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Maioria das construções históricas feitas de tábua no DF está apodrecendo

Conceição Freitas

Publicação: 05/11/2011 08:02 Atualização:

 ( Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Para que Brasília pudesse existir em concreto, foi necessário o suporte da arquitetura em madeira. Sem ela, não havia possibilidade de construir a capital moderna. Com tábuas, pregos, martelos e serrotes, ergueram-se hospitais, alojamentos, casas, escritórios, oficinas, depósitos, restaurantes, clubes, cinemas, serrarias, carpintarias, matadouros, mercados. Patrimônio histórico que foi negligenciado ao longo do tempo e que hoje se reduz a meia dúzia de unidades restauradas e a dezenas de construções que estão apodrecendo.

Os maus-tratos destinados às casas da Fazendinha, na Vila Planalto.  A casa restaurada que serve de abrigo para crianças, a igreja da Metropolitana e  o Museu. acima, construções no Núcleo Bandeirante nas décadas de 60/70 e 80 (Joaquim Paiva/Divulgação)
Os maus-tratos destinados às casas da Fazendinha, na Vila Planalto. A casa restaurada que serve de abrigo para crianças, a igreja da Metropolitana e o Museu. acima, construções no Núcleo Bandeirante nas décadas de 60/70 e 80
Quando o Plano Piloto foi inaugurado, havia ao seu redor mais de meia dúzia de pequenos aglomerados urbanos, todos feitos em madeira — Vila Planalto, Vila Paranoá, Núcleo Bandeirante (incluindo a Metropolitana e a Divineia), Candangolândia, Vila Telebrasília, resquícios da Vila Iapi e pequenas vilas nos arredores do Park Way e da Avenida das Nações. Era a comprovação histórica de que Brasília havia sido construída por 60 mil homens e mulheres que viveram, trabalharam, amaram, sofreram e moraram nos arredores da arquitetura e do urbanismo moderno. Ainda em 1958, Israel Pinheiro anunciava a existência de mais de 300 unidades em madeira, ao todo 47,5 mil metros quadrados de área construída. Antes de ser de concreto, Brasília foi de madeira.

Mais exemplar conjunto de arquitetura em madeira preservado na cidade, o Museu Vivo da Memória Candanga surgiu das ruínas do HJKO, o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, construído em 1957 pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (Iapi). Não foi uma conquista de mão beijada. Para conseguir o tombamento das 13 construções em madeira, a população do Núcleo Bandeirante e da Candangolândia conseguiu, depois de muito barulho, evitar a demolição do conjunto, até que a Secretaria de Cultura do Distrito Federal baixou o Decreto nº 9.036, de 13 de novembro de 1985, que transformou as unidades em patrimônio histórico e artístico de Brasília. Foi só o começo. Garantida a proteção do Estado, era preciso restaurar as casas, os galpões e a sede do antigo hospital.

Passado um quarto de século, o exemplo parou nele mesmo. Salvo cinco outras restaurações (ver quadro) e algumas conservações feitas pelos moradores, todo o restante do patrimônio em madeira ou está sendo devorado pelos cupins, ou deu lugar a alvenaria. Peças importantes, como a Igreja de São Geraldo, na Vila Paranoá, e o Toy Club, no Núcleo Bandeirante, caíram de podre. Outras, como uma das cinco unidades residenciais do Conjunto Fazendinha, não está longe disso.

Não existe nem no Governo do Distrito Federal nem na Superintendência do Iphan em Brasília projeto definido para restauração desse patrimônio. O que há no horizonte remoto é o projeto de recuperação de uma das casas da Fazendinha pela Secretaria de Desenvolvimento e Transferência de Renda. Mas tudo ainda é muito vago: espera aprovação do Iphan e de votação pela Câmara Legislativa do Plano Plurianual do DF. O restauro das demais depende de “vontade política”, como admite o subsecretário da Administração de Brasília, Luciano Lucas da Silva, nascido e criado na Vila Planalto e defensor da reforma das casas de tábua.

Os responsáveis pela proteção ao patrimônio em madeira na capital do país têm muito a aprender com a Superintendência do Iphan no Paraná. A começar do lugar onde está instalada sua sede: numa casa de madeira construída por volta de 1920 e que foi transplantada do lugar de origem para a Rua José de Alencar, no bairro de Juvevê, em Curitiba. “A arquitetura em madeira é muito fácil de ser feita e muito difícil de ser conservada, mas conseguimos preservar nossos melhores exemplares e de um modo que um particular não teria condições de fazer”, explica José La Pastina, superintendente do Iphan no Paraná.

