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Publicação: 31/12/2011 08:00 Atualização:
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| A construção da Rodoviária invadiu a paisagem para marcar o centro geográfico do Plano Piloto com suas múltiplas funções. É arquitetura e também é urbanismo |
Do centro geográfico do Plano Piloto brota uma obra que é ao mesmo tempo um edifício e um sistema viário, peça de arquitetura e de urbanismo. A mais complexa obra de Brasília não pertence a Oscar Niemeyer. É uma das duas criações do arquiteto Lucio Costa para a cidade (a outra é a Torre de Tevê). A Plataforma Rodoviária é mutante: transfigura-se em Eixão, mistura-se ao Eixo Monumental e se transforma em estação de ônibus, de passageiros e em shopping e setor de serviços.
Por pouco, a Rodoviária não seria construída no governo de Juscelino e, talvez, em nenhum outro governo. Lucio Costa chegou a sugerir ao presidente que deixasse a obra no cruzamento dos eixos para o governo seguinte. "Não senhor. Seu projeto depende dessa plataforma, quero deixar tudo pronto e iluminado". E assim foi feito. (Veja texto de Maria Elisa Costa).
O desprezo da qual a múltipla obra tem sido vítima ao longo dos últimos governos esmaeceu, mas não destruiu a grandeza do projeto de Lucio Costa. "Simbolicamente — escreveram Geraldo Nogueira Batista e Sylvia Ficher — a Estação Rodoviária representa, ao mesmo tempo, a dimensão mais cotidiana de Brasília, e o anseio de modernidade". Distante da sede dos três poderes, ela abriga a população mais humilde, observam os arquitetos no Guiarquitetura Brasília.
Não foi essa a intenção primeira de Lucio Costa, como ele mesmo reconheceu em visita que fez a Brasília, em meados da década de 1980. Da desejada "mistura em termos adequados de Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées", a Rodoviária passou a ser ocupada pelo trânsito intenso de usuários de ônibus urbanos.
Centro borbulhante
O presidente Juscelino aderiu de pronto à projeção de Lucio Costa e também imaginou uma Rodoviária sofisticada, como disse no discurso de inauguração da plataforma, em 12 de setembro de 1960, dia de seu aniversário, três meses antes de deixar o governo. "Em torno dessa magnífica plataforma, não tardará a instalar-se um centro borbulhante de vida, com as suas instituições de cultura, as suas salas de espetáculos, as suas lojas, as suas galerias, as suas vielas de porte veneziano, seus trevos, terraços e cafés, onde se encontrará o ambiente propício à vida em comum, o lugar de encontro, o convívio tão necessário ao citadino."
A rigor, nem Lucio Costa nem Juscelino erraram tanto assim. Ao redor da Rodoviária, surgiu inquieto movimento urbano desde o Conic, o setor mais democraticamente diversificado de Brasília, ao Conjunto Nacional e às plataformas que ligam a Asa Norte à Asa Sul.
Quando visitou a cidade em meados da década de 1980, trazido pelos ventos democratizantes que sopravam no país, o arquiteto se encantou com a Rodoviária. Reconheceu que os brasilienses tinham melhorado o projeto original e de nenhum modo se condoeu com a alteração espontânea.
O mais importante estava feito. Lucio Costa conseguiu encaixar levemente na paisagem um projeto intrincado, que exigiu monumental movimento de terra. "A acomodação topográfica faz pressupor que o equipamento foi implantado como se o terreno, naturalmente, já preexistisse", explica o arquiteto Eduardo Rossetti em texto publicado no portal vitruvius. Pelas dimensões da obra, era de se esperar uma intervenção bruta na paisagem, mas o tratamento plástico de suas superfícieis, como esclarece Rossetti, suavizaram sua presença na paisagem da Esplanada dos Ministérios.
