Cidades

Lançado livro sobre o arquiteto carioca Milton Ramos, que morreu em 2008

postado em 07/12/2011 08:00
 (foto: Iano Andrade/CB/D.A Press - 6/3/09 )
(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press - 6/3/09 )
Milton Ramos deixou seus traços na composição de monumentos como o Teatro Nacional, o Palácio do Itamaraty e o Hospital de Base

Se Oscar Niemeyer tivesse de acompanhar pessoalmente a construção de todas as obras que projetou para Brasília, a realização dos monumentos se tornaria inviável em curto período de tempo, devido à quantidade de trabalho. O carioca entregava projetos a construtoras. As firmas tinham arquitetos contratados para transformar os traços no papel em realidade, complementando as ideias originais. Na nova capital, um dos colaboradores foi o arquiteto, também carioca, Milton Ramos. A história de Ramos é estudada e conhecida por colegas de profissão e pessoas que apreciam arquitetura. Mas ainda é pouco familiar ao brasiliense comum.

Essa distância poderá diminuir com o lançamento do livro que leva o nome de Milton Ramos no título, assinado pelo vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Carlos Henrique de Lima. A publicação foi apresentada ao público ontem, na sede do IAB, Setor Comercial Sul. O livro tem 120 páginas e custa R$ 35, nas livrarias. Foi exibido também o vídeo Memória do arquiteto de Brasília: Milton Ramos, produzido pelo IAB em 1996.

A vontade de publicar a história profissional de Ramos era antiga. ;Apesar de muito conhecido e debatido no meio acadêmico, Milton Ramos não tinha um registro acadêmico sobre sua obra. Muitas coisas eram faladas por gente que trabalhou com ele, não só no período em que ele atuou com Niemeyer. O livro é a evolução da minha dissertação de mestrado;, explicou Lima.

Há um pouco do talento de Ramos em lugares como o Palácio do Itamaraty, o Teatro Nacional, o Hospital de Base e a Casa de Niemeyer (no Park Way). ;O Milton tocou essas obras. Ele era arquiteto da construtora Pederneiras, importante à época da construção de Brasília. Milton fez o meio de campo entre a execução e o diálogo com o Niemeyer. Milton executou as propostas. Testava a composição do concreto, a tonalidade da mistura;, contou Lima. ;Não haveria um resultado final primoroso, como se vê no Itamaraty e no Teatro Nacional, com um arquiteto menos encarregado.;

O livro contra a trajetória de Milton Ramos. Ele veio para Brasília em fevereiro de 1959, meses depois de conquistar o diploma de arquiteto, ainda no Rio de Janeiro. Buscava experiências profissionais. Nenhum lugar oferecia mais oportunidades que a capital federal, uma nova cidade, totalmente em construção.

Conheceu Niemeyer por meio da construtora que o empregou. ;Milton tinha uma relação muito forte com a escola carioca de arquitetura, mas mesclava influências de outras vertentes. A grande importância dele, ao lado de outros de sua época, é trazer componentes de leitura que permitem entender que o movimento moderno no Brasil se desenvolveu sob um amplo espectro. Não se confunde uma obra de Milton com uma de Niemeyer. São vertentes diferentes, dentro da arquitetura moderna;, avaliou Lima.

Talento
Em 1968, Milton Ramos abriu o próprio escritório e recebeu uma série de encomendas da Novacap e de particulares. É autor dos projetos do Iate Clube de Brasília, do Oratório do Soldado, do Clube da Aeronáutica e do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, Belo Horizonte. Morreu em 2 de agosto de 2008, devido a complicações de um tumor no pulmão.

Restou a admiração. ;Foi o profissional mais sério que já conheci. Uma vez, Niemeyer disse que Milton foi o arquiteto mais sensível que trabalhou com ele. Era uma pessoa incompreendida. Levava a arquitetura a sério como poucos. Quando trabalhou no projeto do Teatro Nacional, o governo queria entregar a obra antes do tempo, por questões políticas. Milton deu as costas para o governador e impôs sua verdade;, relatou o arquiteto Gilson Paranhos.

Milton era um homem simples, avesso a badalações sociais. ;Não gostava de aparecer. Por isso é pouco conhecido por quem não é arquiteto. Mas deixou sua marca em Brasília. Era dono de uma percepção de proporção rara, essencial a um bom projeto. Você entra no Itamaraty e vê o nível do detalhamento. Isso é Milton Ramos;, concluiu Paranhos.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação