Professor de letras confessa que recebeu dinheiro da Máfia dos Concursos

Um homem formado em letras e que dá aulas numa faculdade confessou ter sido contactado por Bruno Ortiz, filho de Hélio Ortiz, o chefe da organização criminosa, para participar do esquema

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postado em 24/08/2017 06:00 / atualizado em 24/08/2017 06:40

Ed Alves/CB/D.A Press - 21/8/17

 

Entre as 19 pessoas conduzidas, na última segunda-feira, à Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil (Deco) para prestar esclarecimentos sobre as fraudes em concursos públicos, investigadas na Operação Panoptes, pelo menos uma assumiu a participação no esquema. Formado em letras, Mateus (nome fictício), 40 anos, atuava como “piloto” no conchavo — a função dele era resolver as questões sobre a especialidade e repassar o gabarito a Bruno Ortiz, filho de Hélio Ortiz, apontado como líder da organização criminosa e preso novamente.
 
 
Em depoimento, Mateus contou que, pela resolução da prova, receberia o valor equivalente a 5% do total acordado entre o concorrente e os responsáveis pela Máfia dos Concursos. A abordagem ao professor ocorreu por meio de Rafael Rodrigues da Silva Matias, detido preventivamente na deflagração da operação e braço direito de Bruno Ortiz. Segundo Mateus, Rafael mencionou o “esquema de concursos” por três vezes, sem êxito. Na quarta oportunidade, ele aceitou. “Principalmente pela questão financeira. A faculdade não estava pagando em dia”, contou a investigadores da Deco.

Assim, um dia antes da prova de um concurso não especificado pela Deco, Mateus contou ter se reunido com Bruno Ortiz e Rafael Rodrigues. Nessa encontro, os três acertaram o horário em que Mateus faria o exame e combinaram que Rafael o buscaria após o fim da aplicação. Ainda em depoimento, ele alegou que estava nervoso no dia do concurso. Assim, “fez as suas questões de português, anotou na mão com a caneta e saiu”. O professor acrescentou que, ao terminar a prova, passou o gabarito ao integrante da quadrilha que estava em um carro.

À Polícia Civil, Mateus garantiu que desejava esclarecer os fatos, porque “sempre foi trabalhador e nunca tinha se envolvido em situações desse tipo. Inclusive, por muitas vezes, sendo considerado o melhor professor da faculdade”. As informações constam no inquérito da Operação Panoptes.

Atuação
Segundo a Polícia Civil, os “pilotos” eram pagos para responder às questões dos certames e fornecer o gabarito aos concorrentes que pagaram por um cargo nos órgãos públicos. Eles realizavam as provas de forma rápida, completando apenas as questões relativas à própria especialização e repassavam as respostas corretas aos candidatos por pontos eletrônicos ou mensagens de celular. Por isso, podem ser enquadrados nos crimes de organização criminosa e fraude em certame de interesse público.

Para garantir as primeiras colocações em seleções, os concurseiros pagavam uma entrada, cujo valor variava entre R$ 5 mil e R$ 20 mil. Após a aprovação, o candidato desembolsava o montante equivalente a 20 vezes a remuneração inicial prevista no edital. A Polícia Civil detalha que, na maioria das vezes, os concorrentes adotaram sistemas de crédito consignado para arcar com os custos.

Contatada pelo Correio, a defesa de Bruno Ortiz alegou que não teve acesso aos autos do inquérito e, portanto, não poderia emitir um posicionamento. A reportagem não localizou os advogados de Rafael Rodrigues.

Sob suspeita

A Operação Panoptes, cujo nome faz menção ao monstro de cem olhos da mitologia grega, investiga a remodelação da Máfia dos Concursos. Liderado por Helio Ortiz, o esquema foi desarticulado em 2005, mas voltou à ativa há, pelo menos, cinco anos. Segundo a Polícia Civil, todos os concursos realizados desde 2013 estão sob suspeita. A corporação também investiga fraudes em vestibulares de universidades públicas e particulares.



Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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cledson
cledson - 28 de Agosto às 09:00
Já fui aprovado em concurso do DF e fico perplexo com esse tipo de notícia. Imagino a cabeça de quem esta se preparando para futuros concursos. Espero que dessa vez a justiça colabore com a PCDF - polícia muito preparada que tive a honra de conhecer bem- e mantenha esses contumazes meliantes presos.
 
ercilia
ercilia - 24 de Agosto às 15:09
Tudo por dinheiro, vaidade,...Brasilia gira em torno do poder e dinheiro, sem falar nas outras coisas. É dificil não se deixar por isso, todo mundo é cobrado para ter e não ser. Que sociedade fadada ao fracasso essa.
 
Robson
Robson - 24 de Agosto às 06:40
Vamos trocar o modelo de provas por prova oral no total de 50% da prova.