Cidades

Cantora Preta Gil pede pela diversidade e tolerância às diferenças

O dia em que a cantora me recebeu em cima do trio elétrico, diante de 40 mil pessoas, para pedirmos por respeito e pelo fim do preconceito

postado em 15/02/2016 06:07

O dia em que a cantora me recebeu em cima do trio elétrico, diante de 40 mil pessoas, para pedirmos por respeito e pelo fim do preconceito

Carmela Veloso de Beauvoir

Embora mantenha um público fiel e arraste 500 mil pessoas pelos carnavais do Rio, a cantora Preta Gil não deixa de esbarrar com a incomplacência alheia. Pelo contrário. Por conta da beleza fora dos padrões ditos tradicionais e em virtude de um discurso afirmativo de integração, a bela artista encara críticas e agressões no cotidiano. Principalmente nas redes sociais, onde o rancor anônimo e irresponsável se dissemina a largos passos.

Quando eu surgi, inicialmente como artista e performer de gênero e, hoje, como blogueira do Correio, não foi diferente. A figura masculina sobre saltos ainda gera discórdia, desconforto e, frequentemente, indignação. Por um lado, abraços acolhedores e apoio de quem se identifica, de quem se sente representada(o), de quem sabe a delícia e a dor de sermos quem, de fato, somos, independentemente da cor, credo ou orientação que nos mova. Por outro, olhares hostis, ameaças e ofensas intermináveis.

Quando Preta soube de meu trabalho, mostrou-se receptiva. A ponto de me receber no trio elétrico que comandou diante de 40 mil pessoas no estacionamento do Ginásio Nilson Nelson e me dar a oportunidade de compartilhar algumas palavras com seu público. ;Eu vim trazer uma mensagem de amor para vocês. Vim dizer que podemos ser quem bem entendermos. Sem medo!”, joguei aos ventos. Mensagem assimilada e retribuída na mesma intensidade. As minhas pernas trêmulas (mas sem descer da plataforma) e a voz falha foram os indícios claros de que seria uma grande noite. E foi. Mas nem sempre é assim.

Ser ; o que for ; não deveria ser um transtorno. E não é. Preta Gil sabe disso. Eu sei disso. Muitos não sabem. Por isso, a cada 28 horas no Brasil, um homossexual acaba assassinado. Vítima da ignorância.

Seja pela música (de Preta, de Bethânia, de Liniker, de Caio Prado, de Ney, de Beyoncé, de Nina Simone), pela leitura (de Simone de Beauvoir, de Judith Butler, de Caio Fernando Abreu, de Oscar Wilde, de Marcel Proust), pelas redes (meu blog está no ar), pelo teatro, pelas artes, pelos exemplos, por amor(), vale o esforço na reversão desse quadro. Quem sabe, em um futuro próximo, amanhã não precise morrer ninguém.

>> entrevista Preta Gil
Como reagiu à figura de Carmela Veloso de Beauvoir?
Eu soube que você tem uma família que a apoia nessa empreitada. Vestir-se de mulher para diminuir o preconceito da comunidade onde vive é a própria glória. Viva a família que tem mente aberta e que percebe que, ao fim do dia, o que fica é o amor.

O panorama atual, com tantos retrocessos e conservadorismo, pede por ações assim...
É um tempo em que a esperança, a fé e o amor acabam ficando para escanteio. Se não fizermos uma força coletiva para aplacar o preconceito e o mal que também habita em todos nós, pegaremos o bonde errado. Sinto que é chegada a hora de nos vermos como um único organismo, de entendermos que a dor do outro é nossa também, ela volta mais dia, menos dia. A violência ; seja contra um homossexual, contra manifestações religiosas, raças ou até mesmo contra a própria família, mulheres e filhos ; é inadmissível nos dias atuais.

Eventualmente, você encara o discurso de intolerantes. Como lida com as críticas e agressões virtuais?

Não julgo impunemente ou aponto o dedo sem antes me sentir atingida de alguma forma, de ver gente se suicidando por não ser aceito, de ver gente tomando antidepressivos, se arriscando por conta do julgamento alheio. É difícil de se colocar na pele do outro, mas essa é a única alternativa para que a compaixão se dê. Quem é que pode afirmar algo absolutamente? O que podemos fazer é aprender a conviver e respeitar o outro, seja quem for. Criar tribos, guetos, separações é um grande tiro no pé. O mesmo ser divino criou todos. Aqueles que têm mais instrução, mais condições, deveriam olhar para o outro de igual para igual. Se não conseguir, use sua vida para fazer o bem. Se não der, pelo menos não cause o mal.

Você nunca foge ao debate...
Sou apenas mais uma dividindo o oxigênio nesse mundo, simplesmente não posso viver uma farsa, fechar os olhos aos que atacam as minorias por conta de seus propósitos e para colher benefícios. No meu bloco, todos são bem-vindos. No Rio de Janeiro, a gente toca nas ruas e mistura todos os grupos, classes, assim deveria ser uma democracia, direitos iguais. Meu papel no mundo é distribuir alegria e, sinceramente, não me interessa falar com apenas um grupo ou outro, todos queremos o mesmo: ter amor, paz e felicidade.

Qual foi mensagem que o Bloco da Preta trouxe a Brasília?

Carmela, a mensagem é simples: vamos nos amar mais, vamos acreditar no coletivo, vamos construir juntos um mundo sem violência.

O avanço de uma bancada conservadora te preocupa?
Não acredito em guetos, tribos, caixas compartimentalizadas. Acredito no macro e na humanidade, na gente que está pisando neste planeta agora, neste momento. Pensar em partidos, facções, nós e eles, pretos e brancos, conservadores e liberais é pensar em blocos, são as duas ;Alemanhas; divididas por um muro ridículo. São os grupos religiosos que se alfinetam. Se pensarmos macro, veremos que conservadores, muçulmanos, pataxós, fashionistas, operários, travestis, pastores, bailarinas... são todos uma coisa só. Seres humanos tentando existir em sociedade. Cada um faz do seu corpo ou do seu voto o que quiser, eu sempre optarei por aqueles que fazem um discurso em prol do todo e não apenas de um grupo. Eu ainda acredito na letra de Imagine do John Lennon. Posso até ser sonhadora mas, se nos unirmos, seremos um só.

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