A intenção do criador de Brasília parece ter sido a de dissolver a Rodoviári na paisagem. A ele, pouco interessava a exibição da forma, a imposição estética do concreto armado, mas sua discreta e perfeita inserção na cidade. "A solução — aponta Rossetti — abdica da questão da forma como parte exclusiva de sua formulação projetual. O que interessa é o lugar." Para fazer o projeto arquitetônico e urbanístico do marco zero do Plano Piloto, Lucio Costa fez uso de conhecimentos os mais variados: o de construção de rodovias, o de articulação de uma trama viária Complexa, o de fluxos de pedestre e o de conexões urbanas.
E ainda mais: teve o cuidado de projetar a Rodoviária como um mirante da Esplanada e das obras de Niemeyer, "deixando o pedestre com maior intimidade perante a monumentalidade da cidade." E não apenas para ele. O motorista que faz o primeiro retorno após a Rodoviária, como quem se despede da cidade, tem uma última visão panorâmica dos ministérios, da Praça dos Três Poderes e do Eixo Monumental leste. Mais ainda, a Rodoviária ocupa o lugar simbólico da conexão de todas as Brasília numa só, a do centro geográfico da cidade. Todas as cidades-satélites se cruzam na Rodoviária e dela partem passageiros rumo a todo o Distrito Federal. No primeiros anos, os ônibus interurbanos também saíam do cruzamento dos dois eixos.
350 caminhões
A obra mais portentosa de Brasília exigiu extremado movimento de terra. Pode-se conferir as alterações no relevo do terreno na foto que mostra a profundidade das escavações, um corte de cerca de dez metros. "Tinha uma máquina muito grande, chamada Lodel. Ela trabalhava fazendo volta. Ia escavando e a esteira ia enchendo os caminhões e a terra era levada para a Praça dos Três Poderes", conta o engenheiro Ronaldo de Alcântara Velloso que, ainda como topógrafo, trabalhou na preparação do terreno, entre junho e agosto de 1957. Aproximadamente 350 caminhões fizeram o transporte da terra do cruzamento dos eixos para a Praça dos Três Poderes. A movimentação de terra teve dois propósitos igualmente grandiosos: abrir espaço para a Rodoviária e subir o terreno do Eixo Monumental leste até a Praça dos Três Poderes para que a Esplanada ficasse inteiramente à vista desde o cruzamento dos eixos.
O carpinteiro Edwardes Cabral, 84 anos, trabalhou no Buraco do Tatu. "O servente ia cavando e a gente fazia a forma", conta Cabral, à época funcionário da Construtora Rabello, responsável pela obra da Rodoviária, do Palácio da Alvorada, do Supremo Tribunal Federal, entre tantas outras em Brasília. "Sabe por que a Rodoviária balança?", pergunta Cabral. E ele mesmo responde: "Porque não é viga ligada uma na outra, é peça pré-moldada." De fato, são estruturas em concreto armado moldadas no local.
Na placa comemorativa da inauguração da obra, está escrito que a Estação Rodoviária de Brasília é "o estuário em que palpitará a vida de Brasília, na sua expressão de progresso, grandeza e força pioneira, a serviço do Brasil."
