Em três meses, mais de 3,6 mil mulheres sofreram violência doméstica no DF

Em 90% dos casos, os abusadores são homens. A agressão costuma seguir ciclos que acendem o alerta para relacionamentos abusivos

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postado em 18/06/2017 07:30 / atualizado em 17/06/2017 20:24

André Violatti/Esp. CB/D.A Press
 
“Não use essa roupa”, “Não quero você de conversa com homem”, “Não vá a esse lugar”, “Depois das 22h, não saia de casa”, “Se você não é minha, não vai ser de mais ninguém”. Essas são algumas frases comuns na rotina de casais que mantêm um relacionamento abusivo.
 
As mulheres são o principal alvo das ofensas. Só nos três primeiros meses deste ano, das 4.085 vítimas de violência doméstica, apenas 410 foram homens. Já as mulheres, são 3.675, o que representa 90% do total. Dos autores identificados, 3.360 são do sexo masculino e 347, do feminino, segundo levantamento da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social.
 
 
O lado mais perigoso desse conflito leva ao feminicídio. Até se chegar a esse ponto, no entanto, começam a surgir alguns sinais. O sentimento de posse sobre o outro leva a pequenas agressões que, mais tarde, podem culminar em violência física.
 
Imposições, xingamentos, gritos e exigências são atitudes cíclicas dentro desse tipo de relação. As agressões seguem um ciclo. A fase inicial é a de tensão, onde situações que não deveriam ocorrer começam, como o desejo de controlar o cotidiano do outro.
 
A segunda fase é a da agressão — psicológica, sexual ou física. Logo depois, quando há uma esperança de que essa mulher vá sair da relação abusiva, chega a fase da reconciliação.
 
“É onde surgem promessas, juras de que as coisas vão mudar e de tudo será diferente. E é isso que segura a mulher, a expectativa de mudança. Às vezes, as relações chegam a um ponto em que essa fase nem existe mais, só existe a etapa da agressão”, observa o psicólogo Hugo Guimarães, especialista em casais.

A juíza Thereza Karina Barbosa, gestora do atendimento a vítimas de violência doméstica do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), afirma que o melhor forma de evitar os abusos é se prevenir desses relacionamentos e aprender a respeitar os próprios sentimentos.
 
“Se aquilo magoa, acolha amorosamente o que sente, e não desqualifique. A vítima tem que trabalhar essa percepção para se defender”, explica. O medo, para ela, impulsiona esse tipo de relação. “(Medo) de ficar só, de não conseguir caminhar com as próprias pernas, do futuro, de encontrar alguém pior”, enumera a magistrada.

De acordo com ela, o abusador costuma escolher parceiras que cresceram em uma estrutura familiar fragilizada. “Essa moça não consegue mensurar o risco desse relacionamento, porque já teve uma relação traumática anteriormente, até dentro da própria casa. Então ela não sabe até onde é seguro. Confunde amor e ódio. Cresce em um ambiente onde tem amor, ódio e maus-tratos e tudo se mistura”, esclarece Thereza Karina.
 
Duplo abandono
 
Clara* entrou em um caminho do qual não vê volta. Quando criança, os pais tinham profissões que exigiam plantões e, por isso, passavam muito tempo fora de casa. Então, a independência veio muito cedo e o afeto, ficou de lado. “Eu cresci sem me sentir amada. Quando aparece uma pessoa especial, ela vira uma referência daquilo que você nunca teve e preenche uma lacuna”, revela. Mãe aos 15 anos, o primeiro namorado já dizia que ela não poderia sair se não fosse de calça jeans e com uma camiseta que cobrisse totalmente o quadril. A situação mais traumática, no entanto, veio com o pai do segundo filho. Ficaram juntos durante cinco anos.

Quando Clara, moradora do Park Way, montou a própria empresa, o ex-companheiro, sempre que podia, sabotava o trabalho, pois ela não podia ganhar mais do que ele. Uma das humilhações ocorreu quando ela saía para o escritório. “Estava com uma blusa branca e ele alegou que era transparente. Ee respondi que não e que, inclusive, já havia usado várias vezes aquela peça. Foi a hora que ele me deu um beliscão do bico do peito. Aquilo foi mais do que uma dor física, doeu na minha alma. É uma coisa extremamente humilhante, ele já tinha me agredido de outras formas, mas essa me marcou.”

