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| Guloseima à base de marmelo é produzida artesanalmente em fazendas do Entorno do DF |
Os escravos do ciclo de ouro do Distrito Federal e do Entorno estão presentes em seus descendentes, na culinária e em ruínas de megaconstruções erguidas com muito suor e sangue. Na área rural da Cidade Ocidental (GO), a menos de 50km do moderno Plano Piloto, negros conservam hábitos dos bisavós. Criam frangos caipiras e porcos soltos, plantam milho e fazem doces em tachos de cobre no fogão a lenha. Na também goiana Luziânia, uma engenhosa obra para levar água ao município e uma igreja erguida e frequentada apenas pelos escravos continuam de pé. Já na turística Pirenópolis, fazendas preservam instrumentos usados pelos funcionários traficados da África.
O povoado do Mesquita, na Ocidental, concentra algumas das mais fortes lembranças do regime escravocrata nas terras hoje ocupadas pelo DF e as cidades do Entorno. Lá, parte das cerca de 300 famílias negras vivem como os ancestrais há 200 anos, sem luxo, conforto, assistência médica, comendo apenas o que tiram da terra. Reconhecido pelo governo federal como área remanescente de quilombo, o lugarejo cultiva goiaba, laranja, cana-de-açúcar e mandioca, entre outras culturas. Mas nenhuma é tão marcante como o marmelo, fruto usado na produção da marmelada, doce quase em extinção.
Apenas quatro fazendas goianas, todas localizadas nas vizinhas Luziânia e Cidade Ocidental, ainda produzem a marmelada em larga escala. Todas dependem da mão de obra e do conhecimento de descendentes de escravos para manter viva a tradição. Ricardo Lisboa Couto, 43 anos, é um dos herdeiros dessa arte. Ele faz a marmelada na Fazenda Pindaibal, a 14km do centro da Cidade Ocidental e a cerca de 25km de Brasília. “Já tem uns 25 anos que aprendi a receita e passo horas na beira do tacho, em meio à fumaça ao calor do fogão a lenha. Mas eu gosto”, conta.
A fabricação do marmelo na Pindaibal começou há dois séculos, com o bisavô do produtor rural Leopoldo Antônio Gonçalves, hoje com 51 anos. Ele aprendeu a receita com o pai, Benedito Gonçalves Soares, 78, que teve como mestre o pai dele. “Meu pai aprendeu a fazer marmelo com o meu avô”, lembra Benedito. O avô dele era um influente fazendeiro, dono de muitas terras e escravos. Além de criar gado e fabricar marmelada, ele produzia cachaça e açúcar. O doce da Pindaibal e demais propriedades do Mesquita e de Luziânia leva o mesmo nome: marmelada Santa Luzia — assim se chamava Luziânia, até 1943.
Rego das cabaçasDos tempos do Arraial Santa Luzia, na área urbana de Luziânia, ainda há ruínas de uma grande obra de engenharia construída por 2 mil escravos no século 18. São nove dos 42km de um canal feito para levar água de onde hoje é o Gama (DF) ao município goiano. Matas das encostas dos morros e serras da região do Entorno escondem os vestígios da construção bicentenária. A fenda tem 2m de largura e 2,8m de profundidade. O trecho preservado fica no Morro do Falcão, em Luziânia. Avistado de serras próximas, tem a forma de uma cicatriz horizontal. Chegar até ele é difícil e perigoso. O terreno é íngreme.
Apenas com picaretas e pás e o auxílio de burros e carros de boi no transporte do material, os negros começaram a abrir o canal em 11 de abril de 1768. Eles desviaram a água de uma das cachoeiras do ribeirão Saia Velha, no lado brasiliense da atual divisa entre DF e Goiás. No lugar de terra, os escravos encontraram pedra. A qualidade dos cortes que formam as paredes e o piso prova a qualidade da mão de obra.
Ao longo de todo o canal, os negros levantaram dois aterros para o nivelamento do terreno, um com 500m de altura e 3m de profundidade e outro de 1,5m de largura e 5m de altura. A cada quilômetro de canal, os escravos fizeram um declive de 1m. Com isso, as águas desviadas do Saia Velha ganhavam força para transpor alguns trechos de subida e circular os morros até chegarem ao destino, a mina de ouro do Cruzeiro. Ela ficava na parte alta da então Santa Luzia. Sem água, a mineração era impraticável.
Para aumentar suas fortunas, quatro fazendeiros decidiram canalizar o Saia Velha. O projeto criou polêmica e inveja entre os demais fazendeiros da região. Um deles, o major José Pereira Lisboa, falava para quem quisesse ouvir que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em rego ou canal, mas em cabaças”. Logo o comentário chegou aos ouvidos dos financiadores da obra, que tomaram nota e mandaram acelerar a construção, concluída em 11 de setembro de 1770.
