Regiões do DF não cumprem recomendação de gasto de água

Cinco regiões usam o dobro do recomendado. E o Lago Sul, que encabeça a lista, consome quatro vezes mais

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postado em 26/03/2017 08:01

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

A crise hídrica é hoje um problema vivenciado por todo o Distrito Federal. A quantidade de água usada pelo brasiliense, porém, ainda varia muito de uma região administrativa para outra. No Lago Sul, por exemplo, eram gastos, por dia, antes do racionamento, 417 litros de água por habitante — o maior consumo médio do DF. Brasília, Lago Norte e Park Way completam o ranking das regiões que mais consomem. As quatro abrigam 307 mil pessoas, apenas cerca de 10% da população do DF, mas são responsáveis por 33% do que todo o DF deveria usar por dia, segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS). O gasto delas em 24 horas daria para abastecer Ceilândia pelo dobro do tempo — cidade que tem uma população 38% maior do que Brasília, Lago Sul, Lago Norte e Park Way juntos.

Cem litros de água diários por pessoa é a quantidade aconselhável pela OMS para o ser humano consumir e realizar todas as atividades higiênicas. No Distrito Federal, apenas nove regiões administrativas não ultrapassam a média estabelecida pelo órgão. Cinco RAs usam o dobro do recomendado e o Lago Sul consome quatro vezes a meta. Para a especialista em geografia urbana, com estudos na área de recursos hídricos, Marília Peluso, da Universidade de Brasília, isso mostra que falta consciência coletiva. “Infelizmente, quando se trata de uma parcela da população com maior renda, pesar no bolso não adianta. É necessário ter em mente que não devemos poupar para pagar menos, devemos reduzir o consumo porque fazemos parte de uma sociedade que está passando por uma crise de abastecimento hídrico”, argumenta.
 
 

Os números de consumo são, segundo a professora, inaceitáveis. O Plano Piloto, com população estimada em 220.393 pela Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios de 2016 da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), consome cerca de 30% mais água do que Ceilândia, que tem uma população duas vezes maior que a das Asas Sul e Norte. Já no Lago Sul, caso o consumo não reduza, seria necessário cerca de 20% da captação de água retirada da futura obra do Lago Paranoá apenas para abastecer a região administrativa. O presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do DF, Maurício Luduvice, afirma que o órgão sempre produziu material publicitário para conscientizar também a parcela da população com maior condição financeira. “Para garantir o uso racional da água, a tarifa da Caesb é elevada para quem consome muito. Assim, tentamos controlar o gasto e conscientizar a população”, garante.

Instaurado há cerca de um mês, o racionamento nas cidades abastecidas pelo sistema de Santa Maria/Torto — que inclui Lago Sul, Brasília e Lago Norte — é, para a professora Marília Peluso, um primeiro passo para tentar garantir essa consciência de gasto, mas ainda não é efetivo. “Em grandes residências, encontramos até três reservatórios, que, juntos, acumulam mais de 2 mil litros de água. Isso não é racionamento. Você não pode se sentir confortável em gastar mais só porque está usando uma água que você armazenou”, relata.

Soluções criativas


Mesmo morando em uma grande residência de 300m², um morador da QI 21 do Lago Sul está dando duro para reduzir ao máximo o consumo de água, mesmo tendo piscina, sauna e cinco banheiros em casa. Sérgio Gonçalves, 76 anos, comprou o lote onde mora há 37 anos e, desde que se aposentou, há cerca de duas décadas, começou a realizar reformas para trazer conforto e consciência ambiental à obra. O sistema que o aposentado mostra com orgulho reaproveita a água retirada da piscina para regar o jardim da residência. “Antigamente, a Caesb pedia que as casas com piscinas tivessem um sumidouro de água, para não jogar o que sai da piscina, na rua. Com a instalação do sistema de esgoto, paramos de usá-lo. Então, decidi, em vez de tapar o local, criar um reservatório, no qual pudesse reaproveitar parte da água da piscina”, explica.

Após a limpeza da piscina, que comporta cerca de 20 mil litros, a água que não pode mais ser aproveitada é levada, por uma bomba, ao antigo sumidouro. Lá, um filtro retira folhas e galhos e uma bomba faz com que a água possa ser reutilizada. Uma mangueira é usada para regar o jardim e lavar o quintal. “Hoje, devido ao racionamento, não estamos podendo encher a piscina, mas é um sistema que traz bastante economia”, explica o aposentado.

E obras como essa estão ganhando espaço. A arquiteta Tânia Fernandes, especialista em projetos sustentáveis, conta que há diversos sistemas que podem ser feitos para aproveitar a água das piscinas, trazendo grande economia. “No ato da filtragem das águas de piscinas, muitas vezes, são perdidos de 2.000 a 2.500 litros, líquido suficiente para abastecer uma família de quatro pessoas por cinco dias. Tendo em vista isso, instalamos e indicamos projetos para impedir que esse desperdício ocorra.”

Tânia conta que, com a instalação de um sistema de tubulação e filtragem, a água pode ser usada até para dar descargas e lavar áreas de serviço ou lazer. “Além dessas opções, é possível instalar um reservatório próximo à piscina para onde é levada a água com as impurezas retiradas. Lá, jogamos um líquido chamado decantador, que faz a poeira e a sujeira irem para baixo, separando-as do líquido limpo, que pode voltar para a piscina.” Nesse sistema, é possível reutilizar a água por até cinco vezes, garantindo economia de mais de 10 mil litros.

Água em debate

Ocorre na próxima quinta-feira o III Seminário Águas Acima. Promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico do DF (IHG/DF) e parceiros, o evento será na sede do instituto, na 703/903 Sul, a partir das 8h30. O debate discutirá o presente e o futuro das nascentes no Distrito Federal, sua preservação e o uso responsável das águas sob a visão de arquitetos e urbanistas, advogados, geógrafos e engenheiros. A entrada é gratuita e a programação completa pode ser acessada no site do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do DF (www.caudf.org.br).
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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Boy
Boy - 27de Março às 09:43
Eu gostaria de saber porque consumimos 8 % da água (população), e pagamos 40 tarifa contingência e as empresas, serviços órgãos públicos consomem 92 % e pagam apenas 20 %. Em quslquer crise hídrica, seja onde for a preferência é a população, o que não acontece no DF
 
Adeilsa
Adeilsa - 26de Março às 16:39
Eu gostaria de entender a cabeça deste povo. Se está faltando água devia ser proibido encher piscinas, primeiramente.
 
Alvaro
Alvaro - 26de Março às 11:54
O grande problema foi o planejamento Hídrico! isso é a verdadeira fonte do problema!............
 
tania
tania - 26de Março às 11:29
Ninguém avisou à Novacap que estamos com problemas de abastecimento de água? Tenho visto caminhões pipa pela cidade aguando jardins como se não houvesse racionamento algum!! A população enfrentando falta de água, pagando sobretaxa e a Novacap molhando plantas com mangueira de 100mm? É uma ofensa.
 
Wilson
Wilson - 26de Março às 10:21
Racionamento tem que estipular consumo máximo, e corte de agua aos que extrapolam, fácil eficiente, mas que não interessa a CAESB por não fomentar entrevistas, e atingir aos padrinhos que lhes proporcionam elevados salários.