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Correio Braziliense

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Fazendeiros, políticos e empresários financiavam grupo de extermínio

PMs são apontados como autores de mais de 100 mortes em Goiás. A maioria das vítimas não tinha condenação judicial. Na casa dos investigados, os federais ainda apreenderam três armas de fogo -- duas irregulares -- 700 gramas de maconha e mais de R$ 30 milhões em espécie. Um advogado está foragido

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postado em 11/11/2016 15:57 / atualizado em 11/11/2016 19:29

Renato Alves

Cadu Gomes/CB/D.A Press
 
Um grupo de extermínio formado por policiais militares lotados em unidades do Entorno do Distrito Federal agiam a mando de políticos, fazendeiros e empresários. Em troca, ganhavam promoções na carreira, dinheiro vivo, veículos e apoio em candidaturas a cargos públicos em Goiás. O esquadrão de morte fez ao menos 100 vítimas.

As informações foram dadas em coletiva à imprensa, na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, na manhã desta sexta-feira (11/11), para onde agentes da PF levaram PMs goianos detidos na segunda fase da Operação Sexto Mandamento, deflagrada da madrugada. Mais de 140 policiais federais foram a três cidades de Goiás cumprir mandados contra PMs acusados de integrar grupos de extermínio.

Dois policiais militares goianos ficarão presos na Superintendência da PF em Brasília por causa da investigação. Na casa dos investigados, os federais ainda apreenderam três armas de fogo – duas irregulares – 700 gramas de maconha e mais de R$ 30 milhões em espécie, jóias e outros itens. Um advogado está foragido.

Os agentes levaram outros oito militares para prestar depoimento na unidade da PF no DF, em procedimento chamado de condução coercitiva. Entre eles, o comandante de Policiamento da Capital da PM de Goiás (PM-GO), tenente-coronel Ricardo Rocha.

Comandante indiciado

Apesar de não ter sido preso, a PF indiciou Ricardo Rocha por homicídio e ocultação de cadáver, na manhã desta sexta-feira, logo após ele prestar depoimento. Ele é apontado como o autor da morte de dois jovens em Alvorada do Norte (GO), distante 258km de Brasília. Os corpos deles nunca foram encontrados. Um terceiro rapaz conseguiu se esconder. Ele e outras testemunhas afirmaram ter visto as vítimas serem colocadas em carros do Batalhão da PM de Formosa, à época comandado por Rocha, então um major.
 
Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press
 
Responsável pela investigação, o delegado Milton Rodrigues Neves afirmou, na coletiva da manhã desta sexta-feira, que o trio era suspeito de furtar gado da fazenda de um grande empresário da região. Tal produtor rural e vizinhos decidiram acionar Ricardo Rocha. “Os corpos dos dois que sumiram não foram encontrados, mas temos provas que apontam que eles foram assassinados: depoimentos, dados, comprovantes do aluguel dos carros, por exemplo”, ressaltou Neves.

Para os investigadores, não há dúvida da participação direta de Ricardo Rocha na execução dos rapazes. Em troca, garantem delegados da PF, a campanha dele para se eleger deputado estadual na Assembleia Legislativa de Goiás foi financiada por um “cliente”. A PF indiciou Rocha por homicídio e ocultação de cadáver. Mas nenhum delegado deu mais detalhe, sob alegação de que o inquérito segue em sigilo de Justiça.

“Esse tipo de investigados são tanto temidos quanto respeitados. Quando se fala de grupo de extermínio, a ideia que se tem à mente é de profilaxia (limpeza) social. Mas o que se tem são pessoas que matam qualquer um. Bandido tem que ser preso, não tem que ser morto”, destacou o delegado Kel Lúcio Nascimento, também à frente das investigações.

Nascimento ainda falou do perigo da cultura do “bandido bom é bandido morto”, que justificaria a ação de grupos como o investigado pela PF: “No começo, matam pessoas suspeitas de praticar crimes, mas depois começam a matar diversas pessoas que não têm qualquer envolvimento. Matam pelos mais diversos motivos. esta operação, há policiais ligados a tráfico de drogas, oferecendo drogas, arma e munição a pessoas. Muitas vezes eram contratados para matar outros por desavença.”

Apoio do governador

Ricardo Rocha já havia sido preso por quatro meses na primeira fase da Operação Sexto Mandamento, em 2011. Em 2014, foi a júri popular pela morte de Marcelo Coka da Silva, ocorrida 10 anos antes. Mesmo assim, acabou escolhido pelo governador Marconi Perillo (PSDB) como comandante do Policiamento de Goiânia. Rocha foi escolhido para integrar um plano de segurança do governo de Goiás para reduzir a criminalidade no estado. Em meio à repercussão negativa, Perillo saiu em defesa de Rocha dizendo que ele era um profissional exemplar.
 
Cadu Gomes/CB/D.A Press
 
Sobre a segunda fase da Sexto Mandamento, Perillo ainda não se pronunciou nem emitiu nota oficial. O vice-governador e secretário de Segurança Pública e Administração Penitenciária de Goiás, José Eliton (PSDB), deu uma entrevista na manhã desta sexta-feira, em Goiânia. Ele saiu atirando contra a PF. Defendeu veementemente os acusados. Negou qualquer irregularidade na atuação dos PMs investigados. E ainda garantiu confiar no trabalho de Ricardo Rocha.

“Afirmo, categoricamente: no estado de Goiás não há grupos de extermínio. A PM de Goiás atua com toda a lisura. Essa operação foi um espetáculo midiático. Reafirmo a minha solidariedade ao tenente-coronel Ricardo Rocha, que permanece como comandante do Policiamento da Capital”, declarou José Eliton, em tom ríspido.

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