ela, viraram banheiros dos moradores de rua. “Eles fazem as necessidades a qualquer hora, no meio das calçadas e das árvores. Ninguém aguenta o mau cheiro”, acrescenta. Segundo a comunidade da quadra, os vizinhos incômodos estão lá há cerca de um ano. Mas, há quase um mês, mais gente se juntou ao grupo. “A maioria consome drogas. Desde que isso começou, aumentaram os furtos de carros na região. Eles são agressivos. Já ameaçaram porteiros e moradores que reclamaram da baderna”, afirma outra moradora, que também optou pelo anonimato.

A descida da L2 Sul em direção à Ponte das Garças é outro local repleto de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Às margens da pista, no Setor de Embaixadas Sul, há pelo menos seis barracos de madeira onde adultos e crianças passam dia e noite. Em cada casa improvisada com tapumes de madeira, vive uma família composta, em média, por seis pessoas. O lixo se espalha por um dos locais mais nobres do Plano Piloto, a poucos metros da representação diplomática da China.

Área central
Grande parte das pessoas em situação de rua do Distrito Federal vive em Brasília. Segundo o último levantamento da Sedest, 38,2% dessa parcela da população estão no Plano Piloto, sendo que 37,3% se encontram na região central. O restante se divide entre as asas Norte (38,3%) e Sul (24,4%). Em seguida, as cidades com maior quantidade de sem teto são Taguatinga, Ceilândia e Núcleo Bandeirante.

Pernambucana de Tabira, Rosângela da Silva Santos, 31 anos, cresceu em invasões ao redor da Esplanada dos Ministérios. Atualmente, mora com o marido e os oito filhos nas imediações da Via N2, em uma área verde perto dos anexos dos prédios do Executivo federal. “Vim com meus pais para tentar a vida em Brasília. Não deu certo e viemos parar aqui. Estamos tão perto do poder. Dá para eles verem a gente. Mas nada dá jeito para a nossa vida”, lamenta. O restante dos barracos é ocupado pelos pais, irmãos e sobrinhos da pernambucana. Ela estima que pelo menos 30 pessoas vivem na região.

Há anos, a Via L3 Norte foi tomada por lixo e entulho produzidos pelos invasores. Atualmente, segundo os cálculos de um dos moradores da região, 12 famílias ocupam o canteiro da pista que contorna a Universidade de Brasília (UnB). Alguns deles sobrevivem da coleta de materiais recicláveis, como garrafas de plástico e latas de alumínio. “Fiz inscrições nos programas do governo, mas nunca recebi um lote. Não quero continuar aqui, quero um lugar digno para ficar”, apela Luiz Monteiro da Silva, 53, há quatro anos instalado no local.

Radiografia

Veja os dados referentes às 2.365 pessoas em situação de rua no DF:

» 76,4% — porcentagem de homens nas ruas

» 81% — têm mais de 18 anos

» 13,6% — adultos que declararam fazer uso contínuo de drogas

» 79,5% — passam a noite em locais públicos

» 68,9% — nasceram em outros estados do país

» 41,3% — cursaram até a 4ª série do ensino fundamental

Onde vivem

Plano Piloto — 38,2%, dos quais:
» 37,3% — Região central

» 38,3% — Asa Norte

» 24,4% — Asa Sul

Taguatinga — 19,9%

Ceilândia — 9,7%

Núcleo Bandeirante — 2,1%

Fonte: Sedest

Sedest prevê auxílio
A Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) pretende criar pontos de atendimento às pessoas que não têm onde morar. O objetivo é montar unidades do Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua nas cidades do DF em que existe a maior concentração de homens, mulheres e crianças nessas condições. Segundo o órgão, porém, ainda não há previsão de quando os espaços serão inaugurados.

Os centros serão lugares em que os cidadãos nessa situação poderão se alimentar, tomar banho e guardar pertences. “Será um espaço para romper com a dinâmica de sobrevivência na rua”, explica Meire Lia Lima, coordenadora do Serviço Especializado de Abordagem Social da Sedest. “A doação, por si só, faz com que a pessoa permaneça nessa situação e não desperta nela um desejo de mudança.”

Atualmente, quatro equipes da Sedest fazem as abordagens dos moradores de invasões de locais públicos. Um grupo fica com a Asa Sul, outro com a Asa Norte, outro com a área central de Brasília e o quarto se divide entre Taguatinga e Ceilândia. Quando é preciso, eles atendem outras áreas do DF. As abordagens ocorrem todas as semanas com o objetivo de aproximação e convencimento. “É um serviço de educação social. Cada caso é um caso e, muitas vezes, é um processo de longo prazo”, afirma Meire Lia Lima. A coordenadora ressalta que os trabalhos envolvem ações integradas com outros órgãos, como as secretarias de Saúde e de Segurança Pública.
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