Logo no início do namoro, o ex a acordou no meio da noite. “Simplesmente, porque queria transar comigo. E eu falei que não queria, pois não estava com vontade. Ele levantou e foi embora. Parece que eles não se importam se você está com vontade, se sente prazer”, diz.

Na gravidez, ela também passou por um dos piores momentos da vida. Sempre teve o sonho de ter parto normal. E, com 39 semanas, teve uma consulta e a médica relatou que havia dilatação e era necessário fazer uma cesária. “Liguei para contar e ele surtou. Pediu para que eu mudasse de obstetra, apenas porque sabia que, se o parto acontecesse desse jeito, ele teria que ficar no hospital para cuidar de mim, e não queria”, comenta. A partir desse momento, toda vez que ela via uma grávida na rua, chorava.

Ela conta que precisou chegar ao fundo do poço para sair do relacionamento. Traída, humilhada e traumatizada. Cansou de escutar do ex-parceiro que ninguém ia querê-la com dois filhos, um de um pai. Hoje, a empresária vive uma união estável com outro homem e se diz muito feliz. “Eu não aceito mais coisas inadmissíveis, como a agressão física. Porém, o vejo fazer as coisas erradas comigo e fico com medo de me impor. Tenho medo de ele não me querer mais”, confessa. Clara acredita que esse seja um dos motivos pelo qual as mulheres ainda temem denunciar. “Se registrar queixa, não vai poder estar com ele, e você quer essa presença, porque gosta da pessoa. Não é o desejo de que ele seja preso, mas que pare de te bater”, constata.
 
 
Processo de anulação
 
“Eu era vítima da mente dele. Não importava o que era verdade”, conta Fabiana*, que mora no Lago Sul. Assim como outras mulheres vítimas de violência doméstica, ela se anulou como mulher para atender às exigências do companheiro ao longo de seis anos. Esse foi o tempo necessário antes de ela perceber que não precisava continuar no relacionamento abusivo. Os dois namoraram, se casaram e tiveram um filho. Ela nunca sofreu violência física, mas ficou marcada pelo que foi obrigada a ouvir e a fazer.

No começo do relacionamento, a viagem que tinha tudo para ser uma lua de mel antecipada, tornou-se o início de uma fase que hoje ela quer esquecer. “No primeiro dia de praia, ele mudou comigo. O tempo passou e eu não entendia o porquê de tudo. Foi então que ele disse que, quando chegamos, eu tirei o short e fui andar na praia de biquíni, como se quisesse mexer com os homens. No outro dia, para não chateá-lo, eu fui com um vestido por cima. Esse foi o primeiro passo”, relata Fabiana.

Daí em diante, a situação só piorou. Amante da prática de lutas desde a adolescência, teve que se policiar para não usar roupas ou fazer movimentos “inadequados”. “Por mais que eu fizesse tudo para agradá-lo, nunca era o suficiente. Chegou ao ponto de ele criar um diário para anotar as coisas que achava que aconteciam. Escrevia que tinha certeza que, depois de malhar, eu saía com outros caras”, relembra.

Fabiana percebeu que não havia mais amor quando engravidou. Era um momento em que estava fragilizada e precisava de cuidados, mas o marido fazia piadas sobre seu corpo e nem mesmo encostava na barriga da mulher. “Eu passei um Natal sozinha. Pensei em me separar diversas vezes durante a gravidez, mas tinha medo de criar um filho. Às vezes, ia pra casa da minha mãe e ele ia atrás. Eu tinha o sonho de ter minha família, ele prometia que ia ser tudo diferente, e eu voltava.”

Hoje, após meses separada, Fabiana consegue ver como a relação a fazia mal. “É uma coisa que você percebe só quando sai. Depois que eu me separei, vi que não é normal uma pessoa que ama a outra fazer o que ele fazia. Eu falava alguma coisa, mas parecia que era nada. A vontade dele estava sempre em primeiro plano. E isso vira uma doença”, acredita.
 