A fórmula é a seguinte: o Iphan compra a casa (mas não o terreno), faz um levantamento completo de sua arquitetura, desmonta toda a estrutura, numera peça por peça e a remonta em outro lugar. “Como os terrenos de origem ficaram muito valorizados, não tem outra saída. É comprar a casa e mudá-la de lugar.”

Ironicamente, o Paraná foi o estado que mais forneceu madeira para a construção de Brasília. Vale novamente lembrar que o madeiramento serviu não apenas para erguer as construções provisórias, mas — principalmente — para fazer a forma das edificações em concreto. “Desde a década de 1950, o Paraná era um grande centro exportador de madeira, especialmente o pinho, retirado da grande floresta de araucária que cobria o Estado”, ensina La Pastina. A exploração predatória da madeira reduziu a floresta a apenas 1% de seu tamanho original. Restou o cuidado que o Patrimônio Histórico do Estado destina às casas que foram originalmente construídas pelos imigrantes europeus, especialmente poloneses e ucranianos.

O zelo com que o Paraná cuida do patrimônio em madeira mereceu o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade deste ano. O premiado Inventário da Arquitetura Residencial em Madeira de Curitiba, levantamento feito pelos arquitetos Key Imaguire, Marialba Rocha Gaspar, Fábio Domingos Batista e Andréa Berriel, bem poderia servir de espelho para os responsáveis pela proteção ao patrimônio histórico da capital do país.

Há oito anos no cargo, o superintendente do Iphan em Brasília, Alfredo Gastal, tem um levantamento do patrimônio em madeira feito antes de ter assumido a função. De lá para cá, nada foi feito. Gastal diz que o problema fundiário de Brasília dificultou a proteção dos bens em madeira. E alega também a falta de recursos humanos e financeiros: “Tenho apenas quatro funcionários, dos quais dois são arquitetos, eu e a chefe da divisão técnica”.

Sem poder contar com a proteção do Estado, a preservação do patrimônio em madeira depende de iniciativas particulares. Três delas merecem o reconhecimento público: as duas casas de arquitetura em madeira típica dos Estados Unidos nos anos 1950, na Vila Tamboril (Vila Planalto), que estão inteiramente preservadas, e uma garbosa casa azul com janelas e portas brancas, no Conjunto Fazendinha, também na Vila Planalto, que pertence ao GDF. A unidade foi restaurada, pouco a pouco, por iniciativa da diretora da Casa Abrigo, Gláucia Gomes, vinculada à Ampare-DF (Associação de Mães, Pais, Amigos e Reabilitadores de Excepcionais), da qual é fundadora.

Consertando aos poucos
Moradora da Vila há 35 anos, Gláucia precisava de um lugar para abrigar crianças com severa deficiência física e mental. Em 1994, a casa estava “um bagaço”, lembra-se a educadora. Paulatinamente, ela foi restaurando e reformando o que precisava de cuidados, sempre com a orientação do Iphan. “Mudamos o piso, porque as crianças precisavam de um chão seguro, e trocamos a fiação elétrica”, conta Gláucia. Houve mudanças também na cozinha e nos banheiros. As janelas mantiveram as armações originais, mas foram revestidas por dentro com blindex, por medida de segurança.

Construída em 1959, a casa abrigava servidores da Presidência da República e depois passou a ser moradia de servidores do alto escalão do GDF. Foi construída no acampamento da Pacheco Fernandes, construtora responsável pela obra do Palácio do Planalto. Nela moraram, entre outros, segundo Gláucia, Amália Geisel, filha do então presidente Ernesto Geisel, o ex-deputado federal Jofran Frejat e o ex-governador José Roberto Arruda, no tempo em que era servidor da CEB (Companhia Elétrica de Brasília).

É uma edificação sofisticada. Os armários embutidos, de madeira, têm treliça de ventilação. A sala é bastante espaçosa e arejada. O corredor que dá acesso aos três quartos é largo e claro. Um dos quartos tem closet (também de tábua). Havia uma piscina redonda (que foi coberta de terra, porque representava risco para as crianças), um galinheiro (hoje desativado) e uma guarita, tudo restaurado.

