Número de pacientes que abandonam tratamento preventivo da raiva preocupa

Diretoria de Vigilância Epidemiológica está em alerta. Em 2017, pelo menos 252 pessoas pararam os cuidados. Em três anos, esse número chega a 3,5 mil pacientes

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postado em 19/08/2017 13:24 / atualizado em 19/08/2017 15:03

 Barbara Cabral/Esp. CB
 
O abandono do tratamento preventivo da raiva humana deixou em alerta a Diretoria de Vigilância Epidemiológica. Desde 2015, uma parcela significativa de pacientes na capital federal interrompe os cuidados. Em 2017, pelo menos 252 pararam a terapia da doença letal. O índice alcança 3,5 mil pessoas. O temor de especialistas é de que o desleixo com a medicação coloque em risco um legado de 39 anos. O último registro em humanos no DF é de 1978. Em cães e gatos, não ocorre desde 2001.
 

A raiva pode ser transmitida para o homem pelo vírus presente na saliva e nas secreções do animal infectado. O principal meio de contágio é a mordida. A raiva em humanos tem 100% de letalidade — há apenas seis casos de cura da doença no mundo, segundo a Aliança Global para o Controle da Raiva, grupo da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cães, gatos e mamíferos silvestres, como morcegos e raposas, são considerados animais de alto risco para a transmissão do micro-organismo.

Samambaia, Ceilândia, Taguatinga, Gama e Sudoeste são as cidades que concentram as desistências. Em três anos, 29,6 mil pessoas sofreram acidentes com animais no Distrito Federal. “Essa é uma doença que pode ser evitada. Temos tratamento e vacina contra o vírus. O mais importante é a população saber que deve procurar ajuda médica em casos de mordida ou arranhões”, explica a diretora de Vigilância Epidemiológica, Heloísa Dilourdes da Silva Araújo.
 

Panorama 

Veja situação do tratamento anti-rábico no DF

Ano      Casos Desistência do tratamento
2015   11.500 16%
2016   12.180 12,5%
2017*   5.948 4,2%

*Até julho
Fonte: Secretaria de Saúde 
 
Carlos Vieira/CB/D.A Press
 
 
Em casos de mordida, por exemplo, a recomendação é lavar imediatamente o ferimento com água e sabão. É essencial que a vítima procure o centro de saúde mais próximo. “O tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível. Cada paciente será submetido a um regime, dependendo do local do ferimento, da profundidade, além de questões como idade e porte físico”, completa Heloísa. Até julho, 5.948 pessoas iniciaram o tratamento para prevenir a raiva no DF — 4,2% abandonaram a terapia.

A Secretaria de Saúde descarta desabastecimento de vacinas antirrábicas ou falhas no tratamento. Nos sete primeiros meses do ano, a pasta imunizou 5.789 pessoas. Em todo o ano passado, foram 11.101. “Estamos com estoques regulares. A população não procura o serviço por medo ou pela crença de que não está disponível. Contudo, o nosso esforço é para manter todos os postos abastecidos”, conclui Heloísa. Atualmente, estão disponíveis 1.704 doses da vacina antirrábica.


Doença altamete letal

 
As marcas nos olhos da assessora parlamentar Larissa Chagas, 29 anos, revelam o ataque de sua cadela. Apesar de a poodle ser mansa, feriu a dona. A moradora de Ceilândia, no entanto, não procurou ajuda médica. “Eu conheço o animal, é bem cuidado, por isso não tive preocupações. Os ferimentos foram leves e logo melhorei”, contou. Mesma atitude tomou a estudante de fisioterapia Joana de Paiva, 21. O cachorro de uma vizinha a mordeu-lhe a coxa, na 105 Norte. “Lavei o machucado com sabão, mas não tomei vacina nem procurei ajuda médica”, admitiu.

Para o diretor científico da Sociedade de Infectologia do DF, José David Urbaez, Larissa e Joana arriscaram a vida. “Raiva humana é igual à morte. O fato de o animal ser vacinado não significa que ele não possa desenvolver raiva. As pessoas não podem pagar para ver”, explicou o médico. Ele ressaltou também que a falta de casos na cidade não é motivo para não fazer o tratamento. “Essa conquista é justamente por tratarmos as pessoas e vacinarmos os animais”, revelou.
 
A habilidade para lidar com animais não bastou para livrar a estudante Aíla Cohim, 21, do ataque de um gato na Universidade de Brasília (UnB). O felino estava escondido embaixo do carro da jovem e, quando ela se aproximou, ele a arranhou. Por precaução, Aíla procurou ajuda médica e fez todo o tratamento. “Fiquei preocupada com possíveis doenças. Sempre tive contato com animais, tenho um gato e um cachorro, mas é melhor prevenir qualquer tipo de risco”, disse a moradora do Sudoeste.

Para uma parcela da população, como veterinários e agrônomos, o tratamento preventivo é obrigatório. A medida é ancorada na exposição frequente à doença. “O vírus se preserva na natureza. Ataca amplamente os animais. A vigilância é para evitar que ele se dissemine entre a gente”, completa o Urbaez.
 

Pernambuco resgitra uma morte

Após uma morte de uma mulher de 35 anos por raiva humana,  no mês passado, a Vigilância à Saúde de Recife intensificou a vacinação e monitoramento de animais na cidade. Adriana Vicente da Silva estava internada no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC). Ela deu entrada na unidade uma semana após ser mordida por um gato na mama esquerda. Em  2008, um morador do município de Floresta, no Sertão pernambucano, foi infectado pela raiva humana. Marciano Menezes da Silva foi o primeiro brasileiro e o terceiro no mundo a ser curado da raiva humana. Contaminado aos 16 anos após ser mordido por um morcego, o jovem ficou internado até setembro de 2009. O caso tornou-se referência internacional para o tratamento da doença. O jovem, hoje com 24 anos, teve sequelas como dificuldade para andar, falar e crises convulsivas.

 
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