Em entrevista de 1995, Darcy fala sobre criação de memorial indígena

A entrevista com o educador Darcy Ribeiro foi publicada no livro Memorial dos povos indígenas - Maloca moderna (ITS), de autoria do jornalista Severino Francisco

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postado em 17/02/2017 10:07 / atualizado em 17/02/2017 10:26

 Wanderlei Pozzembom/CB/D.A Press - 6/11/95

Em 16 de fevereiro de 1995, enquanto se recuperava de uma pneumonia no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, Darcy Ribeiro concedeu uma entrevista à então secretária de Cultura do DF, Maria de Souza Duarte. Ela negociava a doação do acervo do casal Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro para o Memorial dos Povos Indígenas. Reproduzimos, a seguir, trechos da entrevista, publicada no livro Memorial dos povos indígenas – Maloca moderna (ITS), de autoria de Severino Francisco.

O que o senhor pensa da ideia de se criar um museu do índio em Brasília? É uma história controvertida. Talvez fosse bom contar um pouco dessa história. Qual a importância do museu?
Darcy Ribeiro – Ver o que é mais original para o Brasil, que é a criatividade indígena. Ele foi pensado para isso. Na entrada, haverá uma maloca autêntica, e lá o melhor dos artefatos que existe em todos os museus brasileiros. E nós pediríamos que pensassem nisso também. Atrás dos olhos, uma imagem do mundo indígena. Uma imagem sem preconceito, uma imagem mostrando a beleza dos índios. Quantas plantas eles domesticaram e nos deram? O esforço dos índios para querer uma civilização tropical, que é a base de nossa civilização. Isto é o que eu pensava.

Como o senhor pensa que esse Memorial dos Povos Indígenas poderia funcionar para ser realmente o referencial da importância do índio do ponto de vista da formação do povo brasileiro?
Darcy Ribeiro – O Memorial foi pensado para isso, é uma grande exposição. Uma exposição custa muito. Em geral, a exposição dura 10 anos em um grande museu. Como é uma grande exposição, deve ser muito bem feita, deve contar com a colaboração dos grandes museus brasileiros. Ele pode abrigar, por exemplo, a melhor mostra da cultura marajoara, que está no Museu Goeldi em Belém do Pará.

E do ponto de vista dos visitantes?
Darcy Ribeiro - A ideia é que o Memorial tenha um percurso básico para turistas. Os turistas chegam ali necessariamente porque vão visitar o Memorial JK. A 100 metros ao lado está o Memorial dos Povos Indígenas. O mesmo visitante, um estrangeiro, não encontraria sentido em ver um museu de artes, porque lá fora eles têm museus de artes muito melhores. Se em vez de Memorial dos Povos Indígenas o espaço fosse transformado em museu de arte, seria um museu de artes bem vagabundo.
E com o Memorial?
Darcy Ribeiro – Em lugar disso, ele teria todo o interesse em ver os povos brasileiros originais. Então lá, do meu ponto de vista, ele entra e a primeira coisa que vê é: Brasília, uma babel de povos, que falavam mil línguas diferentes. Então, ele comenta: “Eu vi a palavra solo, a palavra mãe, a palavra chuva, a palavra lua, em dezenas de línguas”. Ele vai ouvir e ver um pouco disto. Dessa multiplicidade tremenda de línguas dentro de culturas que não eram tão variadas. As culturas eram mais uniformes.

De que maneira?
Havia povos da floresta tropical, povos do cerrado, que eram muito diferentes. Então, a partir daí, ele tinha uma ideia de que havia um povo de 6 milhões, que tinha aprendido a viver na floresta e no cerrado. Que tinha criado a civilização tropical.

Quais eram as bases dessa civilização tropical?
É muito importante, por exemplo, mostrar numa parede lá as 40 plantas domesticadas pelos índios – como milho, mandioca, feijões, aipim selvagem – e colocadas em uso. E todo mundo usa. Batata, a chamada batata inglesa, é indígena. Então, só ao passar por isso eles percebem a origem. Ah, então é indígena? Então o tomate é do México, depois veio parar aqui. A batata é daqui.

Seria um trabalho de educação?
Darcy Ribeiro – É importante ir civilizando esse pessoal para perceberem que estão diante de uma civilização original. Há 10 mil anos surgiram as bases da civilização deles, quando um povo indígena também, na margem do Tigre e do Eufrates, aprendeu a cultivar arroz, centeio e trigo. E fez uma agricultura com base nessas sementes. Simultaneamente, aqui se fez uma revolução outra de uma agricultura dos trópicos. Isso que eu disse, entre mil coisas, deve ser mostrado no Memorial dos Povos Indígenas.

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