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Correio Braziliense

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O solitário e ameaçado lobo-guará

Ícone do cerrado, o animal que encanta as presas e os inimigos está prestes a compor a lista dos que correm risco de extinção. Ao longo dos anos, ele tem sido vítima do avanço do urbanização e da expansão agrícola. Falta espaço para sobreviver e procriar

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postado em 19/01/2014 10:00

Luiz Calcagno


Adriano Gambarini/Divulgação


Solitário, ele caminha entre a vegetação retorcida do cerrado. Aparece aos olhos humanos e logo se esvai, como um fantasma. O pelo dourado-avermelhado, as patas negras e o olhar tímido revelam a identidade da criatura nem lobo nem raposa: lobo-guará ou lobo vermelho. Ele é dono da própria estirpe. Conquistou a perspicácia após milhões de anos de seleção natural e sobrevivência ante as adversidades, as drásticas mudanças climáticas no decorrer da história, carrega no sangue uma vasta herança genética pré-histórica, mas pode desaparecer nas mãos do bicho-homem. Na lista de animais vulneráveis, ele está entre os mais ameaçados de extinção. No Distrito Federal, o animal raramente é visto e míngua em quantidade em todo o país, com a exploração predatória de seu hábitat.

Quando não se torna presa de supersticiosos e curandeiros, o carnívoro é vítima da competição por territórios ou dos veículos, que transitam em vias que cortam as terras que originalmente eram divididas com outras espécies do cerrado. O bioma fragmentado pelo asfalto, devastado pela agricultura intensiva e coberto por cidades, começa a não comportar o canídeo. Pesquisadores alertam: é preciso recuperar a mata para que o lobo-guará não entre na rota da extinção. “São cada vez mais raros. Como grandes carnívoros, precisam de espaço para sobreviver e nossas unidades de conservação não são suficientes”, explica o biólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Bizerril.

Sem espaço, o lobo vermelho deixa os parques e se arrisca. No último dia 15, homens do batalhão de Polícia Militar Ambiental (PMA) recolheram um animal atropelado em Formosa (GO), às margens da BR-020. Ele foi levado com vida para o Hospital Veterinário da UnB. Em 2013, militares recolheram cinco exemplares mutilados por veículos no DF e no Entorno. “Quem se deparar com o animal deve manter distância e nos chamar pelo número 190”, recomenda o comandante da PMA, coronel Cláudio Ribas de Sousa.

De acordo com as lendas, o lobo-guará tem o poder de encantar a presa ou o caçador (leia Mitos e lendas). Analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Rogério Cunha de Paula apresenta o dado como uma lenda, mas admite, o olhar penetrante do animal o encantou. A magia foi tanta que ele desenvolveu, com o fotógrafo Adriano Gambarini, após 15 anos de pesquisa de campo e entrevistas, o livro Histórias de um lobo. A obra apresenta dados sobre a evolução natural do bicho, seu modo de vida e as crenças que o cercam e será lançado em março próximo, em Brasília.

Rogério refere-se ao lobo-guará com carinho, e lembra que o animal foi responsável pelo laço de amizade com Gambarini. “Assumi um compromisso: deixar, para gerações futuras um livro sobre uma espécie que sobrevive em um mundo tão controverso. Eu conheci o lobo no Parque das Emas, no sudoeste do Goiás, há 15 anos. Não escrevi para deixar uma obra técnica, mas para apresentar o canídeo de forma bela e acessível para as pessoas. Quem sabe, assim, façam alguma coisa por ele, que é uma bandeira do cerrado, responsável pela difusão de plantas e pelo equilíbrio de outras espécies.”

Para o pesquisador, o livro é o começo do trabalho. “Agora, preciso que as pessoas leiam e entendam. Que elas se envolvam com o animal e a situação do cerrado”, completa. Gambarini lembra que passou horas em campo para conseguir fotografar o lobo-guará. “Fizemos um livro que nasceu de um amadurecimento da nossa pesquisa. Perdi as contas de quantas vezes fui para a Serra da Canastra (MG) fotografar lobos. Eu e Rogério criamos uma relação de amizade muito forte com isso”, afirma Adriano.

O fotógrafo lembra, “o cerrado está acabando, e o lobo está indo junto”. “O maior desafio, para mim, foi fazer jus à beleza deles nas fotos, pois é um animal difícil de ver. Tive que entendê-lo como espécie e descobrir como participar do cenário. Se fiz boas imagens, é porque ele não se importou comigo, não apresentei perigo, e isso é uma recompensa muito grande.” O Histórias de um lobo termina com um alerta: “O futuro do lobo-guará é uma página em branco. Aliás, não é possível nem prever se a espécie terá ou não futuro. Se sobreviverá aos desmatamentos, se resistirá apenas em reservas ambientais ou se dividirá espaço com pastagens e florestas, só o homem determinará”.

Adriano Gambarini/Divulgação


Mitos e lendas

O lobo-guará tem seus mitos compilados no livro Histórias de um lobo, de Rogério Cunha de Paula e Adriano Gambarini. Confira alguns deles:

Magia
Por ser um animal arisco e ladino, muitos acreditam que o lobo-guará tem poderes mágicos. Ele aparece e, num piscar de olhos, desaparece. É difícil vê-lo ou capturá-lo. Esse padrão misterioso nas ações o coloca, para os crentes, lado a lado com os espíritos do cerrado. Uma criatura que viveria metade no mundo real e metade no mundo etéreo. Isso gera fascínio e provoca atração ou medo. Ambos os resultados podem ser nocivos para a espécie.

Poderes
As supostas propriedades dos olhos remontam às histórias mais cruéis, em que as maldades são praticadas pelo caçador, o verdadeiro vilão. Há quem acredite que o olhar do lobo-guará hipnotize pessoas e as presas. Seria essa a razão para ele capturar galinhas à noite sem causar alaridos e desaparecer ante a mira de uma arma. Alguns apostam até que, para facilitar a conquista de um objetivo difícil, é preciso ver pelo globo ocular do animal, e o arrancam com o
canídeo ainda vivo.

Mansidão
Na cidade de Gúbio, no centro da Itália, São Francisco amansou um lobo gigante que amedrontava a população. Em Minas Gerais, no município de Catas Altas, no Santuário Nossa Senhora Mãe dos Homens, em 1982, após avistamentos de lobos-guará na região, o padre José Tobias Zico se inspirou no santo e determinou que os irmãos Vicentinos dispusessem restos de comida para os animais. A história dos “lobos mansos” que rondam o templo se espalhou e a iniciativa se tornou uma das primeiras atividades educacionais sobre o animal e a preservação do cerrado no Brasil.

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