Crônica da Cidade - Amor de pai

"Quero ser um bom pai. Se quero, ainda não sou. E, aí, entram todas as complicações e as incoerências do papel mais difícil de um homem: educar"

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postado em 12/08/2017 13:40 / atualizado em 12/08/2017 14:33

Quero ser um bom pai. Se quero, ainda não sou. E, aí, entram todas as complicações e as incoerências do papel mais difícil de um homem: educar. No meu caso, as alegrias e as preocupações são sempre duplas. Uma atende pelo nome de Bethânia. Tem 4 anos. Magrela linda que só, encanta com os olhinhos puxados como os da mãe e ri o riso mais sensacional do mundo. A outra é a Paloma. Eis um pitoquinho de 2 anos que manda na casa e dá ordem a todos. E ai de quem não atender essa gostosura na hora.

Ambas nasceram em Brasília. São calangas do cerrado. A cada dia, obrigam-me a aprender. As minhas filhas têm a energia, a saúde, a curiosidade e a iniciativa na medida certa. Têm sede e fome de brincar. E agradeço por todo o sempre por isso. Mas esse privilégio vem acompanhado de uma lista de preocupações. Não por culpa delas, mas minha, só minha. Muitas vezes, imponho rotina repleta de limites. Acredito que peco pelo excesso. Temo soltá-las demais por medo de adoecerem. Receio deixá-las livres no parquinho ou na rua por insegurança de que alguém lhes faça mal. E esse eterno ser/não ser, poder/não poder me impede de viver o bom pai.
 
Talvez por isso não seja raro eu chegar ao fim de um dia dedicado a elas sentindo mais o peso da derrota do que o da leveza da vitória. Fico pensando se poderia ter sido complacente na hora da birra; se havia necessidade de ser tão impaciente com a bagunça; se devesse dar mais atenção e colo após uma ralada de joelho; ou se deveria ter desempenhado melhor o personagem que elas escolheram para mim no reino do faz de conta. Nesses pontos, eu tropeço nos meus próprios pés e surge o conflito entre a educação, a disciplina e a permissão.

Algumas certezas eu tenho. Ser pai não é só ir ao supermercado e abastecer a casa de biscoitos, sucos e iogurtes. Muito menos pagar as contas em dia, comprar o brinquedo da vez ou a roupinha da moda. É preciso estar presente. De corpo e alma; de carne e osso; de sorriso no rosto. Na idade das minhas filhas, essa é a necessidade primária. Ou se participa das coisas ou elas escolhem alguém que o faça — mas o que elas querem mesmo, depois da mamãe, claro, é o papai. E isso eu sei bem, pois não faltam exemplos em casa. Tenho o privilégio de ter dois pais, um gaúcho e outro pernambucano. Com erros e acertos, eles me deram a base para seguir o melhor caminho. E agradeço todos os dias por isso.

Mas agora chegou a minha vez. E as credenciais de um bom pai, ah, essas eu tenho de conquistar sozinho. Esse é o maior desafio. Entendo e percebo o quão é difícil conquistar o olhar orgulhoso de um filho. Para se chegar lá, talvez tenha de descomplicar o complicado, tornando-o simples. Daí, quem sabe, eu consiga absorver e apreender a informação de que, um dia, as minhas filhas crescerão. E tudo, tudo, tudo o que elas vão querer é terem sido felizes, assim como o Menino Maluquinho e todos nós. E, lá, naquele momento, eu vou desejar, do fundo do coração, que eu tenha sido um bom pai.

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