O fim da ilusão
 
No início do relacionamento, Cristina*, moradora de Planaltina, era tratada como uma “princesa” por uma pessoa que ela achava que conhecia. Ele contava a história de vida difícil, de uma família que o abandonou. Com três meses de namoro, o companheiro já morava com ela, com a mãe e com os irmãos. “Enquanto isso, a família dele tentava contato comigo, mas ele mandava que eu bloqueasse. Eu acreditei no que ele me dizia. Hoje, percebo que estavam tentando me alertar”, conta. Lutador de artes marciais, com 1,80m de altura, o homem regulava as roupas que ela usava e, quando saía para trabalhar, levava até a chave para que Cristina não saísse de casa, com o discurso de que era apenas zelo. Ela, desempregada e apaixonada, acreditava que estava tudo dentro do normal.

Quando chegaram aos cinco meses de namoro, ele não conseguiu mais sustentar o personagem. “Ele tinha comportamentos explosivos do nada. Quebrou a porta do guarda-roupa com um murro durante uma discussão. E eu perguntei se o próximo seria na minha cara”, relata. Depois disso, pediu ao parceiro que fosse embora. Mas, no dia seguinte, ele pediu perdão. Mesmo cheia de receio, Cristina o aceitou de volta.

Aos seis meses de relacionamento, outra decepção. “No horário do almoço, a gente tinha tido uma discussão e eu parecia uma bomba-relógio. Sentei no sofá e pedi parar ele parar de me tratar mal e de gritar comigo. Daí, comecei a chorar”, relembra. O companheiro veio atrás para dizer que tudo aquilo acontecia por culpa dela. A puxou pelo braço, encostou o nariz no dela e berrou: “Eu não te trato mal”. Naquele momento, ela perdeu as forças, conseguiu pedir que ele a soltasse e saiu em direção ao quarto.

“Se eu soubesse que dar as costas para acabar com uma briga faria eu ver a morte passar pela minha frente, teria continuado a discussão.” Logo após, vieram socos na nuca, nariz e boca, chutes no rosto e no corpo. Cristina perdeu os sentidos e acordou ensanguentada. É com voz ofegante que as recordações vêm à mente. As marcas do corpo sobraram na alma. “Meu rosto ficou completamente desfigurado. Eu me olhava no espelho e me achava um monstro. Mas a minha recuperação física foi tranquila, demorou duas semanas. Agora, psicologicamente, tenho o mesmo sentimento do dia seguinte da agressão”, lamenta. 

Mudança na lei


A Lei do Feminicídio completou dois anos em março. Ela altera o artigo 121 do Código Penal e passa a ser circunstância qualificadora do homicídio. A morte de uma mulher é, segundo a lei, considerada um homicídio qualificado quando a razão do crime é o gênero da vítima ou questões associadas, como violência doméstica e familiar, menosprezo à condição de mulher ou discriminação à condição de mulher. Prevê reclusão de 12 a 30 anos e determina aumento de pena em algumas circunstâncias, como  quando o crime ocorre durante a gestação.

Palavra de especialista

Como se defender e identificar a agressão

“Aprenda a identificar uma situação de agressão. E se defender não é bater na pessoa. É parar a ação e não alimentá-la. Por exemplo, se o seu namorado começa a te agredir verbalmente em uma mesa de bar, levante, pague a conta e vá embora. Não entre em uma relação querendo um homem que pague tudo para você, que seja o seu provedor, que resolva os seus problemas. Caminhe com as próprias pernas. É ótimo poder contar com alguém, o que eu não posso é depender dessa pessoa.”
Thereza Karina Barbosa, juíza responsável pelo atendimento a vítimas de violência doméstica no TJDFT

Para saber mais

Conheça a lei e denuncie

De acordo com a Lei Maria da Penha (nº 11.340, de 2006), são formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: a violência física, a violência psicológica, a violência sexual, a violência patrimonial, a violência moral, entre outras. A Central de Atendimento à Mulher é um serviço do Governo Federal que auxilia e orienta as mulheres vítimas de violência pelo número 180. As ligações podem ser feitas gratuitamente. O número foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres em 2005.
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