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Artigo: Espancar não é educar

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postado em 31/10/2016 20:20 / atualizado em 31/10/2016 21:09

Cida Barbosa

Na semana passada, uma cena chocou pais e funcionários numa escola particular de Taguatinga. Ao fim das aulas, na frente de todos, um pai começou a bater no filho de 4 ou 5 anos.O motivo da ira descabida: o menino não atendeu de pronto o chamado de deixar a brincadeira com os amiguinhos e ir para casa.O irmão mais novo começou a chorar ao ver as agressões e, por isso, passou a apanhar também. Os tapas por braços, pernas e costas continuaram enquanto os dois eram colocados nas cadeirinhas do carro. Segundo relatos, não foi a primeira vez que as duas crianças sofreram com a violência do pai. Se em público ele faz isso, imagine no ambiente familiar.

A brutalidade fez-me lembrar um caso semelhante, ocorrido no Sudoeste, também protagonizado por um servidor público e em um colégio particular. Um pai chegou arrastando o filho pelo braço até o portão. No caminho, deu tapas nas pernas e no bumbum da criança. Com a recusa do menino de ficar na escola, o levou ao banheiro e passou a surrá-lo com um cinto. O agressor acabou detido por interferência de um policial que havia levado o filho à escola.

Dizem os psicólogos que espancadores veem as vítimas como propriedade. Obviamente, não se resume a isso. Pais e responsáveis que agem dessa forma costumam descontar nas crianças suas frustrações ou foram criados apanhando e reproduzem as agressões na vida adulta. Custa crer que um ser racional sinta alívio ou mesmo prazer em machucar uma criança, com agravante de ser o próprio filho. Infligir dor, humilhação, terror, quando deveria amar incondicionalmente, cuidar, proteger? Como são capazes de tamanha crueldade?

Há espancadores que, quando confrontados, dizem agir em nome da educação da criança. Quem já não ouviu a resposta clássica: "Bato hoje para a polícia não bater amanhã"? Ou: "Bato para ensiná-la". Crianças são levadas, fazem birra, não costumam obedecer com a rapidez que os pais esperam. É realmente necessário impor limites para o próprio bem delas. Mas ensinar não é espancar. Não existe a cartilha perfeita para educar os pequenos, porém, com certeza, passa pelo diálogo ou mesmo por colocar de castigo — como defendem alguns especialistas—, mas, de forma nenhuma, por agressões físicas ou verbais.

Temos de acabar de vez com a prática arraigada na cultura nacional de que pais educam os filhos se a desobediência for punida com surras. Sei que é complicado acabar com algo socialmente aceito, mas acredito na evolução humana. Se não, o que nos resta?

Aos que aceitam essa ignorância como verdade, vai aqui o meu apelo: não machuquem seus filhos, não os faça se sentir humilhados, não os ensine que a resposta está na violência. Se vocês não conseguem se conter, procurem ajuda especializada. Não deixem as crianças os olharem com medo em vez de respeito. Meninos e meninas espancadas têm a tendência de se tornarem adultos depressivos, reprimidos, com baixa autoestima e cheios de ódio.

Aquele pai deTaguatinga? A dona da escola prometeu tomar providências.Tem as imagens do circuito interno para respaldá-la. E você, leitor, caso presencie um ato de violência, denuncie.Os números da Secretaria da Criança são 3234-8555 e 3234-2876. Nem é preciso se identificar. Há também o Disque 100, do governo federal. Nossa tendência é não nos envolver. Vamos mudar isso. Não vamos virar o rosto para o sofrimento de uma criança.

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