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Correio Braziliense

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Pesquisador revela o verdadeiro primeiro mapa do DF e repara erro histórico

O primeiro mapa do Distrito Federal foi traçado por Joffre Mozart Parada e não por Clóvis de Magalhães, a quem, até então, era atribuída a autoria

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postado em 07/11/2016 06:08 / atualizado em 07/11/2016 11:53

Renato Alves

 

Um erro histórico está sendo reparado após 60 anos. Publicado em 1958, o primeiro mapa do Distrito Federal era atribuído a um engenheiro cartógrafo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, um pesquisador concluiu, recentemente, que o primeiro traçado de onde viria a ser instalada a nova capital do Brasil é obra de um engenheiro agrimensor goiano. Confeccionado entre 1954 e 1958, integrava a documentação da Comissão de Cooperação para Mudança da Capital Federal, resgatada há cinco anos em Goiânia por uma dupla de historiadores residentes em Brasília.

 

 

O acervo serviu de base para estudos de cartografia do Arquivo Público do DF (ArPDF). Concluídos este ano, resultaram em uma série de artigos científicos. O do primeiro mapa foi apresentado na semana passada, durante o 3º Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica, em Belo Horizonte, pelo historiador e pesquisador Elias Manoel da Silva, diretor de Difusão, Pesquisa e Acesso do ArPDF. “O primeiro mapa não é do engenheiro cartógrafo Clóvis de Magalhães, mas de Joffre Mozart Parada”, diz o autor do artigo intitulado O primeiro mapa do Distrito Federal — Um ilustre desconhecido.

Minervino Junior/CB/D.A Press

 

 

Tal mapa teve origem quando, em outubro de 1955, o então governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, declarou de utilidade pública as terras do DF que faziam parte do estado. “Ludovico criou a Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal antes de Juscelino Kubitschek falar em construir Brasília.” A comissão precisava de um mapa. Tarefa dada a Joffre Mozart Parada, que  iniciou os trabalhos de campo. Entre 1955 e 1958, ele traçou diversos mapas, que foram sendo usados nas desapropriações, até ter um documento definitivo.

 

Antes de prestar serviço à comissão, Parada havia trabalhado no Departamento de Estradas de Rodagem de Goiás (DER-GO). Por isso, usou uma planta da área do atual DF, feita pelo DER-GO, como ponto de partida para o seu mapa, intitulado Novo Distrito Federal — Planta Índice Cadastral. O documento, que tem como coautor Janusz Gerulewicz, (também  ex-funcionário do DER-GO), serviu para desapropriar as terras destinadas à construção da futura capital, mesmo que, à época, nenhum político falasse em prazo para o início da mudança, prevista desde a primeira Constituição Federal.

 

Fixando limites

 

Engenheiro encarregado dos serviços técnicos da Comissão de Cooperação, Parada esquadrilhou fotografias aéreas da empresa Geofoto. A ideia era delimitar as fazendas no perímetro do novo DF. Para tal, tinha de visitar todas as propriedades da região, fixar os limites de cada uma, criando condições para que os donos tirassem a escritura das terras, dando início à desapropriação, inicialmente feita por Goiás.

 

O estudo de Parada revelou uma enorme quantidade de fazendas onde hoje está o DF. Elas ficavam principalmente em Luziânia, Planaltina e Formosa. O processo de desapropriação começava nos cartórios, com o levantamento dos limites da propriedade, a partir do estudo histórico e jurídico dela. Ao examinar os documentos, descobria-se que essas fazendas haviam se transformado em diversas propriedades particulares menores, por meio do desdobramento de compras e vendas, doações e inventários.

 

A maioria dos donos das glebas não tinha documentos ou só contava com papéis precários, mapas feitos por topógrafos amadores. “Isso ocorreu porque, depois da grande corrida, em meados do século 19, para fazer o registro paroquial (1856 a 1858), seguiu-se um período de desinteresse pela apuração de títulos e liquidação judicial de herança e legados”, explica Elias Manoel. Resolvidas as pendências, um a um recebeu o valor estipulado pelo Estado como indenização. “O mapa de Parada foi fundamental nesse processo.”

 

Serviço pronto

 

Com a papelada, as terras goianas estavam legalmente desapropriadas para serem destinadas à formação do DF. A área entregue por Goiás à União era suficiente para abrigar todo o Plano Piloto e as cidades vizinhas. Quando JK assumiu a Presidência da República e decidiu cumprir a promessa de campanha de transferir a capital para o Planalto Central, ele criou a Novacap. A estatal seria responsável por cuidar das obras públicas de Brasília. Assim, chegou à empresa o mapa de Parada.

 

No entanto, a Novacap não o imprimiu e preferiu adotar o mapa de Clóvis de Magalhães como oficialmente o primeiro do DF. “Se não é o primeiro da história, o mapa de Clóvis Magalhães é o primeiro impresso do novo Distrito Federal”, frisa Elias Manoel. Ele também faz questão de ressaltar que o cartógrafo não plagiou ninguém, nem agiu de má-fé. “Ambos os mapas (o de Clóvis e o de Parada) beberam em fontes parecidas. Clóvis se baseou também na cartografia elaborada pela comissão goiana.Isso não desmerece o trabalho de Clóvis.”

 

Mas, por que, afinal, a Novacap não usou o mapa de Parada, que trazia informações mais detalhadas do território a ser ocupado pelo DF? “Brasília nascia como símbolo da modernidade. Era alardeada como a chegada do progresso para uma região onde afirmavam não haver absolutamente nada. A narrativa era apresentada como o desfile de heróis, personificados em JK, Israel Pinheiro, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Bernardo Sayão, os quais estavam promovendo o encontro entre o sertão com o seu ‘verdadeiro destino’. Mas o mapa de Parada contradizia essa perspectiva niilista do espaço onde nascia a nova capital.”


 

Minervino Junior/CB/D.A Press
Goiás tem guia de cartografia

 

A participação do Arquivo Público nas duas edições anteriores do Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica foi fundamental para que a instituição criasse o Centro de Cartografia. Um dos projetos mais importantes é uma publicação com todos os mapas produzidos no Brasil e em Portugal relativos a Goiás. Intitulado Goyaz — Guia de Cartografia Histórico, o livro traz mais de 70 mapas. O atlas será distribuído para bibliotecas e escola. O lançamento está previsto para 2017.

 

A obra é fruto de sete anos de pesquisas dos historiadores Elias Manoel da Silva e Wilson Vieira Júnior. “Fomos a todas as grandes mapotecas de Portugal, digitalizamos esses mapas e trouxemos da Europa. Três grandes instituições nos cederam mapas: o Arquivo Histórico Ultramarino, a Biblioteca Pública de Évora e a Casa de Ínsua.” 

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