De
até
Esta matéria tem: (15) comentários
Autor: Ítalo Lopes
É triste ver o lugar deprimente que a Rodoviária se tornou. O fedor insuportável de fumaça e óleo vencido que frita milhões de pasteis por dia. Aquele amontoado de lojinhas de produtos vagabundos. A sujeira incontrolável no chão, paredes e teto. Um sistema falho que não a | Denuncie |
Autor: Rogério Galhardi
Jackson, a culpa do lixo, infelizmente, é do estereótipo básico de nosso cidadãos: o povo brasileiro! Esta é a triste realidade de nosso país, de norte a sul (à exceção de Ourinhos/PR, que há quase 20 anos iniciou um processo de conscientização - e de multa - do cidadão mal educado)... | Denuncie |
Autor: Jackson costa
Quem viu aquela rodoviária"plataforma" como eu ví,ainda estudante da ensino médio,na década de 80,certamente senti saudades.Ela está em estado "terminal"!!! | Denuncie |
Autor: marcos sousa
Parabéns pela reportagem ! Sempre me emociono ao ler sobre os fatos históricos de Brasília pois meus pais são pioneiros e sempre comento ou leio para eles os artigos. Como já disseram os leitores, pena que este espaço esteja tão mal cuidado, culpa dos péssimos governos que passaram pela cidade ... | Denuncie |
Autor: SALOMÃO FEITOSA
A construção mais complexa de Brasilia é o conjunto de viadutos no final do Eixo sul, a rodoviaria e apenas um viaduto que se parece muito com o Aití ou o Japão pós terremoto. | Denuncie |
Autor: Jean Car
O comentário do Pelegrini disse tudo, realmente este local deveria ser um centro moderno de integração com transporte rápido inteligente e moderno, mas a realidade é outra lamentavelmente, ficam só fazendo maquiagem de festa na rodoviária!!!! | Denuncie |
Autor: JOÃO NETO
Não entendo porque o GDF não reforma a Rodoviária. É o monumento mais lindo e importante de Brasília. Não existe mais relógios, elevadores e as escadas rolantes estão quebradas há anos. Essa situação é insuportável. Por aí a gente percebe que o GDF não tem compromisso com o povo do DF. Falta respeito | Denuncie |
Autor: André Pelegrini
Poderia a rodoviária ganhar o presente de ano novo, passar a ser muito mais que uma estação rodoviária e sim ponto de integração de sistemas coletivos de transporte ultramodernos. Nasceu à frente do seu tempo e os 3 governantes que passaram fizeram questão de tirar esse saldo de modernidade. | Denuncie |
Autor: jackson cabral
é uma pena que este monumento sirva hoje apenas como retrato vivo do decaso com que nossos políticos e administradores nos consideram, com descaso, apenas remendando aqui ali e varrendo parte do lixo, a rodoviária é um lixo a céu aberto! | Denuncie |
Autor: Antonio Amaral
Magnífica é a expressão que define esta obra genial. Tudo em Brasília é genial. Tudo lembra o novo, a inovação, a beleza dos espaços livres. Brasília, para mim, é a jóia do cerrado. E devemos tudo isso ao maior de todos os brasileiros: JK. A ele o meu muito obrigado por ter feito nossa cidade. | Denuncie |
Autor: Francisco Silva
Talvez por ter sido o primeiro ponto de Brasília que conheci, quando ainda era apenas "A Rodoviária", ela representa para mim a simplificação da cidade: Brasília (e atualmente) não existiria sem a Rodoviária, exatamente do jeito que ela é. E a vista da Esplanada é algo único no mundo. Preservemos. | Denuncie |
Autor: Paulo Pereira
Bela reportagem. Parabéns ao Correio. Senti falta de mais fotos da rodoviária nessa época. Mesmo assim, está muito bom! | Denuncie |
Autor: Antonio Araújo
A GRANDIOSIDADE DE OSCAR NIEMEYER, ESTÁ EM, SEMPRE DIVIDIR COM A EQUIPE QUE ELE TRABALHA, OS "LOURO", DESDE A EXECUÇÃO. A EXEMPLO ,O SEDE DA ONU , EM N.Y. ELE SEMPRE DIVIDIU COM SUA EQUIPE, AS TAREFAS DE PROJETAR, CONSTRUIR... EMBORA DAVA UMA ESPIADINHA PRÁ VÊ SE TAVA DENTRO DO "IDEAL IDEALIZADO"... | Denuncie |
Autor: José Valdevino
Brasília é a concretizaçao do sonho de um povo e idealizada sob a batuta de um lider nato, apesar da oposição ferrenha dos negativistas, tornou-se realidade. Cada obra ( monumento ) tem sua história, enaltecendo o seu idealizador e os operários que a construiram; os paradgimas foram superados. | Denuncie |
Autor: Leonardo Bueno
Brasília, uma cidade bonita, totalmente planejada e que nas últimas décadas foi deteriorada pelos péssimos e gananciosos políticos que por ela passaram... | Denuncie |