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Índios cobram respeito e preservação à cultura de seus povos

Distrito Federal tem 6.128 índios, de acordo como último levantamento do IBGE, feito em 2010

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postado em 18/04/2017 06:00 / atualizado em 18/04/2017 15:19

Arthur Menescal/Esp.CB
 
Em contraste com a emblemática arquitetura modernista da capital do país, os territórios indígenas ainda resistem em Brasília, ao seguir firme com as tradições e os costumes dos ancestrais. O Distrito Federal conta com 6.128 índios, de acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Para essa parcela da população, a natureza é venerada e respeitada. A terra ocupa lugar de destaque e é sagrada. Dela, são extraídas sementes de plantas utilizadas como remédio para curar uma enorme variedade de doenças, como também são realizados rituais espirituais. Para entender um pouco mais de todo esse conhecimento, várias atividades serão realizadas na cidade neste mês, em que é celebrado do Dia do Índio.


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Mostras de arte, filmes e eventos vão movimentar a capital, assim como será lembrada a morte de Galdino Jesus dos Santos, líder da etnia pataxó-hã-hã-hãe, queimado vivo enquanto dormia em um abrigo de um ponto de ônibus, em Brasília, após participar de manifestações do Dia do Índio, em abril de 1997.

A comunidade Kariri-Xocó, originária de Alagoas, promoverá um evento no próximo dia 23, com oficinas de arco e flecha, comidas típicas e venda de artesanato. Escondidas entre edifícios suntuosos, no fim do Noroeste, em um espaço de 12 hectares, mais de 60 pessoas, a maioria da mesma família, vivem em 16 casas. À frente da tribo, está a cacique Ivanice Pires Tanoné, 63 anos, escolhida como líder em 2005. “Estamos aqui há 32 anos. Agarrei essa luta com pulso firme para proteger meu povo. Sigo as crenças que aprendi. Da terra, tiramos nossas sementes sagradas, como a jurema (a casca é usada como cicatrizante, antiviral, antifúngica e antisséptica) e a imburana (anti-inflamatória). Elas servem para limpar o espírito e a carne. Também temos mucunã, para proteção, jatobá e meru  para fazer pulseiras e colares.”

Uma grande oca, construída em palha de babaçu e bambu, abriga os indígenas que se reúnem  para fazer artesanato. Eles trabalham com sementes e miçangas para a confecção de colares, pulseiras, brincos, além de bolsas de palhas e cestas, cachimbos, arcos, flechas, redes, cerâmicas e maracas.
 
 

Ritual

 
Em Sobradinho, o Recanto dos Encantados é liderado por Toponoyê Junior Xukuru, 34 anos, representante do Conselho Indígena do Distrito Federal. O território conta com uma população formada por mais de 150 indígenas das etnias Krenac, Tuxá, Pankararu, Guajajara, Wapxana, Brobó,  Xukuru, Tapeba e Pataxó. Segundo ele, o local pertence à União. “Há dois meses, viemos para cá e construímos o nosso terreiro sagrado.” Para ele, a cultura indígena verdadeira respeita, sobretudo, a natureza.

O líder nasceu em Pesqueira, Pernambuco, na tribo Xukuru do Ororubá. No Recife, estudou direito. Morador de Brasília há 10 anos, ele luta para que os direitos de seu povo sejam reconhecidos e as políticas públicas, garantidas. “O índio não come somente no mês de abril. Ele vive 365 dias do ano e precisa ser mais respeitado”, observou.

Ainda segundo Junior Xukuru, este ano, será construída, no terreno de Sobradinho, uma grande oca para ser montada uma escola indígena e um centro de formação. “Pretendemos compartilhar nossa cultura. As mulheres Xukuru, por exemplo, são hábeis na produção de renda renascença”, comentou. O filho dele Kasaranii Xukuru, 15, faz parte da liderança jovem indígena. Para o rapaz, a preocupação maior do seu povo é com o preconceito. “Muitos professores não aceitam que os alunos indígenas falem a língua materna, pois consideram uma fala satânica.” O adolescente também conta que muita gente considera anti-higiênico o fato de os índios terem cabelos compridos. “Isso é uma falta de respeito com nossos costumes.”

O território ocupado pela população indígena liderada por Xukuru, em Sobradinho, estende-se por 4 hectares. Essa etnia é ligada à essência espiritual, sendo guiada pela cabocla Jurema — entidade que trabalha com espíritos puros, usando o processo de passes e curas por meio de ervas. A cada 15 dias, a comunidade realiza um ritual, acendendo uma fogueira em uma clareira, no meio da mata. Ao som da maraca, o líder pede proteção dos encantados e canta para afastar os maus espíritos: “Abre as portas meu bom mestre/é o rei do juremeiro/ a pisada aqui é forte/eu não vim para brincar”

Acordo


Foi acordada a construção de uma nova reserva indígena para abrigar a comunidade Kariri-Xocó que vive no Noroeste. Um termo de compromisso assinado pela Terracap estabeleceu a concessão de 22 hectares de terras públicas para 16 famílias indígenas das etnias Kariri-Xocó e Tuxá, em 2014. A área de proteção será próxima ao Viveiro 2 da Novacap. Segundo a Terracap, foram feitos todos os projetos e orçamentos e é aguardada apenas autorização ambiental do ICMBio. A partir disso, será aberta a licitação. A previsão de conclusão da obra é de oito meses.

Programe-se

 
Confira a programação especial em celebração ao mês do índio

19 de Abril
Sessão especial do documentário Martírio, dirigido por Vincent Carelli e codirigido por Ernesto de Carvalho e Tita. O filme, que fala da luta dos Kaiowa e Guarani para existirem, foi ganhador do Júri Popular no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Haverá debate após a sessão.
Onde: Cine Brasília, na EQS 106/107 —
Asa Sul
Horário: às 19h
Entrada Franca

23 de abril
Evento Cultural e Tribal dos Kariri-Xocó
Local: Reserva Indígena Bananal, ao final da SQNW 109
Horário: das 10h às 18h
Custo: R$ 30

Até 23 de abril
Mostra de artefatos culturais indígenas
Onde: Memorial dos Povos Indígenas, 
no Eixo Monumental
Visitação: das 9h às 17h30min
Entrada Franca

De 24 a 28 de abril
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APib). O acampamento deve reunir ao menos 1.500 indígenas de todo o Brasil, em uma luta conjunta e unificada.
Onde: em frente ao Congresso Nacional
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