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Agricultores penam com maior seca da história do Distrito Federal

Diante da falta de chuva, produtores do DF abrem mão da safrinha e se preocupam com a próxima colheita. O revezamento de água tornou-se constante no campo. Como resultado, alguns alimentos chegam até 100% mais caros ao consumidor

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postado em 13/10/2016 06:00 / atualizado em 13/10/2016 07:41

Flávia Maia , Rafael Campos

Antonio Cunha/CB/D.A Press


A propriedade do agricultor Rodrigo Barzotto Werlang, 38 anos, localizada em Planaltina, ganhou uma nova coloração neste outubro seco: o tom amarelado. Acostumado a ver pés de milho altos nesta época do ano, ele espera o aval de São Pedro para começar uma outra safra, já que perdeu 80% da atual. “Se estivéssemos em um ano normal, todo esse terreno estaria verde.” Rodrigo e outros milhares de agricultores do Distrito Federal são personagens da história da mais expressiva crise hídrica vivida na capital do país. Os produtores sofrem duas pressões: a falta de chuva e a redução da captação de água para as plantações no intuito de não atrapalhar o abastecimento nas residências. Esta semana, os principais reservatórios da capital do país – barragens do Descoberto e de Santa Maria — chegaram aos volumes mais baixos da existência. Há previsão de que o Descoberto atinja, em breve, 25% e se inicie a cobrança de um valor a mais na fatura mensal de água.

Na gestão do escasso recurso hídrico, os produtores tiveram que aprender a revezar a água, a deixar campos sem plantação e a abrir mão da safrinha. Segundo dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do DF (Emater), na seca de 2016, houve queda de 70% na produção de grãos e diminuição de 30% da área plantada. As produções de milho e feijão foram as mais afetadas, assim como as hortaliças sentiram o peso da falta de água. O resultado começa a refletir no preço de itens da feira, como tomate, milho, chuchu e batata, que chegaram a subir até 100%.

A situação está tão alarmante que, pela primeira vez na história do DF, um canal rural teve que ser fechado para evitar desabastecimento de água ao consumo humano. O acesso fica na região do Descoberto e a água era usada para cultivo de plantas de paisagismo. “Com a baixa do reservatório, priorizamos o abastecimento das casas e as plantações destinadas à alimentação”, explica Hudson Rocha de Oliveira, coordenador de Fiscalização da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do DF (Adasa).

Outros canais agrícolas, como o Santos Dumont, no Pipiripau, em Planaltina, e o Roteador, na Bacia do Descoberto, próximo a Ceilândia e Águas Lindas (GO), tiveram as vazões reduzidas. Dessa forma, os produtores estão com menos acesso à água. No Santos Dumont, a quantidade do líquido disponível para a agricultura caiu pela metade; no Roteador, a queda foi de 30%. A saída encontrada pelos agricultores foi o revezamento — a propriedade fica 24 horas com acesso à água e 48 horas sem. Nas fazendas localizadas na região do Rio Preto, em Planaltina, onde há propriedades maiores e com uso de pivô, a solução foi mais radical: como a vazão do Ribeirão Extrema estava baixa, todos os grandes produtores suspenderam as plantações desde julho para não ligar os equipamentos de irrigação e, assim, abriram mão da safrinha.


Estratégias
Para evitar que as estiagens prejudiquem a produção de alimentos no futuro, a estratégia traçada pela Adasa consiste em combater as perdas no transporte da água. No Santos Dumont, por exemplo, nos 20 quilômetros de extensão, a perda é de 40%, esse volume de água dissipada seria suficiente para abastecer cidades com o porte de Planaltina e de Brazlândia. Por isso, a agência tem projetos para transformar os canais que correm a céu aberto em tubulações para, assim, diminuir a perda de água no trajeto do rio à propriedade.

Enquanto os órgãos públicos pensam na melhor gestão para que os recursos sejam suficientes para todos, os produtores começam a se adaptar à escassez vivida na pele. “A falta d’água começou a ser sentida em outubro de 2015, porque choveu pouco. Até então, os reservatórios estavam normais. Mas, em abril deste ano, a situação foi se agravando e começamos a ter pouca água para os sistemas de irrigação”, comenta o produtor Rodrigo Werlang, que vive no PADF, em Planaltina. “Perdi entre 30% e 40% na safra que ainda nem foi plantada, porque, como ainda não pude começar, vou plantar atrasado. Na passada, tivemos perdas que chegaram a 80% por falta de água”, garante Werlang, que está há 34 anos na região e diz que jamais viu uma situação tão crítica.

A 70km dali, o drama se repete. Desde 1970, a chácara na Estrutural em que vive o pai do agricultor Eurípedes Ferreira da Silva, 54 anos, tem uma cisterna. “Nunca ela havia ficado sem água. Este ano, secou pela primeira vez”, relata. Desde que começou a plantar em seu próprio terreno, em 1986, ele tem no cuidado com as nascentes um dos seus objetivos como produtor. “Mas essa atitude é de poucos. Estão destruindo nascentes, cavando poços e ninguém preserva nada. A água da minha chácara não está contaminada pelo Lixão (da Estrutural) porque eu cuido.” Eurípedes, que produz, entre outros vegetais, mandioca e quiabo, diz que, caso a situação se repita no ano que vem, ele vai desistir da lavoura. “É triste, mas sem água não é possível.”

 

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