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Brasília colonial » Descendentes de escravos preservam a memória e costumes dos ancestrais É possível ver a fabricação da marmelada e as ruínas de uma grande obra de engenharia construída por 2 mil negros no século 18 em povoados de Luziânia e Cidade Ocidental

Renato Alves

Publicação: 25/01/2012 08:00 Atualização: 25/01/2012 12:03

Guloseima à base de marmelo é produzida artesanalmente em fazendas do Entorno do DF (Monique Renne/CB/D.A Press)
Guloseima à base de marmelo é produzida artesanalmente em fazendas do Entorno do DF

Os escravos do ciclo de ouro do Distrito Federal e do Entorno estão presentes em seus descendentes, na culinária e em ruínas de megaconstruções erguidas com muito suor e sangue. Na área rural da Cidade Ocidental (GO), a menos de 50km do moderno Plano Piloto, negros conservam hábitos dos bisavós. Criam frangos caipiras e porcos soltos, plantam milho e fazem doces em tachos de cobre no fogão a lenha. Na também goiana Luziânia, uma engenhosa obra para levar água ao município e uma igreja erguida e frequentada apenas pelos escravos continuam de pé. Já na turística Pirenópolis, fazendas preservam instrumentos usados pelos funcionários traficados da África.

O povoado do Mesquita, na Ocidental, concentra algumas das mais fortes lembranças do regime escravocrata nas terras hoje ocupadas pelo DF e as cidades do Entorno. Lá, parte das cerca de 300 famílias negras vivem como os ancestrais há 200 anos, sem luxo, conforto, assistência médica, comendo apenas o que tiram da terra. Reconhecido pelo governo federal como área remanescente de quilombo, o lugarejo cultiva goiaba, laranja, cana-de-açúcar e mandioca, entre outras culturas. Mas nenhuma é tão marcante como o marmelo, fruto usado na produção da marmelada, doce quase em extinção.

Apenas quatro fazendas goianas, todas localizadas nas vizinhas Luziânia e Cidade Ocidental, ainda produzem a marmelada em larga escala. Todas dependem da mão de obra e do conhecimento de descendentes de escravos para manter viva a tradição. Ricardo Lisboa Couto, 43 anos, é um dos herdeiros dessa arte. Ele faz a marmelada na Fazenda Pindaibal, a 14km do centro da Cidade Ocidental e a cerca de 25km de Brasília. “Já tem uns 25 anos que aprendi a receita e passo horas na beira do tacho, em meio à fumaça ao calor do fogão a lenha. Mas eu gosto”, conta.

A fabricação do marmelo na Pindaibal começou há dois séculos, com o bisavô do produtor rural Leopoldo Antônio Gonçalves, hoje com 51 anos. Ele aprendeu a receita com o pai, Benedito Gonçalves Soares, 78, que teve como mestre o pai dele. “Meu pai aprendeu a fazer marmelo com o meu avô”, lembra Benedito. O avô dele era um influente fazendeiro, dono de muitas terras e escravos. Além de criar gado e fabricar marmelada, ele produzia cachaça e açúcar. O doce da Pindaibal e demais propriedades do Mesquita e de Luziânia leva o mesmo nome: marmelada Santa Luzia — assim se chamava Luziânia, até 1943.

Rego das cabaças
Dos tempos do Arraial Santa Luzia, na área urbana de Luziânia, ainda há ruínas de uma grande obra de engenharia construída por 2 mil escravos no século 18. São nove dos 42km de um canal feito para levar água de onde hoje é o Gama (DF) ao município goiano. Matas das encostas dos morros e serras da região do Entorno escondem os vestígios da construção bicentenária. A fenda tem 2m de largura e 2,8m de profundidade. O trecho preservado fica no Morro do Falcão, em Luziânia. Avistado de serras próximas, tem a forma de uma cicatriz horizontal. Chegar até ele é difícil e perigoso. O terreno é íngreme.

Apenas com picaretas e pás e o auxílio de burros e carros de boi no transporte do material, os negros começaram a abrir o canal em 11 de abril de 1768. Eles desviaram a água de uma das cachoeiras do ribeirão Saia Velha, no lado brasiliense da atual divisa entre DF e Goiás. No lugar de terra, os escravos encontraram pedra. A qualidade dos cortes que formam as paredes e o piso prova a qualidade da mão de obra.

Ao longo de todo o canal, os negros levantaram dois aterros para o nivelamento do terreno, um com 500m de altura e 3m de profundidade e outro de 1,5m de largura e 5m de altura. A cada quilômetro de canal, os escravos fizeram um declive de 1m. Com isso, as águas desviadas do Saia Velha ganhavam força para transpor alguns trechos de subida e circular os morros até chegarem ao destino, a mina de ouro do Cruzeiro. Ela ficava na parte alta da então Santa Luzia. Sem água, a mineração era impraticável.

Para aumentar suas fortunas, quatro fazendeiros decidiram canalizar o Saia Velha. O projeto criou polêmica e inveja entre os demais fazendeiros da região. Um deles, o major José Pereira Lisboa, falava para quem quisesse ouvir que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em rego ou canal, mas em cabaças”. Logo o comentário chegou aos ouvidos dos financiadores da obra, que tomaram nota e mandaram acelerar a construção, concluída em 11 de setembro de 1770.