A manutenção de uma casa de madeira é muito mais dispendiosa que a construção de uma nova em alvenaria. “Às vezes, o conserto de uma janela fica mais caro que fazer um cômodo de tijolos”, compara Gláucia. As abas das janelas da casa foram fabricadas no Rio Grande do Sul. Tábuas que precisam ser trocadas são obtidas numa marcenaria especializada de Brasília. O segredo, diz a educadora, é fazer reformas periódicas. “Quando alguma coisa começa a estragar, mando consertar.”

É espantoso o contraste entre as duas casas vizinhas uma da outra, a da Ampare e a que era utilizada pela Kolping, instituição alemã de assistência social. A primeira é um primor de conservação; a segunda, invadida, tem tábuas podres, fiação exposta, janelas quebradas, telhado capenga. O Correio esteve lá, na quinta-feira pela manhã, mas nenhum morador apareceu à porta. No mesmo conjunto, uma outra casa, a maior das cinco, está sendo ocupada pela gerência de obras da Administração de Brasília. Suas condições também são deploráveis. “Estamos planejando mudar a gerência para outro local, possivelmente no Parque da Cidade, para fazermos a restauração da casa”, informa Luciano Lucas, mas não há data prevista nem para a mudança, nem para a reforma.

Até o mais simbólico dos monumentos em madeira da cidade, o Catetinho, padece os efeitos do desinteresse. No mês em que comemora 55 anos (foi inaugurado em 10 de novembro de 1956), o Palácio de Tábuas permanece fechado por tempo indeterminado. O subsecretário do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Cultura, José Delvinei Santos, alegou ao Correio, na semana passada, dificuldades para encontrar empresas especializadas em restauro. “Existem muitas no Brasil”, informa o superintendente do Iphan no Paraná, que amanhã inaugura outra restauração em madeira, a da graciosa Igreja de São Miguel Arcanjo, na Serra do Tigre, município de Mallet (PR), construída há mais de um século por imigrantes ucranianos.

O que restou

RESTAURADOS
» Catetinho (fechado à espera de nova restauração)
» Museu Vivo da Memória Candanga
» Igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, Vila Planalto
» Igreja Nossa Senhora de Fátima, Metropolitana
» Centro de Ensino da Metropolitana

EM BOM ESTADO DE CONSERVAÇÃO
» Duas casas na Rua 2, Vila Tamboril, Vila Planalto
» Sede da Ampare, no Conjunto Fazendinha, Vila Planalto
» Casa na Vila Telebrasília
» Casa na Metropolitana
» Casa do Pioneiro, no Núcleo Bandeirante

EM ESTADO DE ABANDONO E/OU APODRECIMENTO
» Quatro das cinco unidades do Conjunto Fazendinha, na Vila Planalto, pertencentes ao Governo do Distrito Federal
» Casas particulares na Vila Planalto, na Vila Paranoá, na Telebrasília, na Metropolitana, no Núcleo Bandeirante e na Candangolândia
» Consultório odontológico na Vila Planalto
» Igreja São José Operário, na Candangolândia

LEIA NA EDIÇÃO DE 19 DE NOVEMBRO DE 2011 — Que Brasília já estava construída quando terminou o ano de 1958?

Esta matéria tem: (6) comentários

Autor: Fernando Vidal
Nosso país, não respeita seu passado e nem pensa em seu futuro. É lamentável visitarmos cidades, outrora, belíssimas, mas hoje abandonadas principalmente seus centros históricos que não passam de território livre de viciados em crack. Brasília que tem um passado recente, não poderia ser diferente. | Denuncie |

Autor: waldir silva
Melhor derrubar isso do que gastar dinheiro público para reformar, afinal não passa de barracos que não servem para nada. | Denuncie |

Autor: Mauricio Melo
Se o próprio governo está podre em ruínas... | Denuncie |

Autor: Marco Seifert
Derubaram uma obra de Athos Bulção dizendo que era um muro; já nos arracaram dois hóteis bem carateristicos que tinham a cara de Brasilia. Agora esta tristissima noticia. O que vão dizer as futuras gerações de nós, incapazes de zelar de nossas raízes e de nosso passado. | Denuncie |

Autor: marcos sousa
É uma pena deixarem isso acontecer ! O país já não tem memória e a pouca que tem está se perdendo ... | Denuncie |

Autor: Luiz Soares
É lamentavel ver um patrimonio tão valioso ser abondonado pelas autoridades. Compete aos responsáveis angariar os recursos necessários. Os pioneiros e a população agradece. | Denuncie |

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