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Pesquisador escreve sobre a relação de Darcy Ribeiro com a antropologia

Autor de livro sobre o antropólogo, João Paulo Aprígio Moreira lembra a militância de Darcy

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postado em 17/02/2017 10:11 / atualizado em 17/02/2017 17:22

Orlando Brito

Hoje visita-se, em condição de justa efeméride, a memória de Darcy Ribeiro. Trata-se de vinte anos do falecimento de um dos mais notáveis intelectuais brasileiros. Aponto para a rubrica – “brasileiros” – pelo significado que a palavra tinha para o autor em sua obra. E também sublinho “obra”, reconhecida mundialmente, ainda nos termos do mesmo: em um sentido mais amplo, cuja definição se daria a partir da noção de “fazimentos”, assim Darcy Ribeiro definia sua prática. A obra de Darcy Ribeiro foi marcada pela militância, pela atuação na esfera político-partidária, por projetos que vão além da prática reflexiva, criativa e crítica que ensejam a prática acadêmica.

Darcy Ribeiro foi um importante ideólogo, contudo, não deixou de ser realizador de inúmeros projetos que o singularizaram enquanto homem público. É nesta perspectiva que se destacam seus projetos teóricos e políticos, que resultaram na criação de várias universidades, escolas, museus, o memorial da América Latina, em sua combatente atividade parlamentar, entre outras tantas realizações. Sua obra foi, portanto, além de extensa, quase ininterrupta e diversa. Não deixando de ser coerente e fiel às principais ideias e trajetórias a que se alinhou durante sua vida; ressalto aqui, na área do indigenismo, Marechal Cândido Rondon; no trabalhismo, Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola; e na educação, Anísio Teixeira.

Por aliar sua prática acadêmica à política, é que defendia a peculiaridade das Ciências Sociais no Brasil, ainda que como uma ciência “subdesenvolvida”, com a notória tarefa de explicar o “atraso” do país. É neste contexto que Darcy Ribeiro se projeta como um intelectual para o mundo, como representante das vozes do então “terceiro mundo”, na luta por um mundo mais justo do ponto de vista econômico, social e cultural. Recebeu críticas por questões teóricas, em parte de sua área de formação, a Antropologia. Darcy Ribeiro foi um dos criadores e ardoroso defensor de uma concepção de antropologia prática. Uma antropologia associada à questão indígena, buscando envolver a ciência e os intelectuais em projetos de estado, a partir, por exemplo, da criação da primeira pós-graduação em Antropologia cultural no Brasil, no Museu do Índio e que também fundou, nos tempos de sua atuação no SPI (Serviço de Proteção aos Índios), ainda na década de 1950. Ainda nesta perspectiva, ao lado dos irmãos Villas-Boas criou o Parque Indígena do Xingu em Mato Grosso.

Sua concepção de Antropologia, por conseguinte, sempre esteve ligada ao indigenismo e à atuação do antropólogo no desenvolvimento nacional. Isto a partir da defesa da formação de quadros para a mediação da relação dos povos indígenas e a sociedade nacional, que barbaramente avançava sobre as terras indígenas; avanço que teve seu recrudescimento a partir da Marcha para o Oeste e, posteriormente, durante o Golpe Civil-Militar. Darcy Ribeiro destacou-se também na luta pelas conquistas de direitos coletivos desses povos no contexto da promulgação de nossa atual Constituição. Em um de seus obituários há referências de agradecimentos de lideranças indígenas como Mário Juruna e Ailton Krenak,  o último foi a primeira liderança indígena a ser eleito Deputado federal, e pelo partido fundado por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, o PDT.

Em tempos de instabilidade política e econômica, de descrédito da administração pública e das políticas públicas de distribuição de renda, estas entendidas como custos, quando da emergência de políticas de ajuste fiscal, Darcy Ribeiro, torna-se ainda mais atual. Sua luta além de ter pautado a questão da representatividade democrática, tinha como mote nos alertar contra o desmonte do Estado perpetrado a partir de um discurso de inviabilidade econômica de serviços que garantem direitos presentes na Constituição, como o direito à saúde, à educação, à moradia, entre outros. Muitas vezes criticado como “assistencialista”, sua crítica ao neoliberalismo era parte de um projeto de desenvolvimento nacional. A noção de desenvolvimento que o autor defendia ultrapassava a concepção do mesmo apenas enquanto crescimento econômico, para o mesmo desenvolvimento significava desenvolvimento social.

Foi por este viés que concebeu os CIEPS, as escolas de tempo integral no Rio de Janeiro e toda sua atuação enquanto senador da república, se posicionando a favor de uma educação pública de qualidade como meio de superação da desigualdade social no país; tornando-se, assim, o principal relator da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). É neste contexto de luta em defesa de uma educação pública e de qualidade e que remonta suas discussões com Carlos Lacerda ainda nos anos 1960, que surge uma de suas mais célebres frases, a de que “A crise da Educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”.

Poucos foram os intelectuais da envergadura política de Darcy Ribeiro no Brasil. Se acompanharmos sua trajetória observaremos então o embrião de vários projetos que tinham como objetivo a transformação do Brasil em uma sociedade mais equânime. Sua trajetória é parte de uma luta que fortaleceu nossa República, ampliando direitos e a participação política, restritos a uma elite que, segundo o autor, virou as costas para o povo, e que por isto não possuía legitimidade. Falar da memória de Darcy Ribeiro nos traz sempre a pergunta sobre qual caminho nós estamos trilhando? Sobre qual o projeto de nação dará sustentação aos nossos sonhos?

* Autor de Darcy Ribeiro: entre a história e a antropologia
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