Festa e barulho
Em meio à polêmica, houve muita festa e confusão na inauguração do canal. “Quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela Rua do Rosário abaixo”, contou o historiador goiano Gelmires Reis em um dos seus 28 livros sobre Luziânia. Com a água, rolaram cabaças, que produziram um ruído original. Os moradores da rua, entre eles o major Lisboa, acordaram também com a cantoria de mais de 100 escravos.

Com porretes, os negros aumentavam o barulho quebrando as cabaças. “Minha bisavó, escrava, sempre contava essa história. Dizia que os negros cantavam assim: ‘Água trouxe cabaça, cabaça não trouxe a água’”, lembra Elisa Gomes Curado. Aos 95 anos, ela mora em um casarão centenário, na Rua do Rosário, vizinha ao ponto onde terminava o Rego das Cabaças — nome dado pelos escravos.

Sentindo-se insultado, Lisboa saltou da cama, pegou uma arma de fogo e foi para a rua. Encontrou no caminho o juiz José Rodrigues Costa. Lisboa trocou a espingarda por uma espada, partiu para cima do juiz e arrancou-lhe a peruca. Acabou preso. Lisboa foi levado a Vila Boa, então capital de Goiás, em 15 de outubro de 1771. Voltou para Luziânia, livre, em 3 de dezembro de 1773.

Cerca de 2 mil pessoas receberam o major. O vigário o levou à Igreja Matriz, onde ganhou uma missa de Ação de Graças. Inaugurado em 1767, o templo havia sido construído para abrigar somente brancos, pois eles não se misturavam aos negros da Igreja do Rosário, ainda de pé, com toda a estrutura original.

O Rego das Cabaças perdeu a utilidade com o declínio da mineração, entre o fim do século 18 e o início do século 19. As atividades econômicas se voltaram para uma agricultura de subsistência e pecuária extensiva. A população caiu de 10 mil habitantes, no pico da mineração, para pouco de mais de 2 mil, ao fim da exploração do ouro. Os escravos formaram comunidades em volta das grandes fazendas do lugar. Assim surgiu o povoado do Mesquita e ficou preservada a marmelada.

Esta matéria tem: (11) comentários

Autor: Patricia Castilho
Acho muito útil ssaber a história da região antes de se tornar a capital, pois somos induzidos a achar q a história da região começa c a construção de Brasília e os fatos demonstram q não são assim. Eu adoro ler, ouvir e vivenciar essas histórias!!! Parabéns ao Correio pela iniciativa! | Denuncie |

Autor: Reginaldo Miguel
Sugiro que o Correio coloque dicas para aqueles que desejam conhecer essa história do período colonial no entorno de Brasília. Eu mesmo gostaria de conhecer esses lugares e saber mais sobre esse rico passado. | Denuncie |

Autor: Reginaldo Miguel
Os comentários que me antecederam tem toda razão: estou encantado com esta série de reportagens sobre o período colonial na região de Brasília e entorno. Parabéns! No entanto, como tenho chácara na região, lamento que a história atual nada se parece com o passado rico. Hoje, a violência impera. | Denuncie |

Autor: Antonio Silva
A Luziânia histórica hoje está dando lugar à Luziânia das moradias de baixa renda e vizinhança violenta do entorno do DF. | Denuncie |

Autor: Paulo Roberto Silva
Estou encantado com série Brasília Colonial.Faltava mesmo algo assim nesse cinquentenário da cidade. A história da produção de doce de marmelo é rica. Era exportada para a Confeitaria Colombo, no Rio e levava dois meses para chegar em lombo de burro até Uberaba, depois de trem. Parabéns, uma joia! | Denuncie |

Autor: PEDRO FREITAS
SOU NATURAL DE LUZIANIA E AMO OUVIR ESTAS HISTORIAS DE LUTA E SACRIFICIO,PENA QUE NEM TODAS AS ESCOLAS DE LA FALA COM SEUS ALUNOS SOBRE ISSO.MAIS VALEU,FALTA GOIAS VELHO EM? CORA CORALINA !!!VAMOS LA CORREIO!!! | Denuncie |

Autor: gringu gringu
presevem a amazonia.. os gringos estao de olhos abertos.. assim como compraram o alaska e outros pedacos de terra.. eles estao de olhos abertos aki... acorda BRAZIL | Denuncie |

Autor: Luciano Cabral
Cadastrem esses heróis e concedam a eles as facilidades necessárias para continuarem com sua tradição. Não podemos perdê-la. | Denuncie |

Autor: Eduardo
Bela história! Vou procurar saber mais disso! | Denuncie |

Autor: wagner dos santos teixeira
Muito importante esta série de reportagens do Correio revisitando a história colonial do planalto central, a rica cultura desse povo. Preserva é preciso! | Denuncie |

Autor: jose silva
Bôa a reportagem sobre o arraial do mesquita, mas faltou complementar que o nome mesquita foi por causa de Jose mesquita que doou apos a abolição da escravatura, a quatro escravos seus, 600 alqueires, e com isso foi fundado a comunidade do mesquita onde me orgulho de ter muitos amigos por lá. | Denuncie |

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