Cidades

Como os animais lidam com o frio no Zoológico de Brasília?

Animais sofrem com as baixas temperaturas e Zoológico de Brasília faz operação para preservar espécimes

Luiz Calcagno
postado em 09/07/2017 06:00
No serpentário, ao menos uma dezena de aquecedores mantém o ambiente a um clima agradável para que a sobrevivência seja garantida

O frio que assaltou a população no início do período de seca também mudou a rotina dos animais do Zoológico de Brasília. Veterinários, biólogos e tratadores deram início a uma verdadeira operação para manter o conforto térmico dos bichos e, em alguns casos, até garantir a vida do espécime. As baixas temperaturas ameaçam a saúde de animais idosos, de filhotes e de enfermos, além de mudarem o metabolismo dos répteis que precisam de aquecedores para continuarem a se alimentar e não morrerem de frio ou inanição. Além do equipamento elétrico, funcionários lançam mão de feno, alimentação especial e até cobertores para confortar mamíferos e aves. Claro que não é assim para todos. Os grandes felinos, por exemplo, não se incomodam com a variação que botou o brasiliense de casaco. Os tigres estão acostumados a ambientes gelados e mesmo o habitat das onças, adaptadas ao clima tropical, não é tão quente quanto o das grandes cidades.

A reportagem foi à instituição acompanhar os trabalhos dos funcionários. Do lado de dentro do serpentário, por exemplo, entre o fim da tarde e início da manhã, ao menos uma dezena de aquecedores mantém o ambiente a uma temperatura que varia entre 24;C e 25;C. A periquitamboia pode precisar de um pouco mais de calor. É o lugar mais quente da região, brincam os funcionários encasacados. O titular da Diretoria de Répteis, Anfíbios e Artrópodes do zôo, Alberto Brito, explica que o cuidado especial com os diversos tipos de cobras vem porque, diferentemente de aves e mamíferos, incluindo os humanos, os espécimes não controlam a temperatura do corpo. ;A temperatura deles depende diretamente da temperatura do ambiente e isso mexe em toda a fisiologia deles, que sofrem bastante essa época do ano. Se ficar muito frio, podem até morrer;, destaca.
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O problema é que, com o metabolismo baixo, as serpentes não conseguem digerir a presa e, muitas vezes, a taxa metabólica fica abaixo da velocidade necessária para a manutenção da vida. Os espécimes, que são alimentados de 15 em 15 dias, no frio, podem passar 30 dias sem comer, ou mais. Em 2 de julho, tratadores ofereceram alimento. A próxima refeição virá somente no próximo dia 18. ;Elas ficam digerindo o animal por muito tempo. Se comessem demais, seria como um humano passar quatro meses digerindo uma feijoada. Sofreriam. Nós oferecemos a comida de 15 em 15 dias. As que rejeitam só comem na próxima leva, um mês depois. Elas têm opção. Isso não é nenhum problema. Quando chega o período mais quente do ano, não ligamos os aquecedores, a não ser em casos especiais;, observa.

Crocodilos também comem menos no período. Mas o intervalo entre as refeições é bem menor: duas vezes por semana. ;Como ele não fica em um recinto controlado, reduzimos a quantidade de alimentos, principalmente, em dias mais frios;, explica a zootecnista e diretora de alimentação e nutrição do zoológico, Ana Raquel Gomes Faria. ;Se é um dia mais quente, ou se começou frio, mas a temperatura aumentou bem, oferecemos a alimentação. Vai muito de acordo com o clima do dia;, acrescenta. De acordo com a estudiosa, existe todo um plano especial de preparo para o inverno e, em seguida, de mudança de dieta para os animais da instituição. ;Os animais que comem menos no inverno, que é o caso dos répteis, nós mudamos a alimentação deles antes da chegada da estação, para que ganhem corpo para suportar tranquilamente o período. E quando o frio chega, tem todos esses outros cuidados de que falamos;, lembra.

Aves e mamíferos

Se, para os répteis, a ordem é reduzir e controlar a alimentação de acordo com a quantidade de frio, para outros animais, endotérmicos, é necessário um reforço na dieta. Isso porque aves e mamíferos precisam manter a temperatura do corpo e, com isso, gastam muita energia. ;Há um acréscimo de 20% a 50% na demanda energética desses animais. O mesmo acontece com a gente. No frio, comemos mais. Para balancear, reforçamos a alimentação com carboidratos como batata-doce, mandioca, milho, e com rações e alimentos mais gordurosos, como o coco. Introduzimos o ovo cozido também, além de miúdos de aves. Isso para os primatas, que sentem o frio e também ganham cobertores. Eles gostam muito e, também como nós, seres humanos, se apegam ao tecido que usam para dormir;, conta.

O aspecto físico dos espécimes também é levado em conta. No caso de mamíferos, eles são comparados com os parâmetros do animal em vida livre e, se estão no peso correto, por exemplo, conseguem enfrentar bem as baixas temperaturas. Caso contrário, precisam de um tratamento personalizado. Esse cuidado se intensifica no caso das aves. Isso porque as penas escondem a condição física dos animais. Todas passam por atendimento veterinário e as que estão mais magras são separadas do grupo para receber tratamento especial e engordar para o inverno. ;Para as aves, aumentamos a quantidade de ração oferecida, temos um tipo específico para a estação, bem mais calórico e gorduroso e também oferecemos o coco e o milho, além de colocar feno nos ninhos para que eles possam se esquentar mais;, detalha Ana Raquel. Os grandes felinos, mesmo não se incomodando com os termômetros, também recebem suplemento alimentar polvilhado na carne, que também é banhada em óleo de milho.

Temperatura física

As formas fisiológicas de controle da temperatura corporal são chamadas de endotérmicas e ectotérmicas. Os endotérmicos englobam todos os mamíferos e aves. Esses espécimes, incluindo os seres humanos, regulam a própria temperatura e gastam energia com isso. Elevam a temperatura do corpo no frio e a mantém no calor, com a transpiração, por exemplo. Os ectotérmicos, ou exotérmicos, não regulam a própria temperatura e são dependentes de fontes externas de calor. Usam o sol ou uma superfície aquecida.

;Há um acréscimo de 20% a 50% na demanda energética (dos animais endotérmicos). O mesmo acontece com a gente. No frio, comemos mais. Para balancear, reforçamos a alimentação com carboidratos como batata-doce, mandioca, milho, e com rações e alimentos mais gordurosos, como o coco. Introduzimos o ovo cozido também, além de miúdos de aves. Isso para os primatas, que sentem o frio e também ganham cobertores. Eles gostam muito e, também como nós, seres humanos, se apegam ao tecido que usam para dormir;

Ana Raquel Gomes Faria, zootecnista e diretora de alimentação e nutrição do zoológico

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