Restam apenas 20 edificações pioneiras em madeira espalhas pelo DF; confira

São igrejas, casas e construções grandes que abrigaram os primeiros habitantes de Brasília, de peões ao presidente JK

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postado em 16/04/2017 08:00 / atualizado em 15/04/2017 23:06

Antonio Cunha/CB/D.A Press


Nascida de um sonho ambicioso de Juscelino Kubitschek, Brasília foi traçada a régua para ser moderna, autêntica e futurista. No mesmo século em que foi criada, recebeu da Unesco o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. No entanto, antes de a cidade de concreto e aço ser erguida, os pioneiros construíram suas vidas em casas, igrejas, lojas e prédios públicos de madeira. Uma semana antes do aniversário de 57 anos da capital, o Correio mostra o que sobrou desse patrimônio. Restam ao menos 20 edificações, em cinco regiões administrativas. São cinco templos católicos, 10 casas, uma escola, uma churrascaria, dois museus e uma clínica de odontologia. Do total, 15 estão tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mas o tombamento não é sinônimo de preservação.

 

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Conhecida por abrigar os primeiros habitantes da nova capital, a Vila Planalto hoje chama a atenção pelas construções de dois e três pavimentos. Todas de concreto. Algumas, luxuosas. Cenário que nada lembra o seu início. Mesmo após as intervenções urbanísticas, a cidade, que tem o Lago Paranoá como pano de fundo, ainda conserva um pouco de 60 anos atrás. A Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia e as casas do Conjunto Fazendinhas compartilham a mesma forma de construção: todas foram feitas de madeira.

Os pregos fundidos às tábuas reforçam a maneira como as grandes edificações foram produzidas no  Conjunto Fazendinhas. Porém, só uma das cinco residências está em bom estado. Nela funciona, desde 1994, a casa de acolhimento da Associação de Mães Protetoras, Amigos e Recuperadora de Excepcionais (Ampare).

 

 


Quem visita a construção, mesclada de azul e branco, tem a sensação de estar longe de Brasília. O local, que funciona como moradia para crianças e adolescentes com necessidades especiais e em situação de abandono, foi construído em 1957 para abrigar engenheiros na construção da capital. O radialista Clayton Aguiar, 67 anos, conta que pediu ao Governo do Distrito Federal para dar uma destinação ao conjunto. “Todo o projeto foi obra da minha esposa, Gláucia Gomes, falecida há dois anos. Depois que tivemos uma filha com Síndrome de Down, ela se dedicou ajudar outras pessoas.”

A instituição acolhe 10 crianças e adolescentes abandonados pelos pais. “Fizemos algumas reformas, mas tudo foi acompanhado pelo GDF. Por se tratar de um patrimônio da cidade, mantivemos a identidade da casa e apenas adaptamos algumas coisas para os atuais moradores”, explica a coordenadora, Maíza Bueno, 55. Ela ressalta que uma construção de madeira exige mais cuidados. “Precisamos ficar atentos aos insetos e ao desgaste dos materiais. Uma vez por ano, fazemos uma reforma com profissionais do GDF. Usamos a residência, mas ela pertence ao governo.”

A Ampare conseguiu manter preservada uma das cinco casas de madeira do Conjunto Fazendinhas. No entanto, a vegetação alta e o desgaste tomam conta de uma residência vizinha. As janelas verdes e a pintura cinza das paredes ainda dão vida ao local, que parece estar abandonado. Até o suporte para a caixa-d’água é de madeira. O subsecretário de Patrimônio Cultural, Gustavo Pacheco, diz haver projetos para as outras unidades danificadas, mas ainda faltam análises precisas das instalações para dar início aos reparos.

Assim como a Ampare, as outras casas de madeira funcionaram como instituições sociais. Após a prometida revitalização, que não tem prazo nem verba garantida, o intuito é que elas continuem atendendo a comunidade. Pacheco diz haver duas unidades prioritárias. “Começaremos pelas que estão em pior estado. Em seguida, precisamos avaliar o estado das outras”, explica, sem falar quando começam os reparos.

Igrejinha

 

Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press
Cartão-postal da Vila Planalto, a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia chama a atenção por exibir uma forte coloração marrom. Ao se aproximar, a sensação de perceber que a edificação é toda de madeira pode ser definida como eufórica.

Por fora, as grandes tábuas dão forma ao templo. No interior, os bancos, pincelados com o mesmo tom das paredes, se misturam à atmosfera serena. Só o altar apresenta uma cor chamativa comparado ao restante do lugar. Porém, a edificação original, de 1959, foi destruída por um incêndio, em 2000. A igreja só foi colocada de pé novamente após sete anos, também sendo feita de madeira.

