Máfia dos concursos também oferecia vaga em cursos de medicina

Criminosos cobravam até R$ 220 mil por uma vaga; grupo também agia fora do DF

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postado em 25/08/2017 06:00 / atualizado em 27/08/2017 16:19

Reprodução/Policia Civil do DF

 

Alvo da Operação Panoptes, deflagrada na última segunda-feira, a organização criminosa liderada por Helio Ortiz fraudava vestibulares de universidades públicas e particulares, além de concursos. Os detalhes da negociata estão descritos em um dos depoimentos anexados ao inquérito da investigação. Aos policiais da Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado (Deco), Miguel (nome fictício), 58 anos, contou que, para emplacar a aprovação da filha dele, de 21 anos, em uma faculdade pública de Medicina do DF, Bruno Ortiz cobrou R$ 220 mil.
 

Como consta no termo de declaração, a abordagem aconteceu por meio de um representante de medicamentos conhecido como “o cabra”. Miguel contou que, em março de 2016, comentou, no consultório onde trabalha, sobre a preocupação da filha com a dificuldade em conseguir a aprovação no curso — a moça tentava uma vaga desde 2015 em diversas universidades e, ao todo, prestou 10 vestibulares. “O cabra”, então, disse que “conhecia uma pessoa que poderia resolver seu problema”.

No mês seguinte, o mediador o apresentou a Bruno Ortiz, em uma padaria do Guará. À época, o filho de Helio Ortiz informou que “seu trabalho seria somente em vestibulares da universidade pública do DF”. O integrante da organização criminosa ainda explicou que, no dia da prova, a moça teria de realizar o exame com uma caneta de tinta apagável. Posteriormente, o grupo remarcaria o gabarito, com as respostas corretas.

Bruno Ortiz acrescentou que, se a filha de Miguel desejasse a escrita da redação, uma terceira pessoa responderia a prova no lugar dela — neste caso, seria cobrado um adicional de R$ 800. À Deco, Miguel disse tê-lo questionado sobre o que aconteceria se a aprovação não fosse concretizada. Ele recebeu uma resposta sucinta: “Não seria exigido pagamento”, disse Ortiz.
 
A ideia despertou a reprovação de parte da família. A filha de 21 anos ressaltou que “aquilo seria desonesto e que, caso anuísse, estaria retirando a vaga de outra pessoa”. A esposa de Miguel também mostrou-se contrária à estratégia. “Não é certo”, disse a companheira.

Ainda assim, ele fechou negócio e pagou uma entrada de R$ 45 mil a Bruno Ortiz. O restante seria dividido em outros dois repasses: metade a partir da publicação do nome da moça na lista de aprovação e o restante, após a matrícula. A jovem de 21 anos realizou as provas, mas não passou no vestibular.

Bruno ainda havia oferecido a Miguel vagas em outras duas faculdades particulares do DF e em outra, no estado de Goiás. Nesse caso, indicou a mediadora Alda Maria de Oliveira Gomes, ex-funcionária pública e alvo de condução coercitiva na Operação Panoptes. Em dois encontros, durante o ano passado, a mulher teria cobrado R$ 170 mil pela aprovação no curso de medicina nessas universidades privadas.


Punições

O delegado adjunto da Deco, Adriano Valente, confirmou que as investigações alcançam também fraudes em vestibulares. “Ainda não é possível precisar o número de certames fraudados. Possivelmente, será deflagrada uma nova fase da Operação Panoptes, voltada especificamente a essa modalidade criminosa”.

Os candidatos que pagam por vagas em universidades públicas ou privadas podem ser enquadrados no crime de fraude à certame de interesse público. Caso os pais realizem o repasse pelos postos e os concorrentes sejam menores de idade, há, ainda, incidência de corrupção de menores. Além disso, a depender do número de envolvidos e do grau de proximidade, o grupo classifica-se como organização criminosa.  

Alda Maria prestou esclarecimentos à Deco sobre a suposta participação no esquema de fraudes. Procurado pelo Correio, o advogado de Bruno Ortiz afirmou que não teve acesso aos autos e, portanto, não poderia comentar as acusações.
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