PCDF identifica autoras do assassinato de travesti cinco meses após o crime

Ágatha Lios II foi executada a golpes de facão próximo ao ponto de prostituição em que trabalhava, em Taguatinga

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postado em 03/07/2017 12:33 / atualizado em 04/07/2017 15:37

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) identificou, após cinco meses de investigação, as suspeitas de assassinar a travesti Ágatha Lios II, 22 anos. O crime aconteceu em 26 de janeiro deste ano e chocou os moradores do DF devido à brutalidade.


O crime aconteceu em uma central de distribuição dos Correios e Telégrafos, em Taguatinga Sul, próximo ao ponto de prostituição onde Ágatha trabalhava. Toda a ação foi registrada pelas câmeras de segurança do local, que filmaram a vítima sendo executada a golpes de faca. As acusadas são outras quatro travestis, que também trabalhavam na região. 
 
O inquérito que apura a morte de Ágatha foi o primeiro no Distrito Federal a trazer impresso na capa o nome social da vítima, e não o de registro. A investigação foi comandada pela Delegacia Especial de Repressão a Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual, ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin), que ainda apura o crime.

A delegada-chefe da Decrin, Gláucia Cristina da Silva, afirma que a polícia ainda investiga a motivação do assassinato. Gláucia acrescenta que desentendimentos eram constantes entre o grupo e que a vítima já havia demonstrado não concordar com as atitudes violentas das colegas de trabalho. "Quando o registro do crime chegou da 21ª DP (Taguatinga Sul), nós já tínhamos os nomes das autoras. No dia do crime, elas ameaçaram e correram em direção a Ágatha sem nenhum pudor. As quatro foram indiciadas por homicídio qualificado por emboscada, já que a vítima não teve como oferecer resistência, e podem pegar de 12 a 30 anos de prisão”, diz. A delegada ainda afirma que há crimes de roubo registrados contra as suspeitas.

Uma das amigas de Ágatha conta que a jovem nunca esteve envolvida em intrigas ou confusões de rua. Vitória* também afirma que a vítima havia sido “expulsa” de Taguatinga por uma das responsáveis pelo trabalho das travestis na cidade. Em seguida, a jovem teria trabalhado por um tempo no Plano Piloto e, dias depois, retornado à cidade-satélite. “Ela já tinha sido ameaçada várias vezes, mas queria ficar para trabalhar, porque a cena de prostituição em Taguatinga funciona 24 horas”, afirma. 

Vitória também considera que os dados divulgados a respeito do crime não contemplaram todos os detalhes do planejamento da ação. "A rua é um lugar vulnerável. As cenas da morte da Ágatha não são as principais. Acho que o crime foi muito além daquilo que foi divulgado. Antes mesmo da morte da Ágatha já havia brigas e richas pelo poder do ponto", lamenta.

Memória

Ágatha morava no Distrito Federal havia três meses. Em 26 de janeiro, por volta das 17h30, a jovem aguardava por clientes em uma área próxima à central de distribuição dos Correios de Taguatinga Sul. Algum tempo depois, um carro particular, pedido por meio de um aplicativo de transporte, chegou ao local. As quatro travestis saíram do veículo e correram com facas em direção a Ágatha. Enquanto fugia das demais, a vítima entrou na central de distribuição, onde foi cercada.
 
Os funcionários do local tentaram prestar auxílio, mas Ágatha não resistiu aos ferimentos. As quatro suspeitas fugiram no mesmo carro em que chegaram. O motorista do veículo que as transportou ao local do crime não chegou a descer do carro, mas foi indiciado por homicídio. Ele já prestou os devidos esclarecimento à polícia e não houve a emissão de um mandado de prisão contra ele.


Suspeitas

A Decrin divulgou imagens das suspeitas de cometer o crime. Todas as quatro ainda estão foragidas. Qualquer nova informação a respeito do caso pode ser repassada anonimamente à PCDF, por meio do telefone 197.
 
Decrin/Divulgação
 
 
Decrin/Divulgação
 
Decrin/Divulgação
 
Decrin/Divulgação

Registros

A Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social (SSP-DF) divulgou, no mês passado, um levantamento que aponta que o número de casos de injúria preconceituosa de sexo ou gênero cresceram mais da metade nos cinco primeiros meses do ano. Até maio, 58 casos foram registrados no Distrito Federal. No mesmo período do ano passado, havia 26 registros. As regiões administrativas com o maior número de denúncias foram Brasília, Taguatinga e Ceilândia, cada uma com 11, oito e seis ocorrências, respectivamente.

Gláucia Cristina explica que os casos registrados como esse tipo de injúria dizem respeito exclusivamente a pessoas da comunidade LGBT. "Não existe um crime específico de injúria em virtude da orientação sexual da pessoa. Na hora em que eu registro esse tipo de ocorrência, ela entra como injúria por preconceito contra sexo ou gênero. Elas são registradas pela Decrin, que é um departamento que as pessoas ainda não conhecem bem. A própria Polícia Civil tem uma demanda muito grande para pouca gente", avalia.

A Decrin foi criada em março do ano passado e faz registros de ocorrências de desrespeito à diversidade cultural, religiosa, à orientação sexual e a pessoas idosas. As denúncias podem ser feitas na sede da delegacia (no Setor Policial próximo ao Sudoeste), pela delegacia eletrônica (delegaciaeletronica.pcdf.df.gov.br) ou pelo telefone 197. 
 
*Nome fictício  
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