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Baixa remuneração desestimula pediatras a atuar na rede pública e privada

Ariadne Sakkis

Publicação: 02/12/2011 07:59 Atualização:

O Distrito Federal tem 40,62 pediatras a cada 100 mil habitantes. É a mais alta proporção entre os estados brasileiros. Entretanto, na prática, os moradores do Distrito Federal têm dificuldade de acreditar que a oferta é assim tão boa, mesmo que os 1.044 pediatras representem mais de 10% do total de médicos do DF. Há alguns anos, a capital vive uma fase de problemas no atendimento infantil tanto na rede pública quanto na particular. Diversos hospitais não oferecem mais a especialidade nas emergências. A categoria médica travou batalha com as operadoras de planos de saúde por causa da baixa remuneração e, na rede pública, cada vez mais crianças disputam consultas com os pediatras disponíveis.

A revelação faz parte da pesquisa Demografia Médica no Brasil, desenvolvida pelo Conselho Federal de Medicina e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). O estudo mostra que o Brasil está bem servido de médicos, mas há grande desequilíbrio entre o número de profissionais lotados na rede pública e na esfera privada em qualquer especialidade. Se há 2,93 médicos em postos públicos a cada mil habitantes, o mundo médico particular oferta 13,56 profissionais a cada mil moradores. Para os pediatras, no entanto, a situação é drástica nos dois modelos.

Investigação
O baixo valor pago pelas consultas provocou uma onda de descredenciamento de pediatras dos planos de saúde. Em 2009 o Ministério Público do DF e Territórios chegou a abrir uma investigação para apurar a suspensão dos convênios por parte dos médicos. Em muitos hospitais, a especialidade desapareceu do pronto-socorro. “A pediatria deixou de ser rentável. Os planos de saúde lotam os consultórios, mas pagam pouquíssimo pelas consultas de retorno. Os pediatras não conseguem se manter”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Eduardo Vaz.

A maioria dos médicos filiados a planos de saúde ganha melhor por causa dos procedimentos necessários à prática médica. Por exemplo, um cardiologista é remunerado ao pedir exames como eletrocardiograma e de sangue. Ocorre que o pediatra quase não faz uso desses exames e costuma ter em consultório o material indispensável para examinar e diagnosticar o problema da criança. “A Agência Nacional de Saúde Suplementar muitas vezes só olha o lado do usuário. As operadoras, então, cortam na outra ponta e o trabalho do médico fica insustentável”, afirma Vaz.

Na rede pública, o drama do salário insatisfatório associado a condições ainda piores de trabalho resulta em mais competição pelos pediatras existentes. A dona de casa Evelângia Cardoso, 32 anos, sabe bem o que é esperar para ver o filho ser atendido no Centro de Saúde 06, na Asa Sul. “Trago o Rodrigo aqui desde que ele nasceu, em 2005. Gosto do atendimento. O problema é que, às vezes, preciso esperar muito para ser atendida. Deveria ter mais um pediatra, assim não teria tanta fila. Graças a Deus meu filho nunca teve nada de mais grave, pois conheço gente que já ficou mais de dois meses esperando para operar”, diz.

O secretário-adjunto de Saúde, Elias Fernando Miziara, reconhece a falta de médicos na rede pública. Ele diz que o governo estuda a proposta apresentada pelo Sindicato dos Médicos do DF para a reforma do plano de carreira da categoria, mas ainda não há prazo para resposta. Uma das reivindicações é o piso de R$ 9 mil aos médicos, proposta apoiada pela Associação Médica Brasileira como parâmetro salarial nacional. “Em relação ao Brasil, o DF paga bem. Acontece que, para os padrões de vida, o salário de entrada na secretaria não tem sido atraente”, admite.

Desistências
Dos 60 pediatras nomeados no último processo seletivo, por exemplo, apenas 36 tomaram posse. Como a maioria foi deslocada para o Hospital de Santa Maria, local considerado muito distante por grande parte dos candidatos aprovados, metade desistiu: apenas 18 estão em exercício. E o número de exonerações cresce a cada dia.

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