Festa e barulhoEm meio à polêmica, houve muita festa e confusão na inauguração do canal. “Quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela Rua do Rosário abaixo”, contou o historiador goiano Gelmires Reis em um dos seus 28 livros sobre Luziânia. Com a água, rolaram cabaças, que produziram um ruído original. Os moradores da rua, entre eles o major Lisboa, acordaram também com a cantoria de mais de 100 escravos.
Com porretes, os negros aumentavam o barulho quebrando as cabaças. “Minha bisavó, escrava, sempre contava essa história. Dizia que os negros cantavam assim: ‘Água trouxe cabaça, cabaça não trouxe a água’”, lembra Elisa Gomes Curado. Aos 95 anos, ela mora em um casarão centenário, na Rua do Rosário, vizinha ao ponto onde terminava o Rego das Cabaças — nome dado pelos escravos.
Sentindo-se insultado, Lisboa saltou da cama, pegou uma arma de fogo e foi para a rua. Encontrou no caminho o juiz José Rodrigues Costa. Lisboa trocou a espingarda por uma espada, partiu para cima do juiz e arrancou-lhe a peruca. Acabou preso. Lisboa foi levado a Vila Boa, então capital de Goiás, em 15 de outubro de 1771. Voltou para Luziânia, livre, em 3 de dezembro de 1773.
Cerca de 2 mil pessoas receberam o major. O vigário o levou à Igreja Matriz, onde ganhou uma missa de Ação de Graças. Inaugurado em 1767, o templo havia sido construído para abrigar somente brancos, pois eles não se misturavam aos negros da Igreja do Rosário, ainda de pé, com toda a estrutura original.
O Rego das Cabaças perdeu a utilidade com o declínio da mineração, entre o fim do século 18 e o início do século 19. As atividades econômicas se voltaram para uma agricultura de subsistência e pecuária extensiva. A população caiu de 10 mil habitantes, no pico da mineração, para pouco de mais de 2 mil, ao fim da exploração do ouro. Os escravos formaram comunidades em volta das grandes fazendas do lugar. Assim surgiu o povoado do Mesquita e ficou preservada a marmelada.
Esta matéria tem: (11) comentários
Autor: Patricia Castilho
Acho muito útil ssaber a história da região antes de se tornar a capital, pois somos induzidos a achar q a história da região começa c a construção de Brasília e os fatos demonstram q não são assim. Eu adoro ler, ouvir e vivenciar essas histórias!!! Parabéns ao Correio pela iniciativa! | Denuncie |
Autor: Reginaldo Miguel
Sugiro que o Correio coloque dicas para aqueles que desejam conhecer essa história do período colonial no entorno de Brasília. Eu mesmo gostaria de conhecer esses lugares e saber mais sobre esse rico passado. | Denuncie |
Autor: Reginaldo Miguel
Os comentários que me antecederam tem toda razão: estou encantado com esta série de reportagens sobre o período colonial na região de Brasília e entorno. Parabéns! No entanto, como tenho chácara na região, lamento que a história atual nada se parece com o passado rico. Hoje, a violência impera. | Denuncie |
Autor: Antonio Silva
A Luziânia histórica hoje está dando lugar à Luziânia das moradias de baixa renda e vizinhança violenta do entorno do DF. | Denuncie |
Autor: Paulo Roberto Silva
Estou encantado com série Brasília Colonial.Faltava mesmo algo assim nesse cinquentenário da cidade. A história da produção de doce de marmelo é rica. Era exportada para a Confeitaria Colombo, no Rio e levava dois meses para chegar em lombo de burro até Uberaba, depois de trem. Parabéns, uma joia! | Denuncie |
Autor: PEDRO FREITAS
SOU NATURAL DE LUZIANIA E AMO OUVIR ESTAS HISTORIAS DE LUTA E SACRIFICIO,PENA QUE NEM TODAS AS ESCOLAS DE LA FALA COM SEUS ALUNOS SOBRE ISSO.MAIS VALEU,FALTA GOIAS VELHO EM? CORA CORALINA !!!VAMOS LA CORREIO!!! | Denuncie |
Autor: gringu gringu
presevem a amazonia.. os gringos estao de olhos abertos.. assim como compraram o alaska e outros pedacos de terra.. eles estao de olhos abertos aki... acorda BRAZIL | Denuncie |
Autor: Luciano Cabral
Cadastrem esses heróis e concedam a eles as facilidades necessárias para continuarem com sua tradição. Não podemos perdê-la. | Denuncie |
Autor: Eduardo
Bela história! Vou procurar saber mais disso! | Denuncie |
Autor: wagner dos santos teixeira
Muito importante esta série de reportagens do Correio revisitando a história colonial do planalto central, a rica cultura desse povo. Preserva é preciso! | Denuncie |
Autor: jose silva
Bôa a reportagem sobre o arraial do mesquita, mas faltou complementar que o nome mesquita foi por causa de Jose mesquita que doou apos a abolição da escravatura, a quatro escravos seus, 600 alqueires, e com isso foi fundado a comunidade do mesquita onde me orgulho de ter muitos amigos por lá. | Denuncie |