A população considera a “igrejinha de madeira” um monumento de identidade. Segundo o padre responsável pela paróquia, Sérgio Correia da Silva, 43 anos, pessoas de todos os estados frequentam o templo. “A igreja conta a história dos pioneiros de Brasília. Temos orgulho dela. Quando o fogo a transformou em chamas, os moradores lutaram para que ela fosse construída da mesma forma: de madeira”, destaca. O padre explica que o material usado na construção demanda uma atenção especial, porém, o acolhimento proporcionado pela madeira passa uma sensação diferente a quem entrou no templo.

A paróquia também é responsável por uma das casas de madeira. No local, eles realizam catequese e cursos para a comunidade. “Temos em mãos dois monumentos históricos da capital. Por isso também temos a responsabilidade de manter o local preservado. Toda alteração deve ser feita pelo próprio governo, por meio de projetos bem elaborados”, explica.

 

Temporárias 

As construções de madeira no início de Brasília foram feitas para serem temporárias. “Naquela época, tanto os operários, quanto os médicos, engenheiros e diretores de companhia precisavam de uma moradia. As obras de madeiras podiam ser construídas rapidamente”, conta o professor Ivan do Valle, da Universidade de Brasília (UnB). Especialista em arquitetura e pesquisador em construção desse tipo de material, ele acrescenta que, em outras unidades da Federação, o uso da madeira para construções era comum nos anos 1950, e, como Brasília recebeu pessoas de diversas regiões, essa cultura acabou sendo aplicada aqui.

Ivan do Valle considera a degradação das obras em madeira é como um processo natural, já que a madeira usada é de um tipo leve, suscetível ao ataque de fungos e insetos. Por isso é necessária a manutenção constante. “Os órgãos responsáveis por esses patrimônios devem realizar um tratamento mais efetivo para que a durabilidade possa aumentar. Essa manutenção precisa ser realizada por especialistas. Os fungos acabam sendo os piores inimigos das obras, já que realizam ataques com a umidade e danificam as estruturas”, explica.

Mas nem sempre as restaurações saem como o esperado. A Capela de São José Operário, na Candangolândia, recebeu a primeira missa em local fechado do Distrito Federal, em 1957. Em 1996, um incêndio destruiu o monumento. Dezoito anos depois, a igreja foi restaurada e reinaugurada, em um evento que contou com a presença da população e até do então governador Agnelo Queiroz (PT). O que parecia ser o começo de um novo capítulo de glória para a capela acabou não indo para frente, pois esqueceram de construir banheiros, o que inviabiliza missas.

Otávia da Rocha, 68 anos, é católica e mora em frente à capela. Ela não esconde a decepção por não poder ir às missas no prédio vizinho. “Não dá pra ter missa, porque vem muita criança e idoso, e não dá para ficar duas horas sem ir ao banheiro. É muito triste, porque agora temos que ir à igreja lá de cima, em vez dessa, que é um símbolo da cidade”, lamenta. No templo, com capacidade para 150 pessoas sentadas, são realizadas só simples, rápidas e eventuais cerimônias.

Já a dona de casa Silvanette Pereira, 41, tem reclamações ainda mais graves sobre a obra: “Antes, era tudo fechado ao redor da igrejinha. Com a reforma, derrubaram o muro para construir um estacionamento e fizeram uma pracinha. Agora, sem missas, virou ponto de venda de drogas e lugar de festa com som alto. O que era pra melhorar a nossa cidade acabou só piorando.” A capela fica em frente à casa paroquial, mas nem isso serve para espantar os vândalos, que picharam, com tinta branca, as paredes amarronzadas.

Por meio de nota, a Comunicação Social da Polícia Militar afirmou que, diariamente, “há o emprego de viaturas na região”, e que “os registros de chamados da PMDF na área são quase zero”. Ainda, a assessoria disse que “a população deve acionar a corporação para, a partir dos registros de ocorrência, a mancha criminal ser reformulada e haver reforço no policiamento”.


Mato toma conta

Construída em madeira, a Capela São Geraldo, no Paranoá, é a segunda mais antiga do DF, e também acabou abandonada mesmo após a restauração. A obra foi entregue um mês depois da Capela de São José Operário e custou R$ 282 mil aos cofres públicos. Mas, depois da inauguração, só quatro eventos ocorreram no local, três missas e um casamento. Desde então, o abandono se identifica pelo mato alto ao redor do templo, que serve de abrigo para vândalos que destruíram o local e roubaram até o sino de bronze da igreja.

As administrações regionais da Candangolândia e do Paranoá informaram que as capelas integram a lista de patrimônio da Arquidiocese de Brasília. “A responsabilidade pela manutenção, pelo zelo e pela preservação do bem tombado é do organismo responsável por sua gestão”, segundo os órgãos. Até o fechamento desta edição, a Cúria — parte administrativa da Arquidiocese de Brasília — não havia respondido aos questionamentos feitos pelo Correio.

* Estagiários sob supervisão de Renato Alves

 

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