Novo Gama ocupa o 20º lugar entre as cidades mais violentas do país

Nos primeiros seis meses deste ano, Novo Gama registrou 27 homicídios, 26 tentativas, seis estupros e mais de 600 assaltos a pedestres

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postado em 27/08/2017 07:58 / atualizado em 27/08/2017 09:01

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

As tragédias familiares são vizinhas de porta no Novo Gama (GO). E, quando não convivem lado a lado, se reconhecem na rua. A reportagem percorreu a região de 108 mil moradores, que ocupa o 20º lugar entre as cidades mais violentas do país, de acordo com o Atlas da Violência de 2017. Nos primeiros seis meses deste ano, Novo Gama registrou 27 homicídios, 26 tentativas, seis estupros e mais de 600 assaltos a pedestres. Exemplos dessa triste estatística podem ser encontrados com facilidade nas ruas. É o caso da costureira Luzia de Arruda, 63 anos, moradora do bairro Lunabel. Ela perdeu dois filhos e nunca soube o motivo das mortes.

O primeiro filho levou um tiro pelas costas, em Pedregal, bairro do Novo Gama. O corpo do caçula, o último a morrer, foi encontrado em uma localidade conhecida como Grande Vale, com um saco plástico amarrado na cabeça, em 7 de setembro de 2015. A vítima foi espancada e, na sequência, morta a tiros. “Estava sem documento, sem celular, e a caminhonete dele foi incendiada no Jardim América. Eu tive alucinações. Passei a tomar remédios. Ele me visitava a cada 15 dias. Sempre que chega o dia de ele vir, eu desabo. Se vejo um carro parecido com o dele na rua, sofro”, conta.

Acerto de contas

Segundo Luzia, os crimes nunca foram solucionados. O sofrimento maior é pela perda mais recente. “Ele teve um passado difícil, mas se recuperou. Revendia carros. Foi muita crueldade. Enfiaram uma toalha na boca dele. Cobriram a cabeça com um saco. Eu não consigo entender”, lamenta. Para a mulher, o governo é muito distante da população e não conhece as necessidades dos moradores da cidade. “Pagamos impostos e não temos nada. Ninguém nos conhece”, desabafa.

Vizinha de Luzia, Silvia (também nome fictício), 38 anos, também tem uma história de violência. Perdeu o enteado de 19 anos, em fevereiro de 2014 e, hoje, cria o filho da vítima. “Ele ia a uma sorveteria quando foi surpreendido por dois homens, cada um com duas armas. Levou, ao menos, 21 tiros. Foi acerto de contas. Mas ninguém soube quem (efetuou os disparos). O bebê, à época, tinha 2 anos. Hoje, me chama de mãe. É meu filho e tento indicar um caminho diferente na vida”, emociona-se.

A aposentada Irene Oliveira Costa e Silva, 57, moradora do Pedregal, soube da morte do filho, Wilian, 30, em 25 de dezembro de 2015. Ele estava desaparecido há 12 dias e morreu espancado, vítima de latrocínio (roubo com morte). “Três pessoas abordaram meu filho e pediram o celular, mas não gostaram. Acharam o aparelho simples. Bateram nele até matá-lo. Enfiaram pedra na boca dele, chutaram e jogaram um paralelepípedo na cabeça. O irmão dele só o reconheceu no Instituto de Medicina Legal (IML) por causa de uma tatuagem”, recorda a mulher. “À noite, às vezes, ainda abro a porta do quarto dele, para olhá-lo dormir, como se ele estivesse lá”, revela.

Dois dos criminosos fugiram. O terceiro foi pego pela população e entregue à polícia. Irene conta que os outros três filhos percorreram toda a região e diversos hospitais em busca de 

Willian. “Até que o meu mais velho sonhou com ele. Ele pedia para ser encontrado e dizia que estava em um lugar frio. Ele acordou no dia seguinte e foi ao IML. Eu queria, se eu pudesse, trocar de lugar com ele”, chora.


Medo nas ruas

No comércio, o medo é regra e a sensação de segurança, exceção. Vadin da Silva Dias colocou grades na distribuidora de bebidas. A partir de 17h, só atende por trás das barras de ferro. A farmácia ao lado foi assaltada há cerca de duas semanas, e ele garante que só escapou da violência até agora “por ser muito cauteloso”. Proprietária da farmácia, Eliane (nome fictício) conta que é a quarta vez que o estabelecimento é assaltado. Ele (o criminoso) saiu da farmácia caminhando. Levou R$ 200 e deixou um trauma. Se eu não precisasse muito, não viria mais trabalhar aqui”, diz.

Bairro de Valparaíso colado ao Novo Gama, Céu Azul vive uma tensão semelhante no comércio. Na última quarta, um homem foi assassinado dentro de uma distribuidora de bebidas na região. O estabelecimento está fechado e com uma faixa preta na frente. Proprietário de uma loja de roupas nas proximidades, Marciel Lourenço, 37, conta que, em 2016, foi assaltado duas vezes pela mesma pessoa. O homem foi preso, mas já está solto e, às vezes, passa pela frente do estabelecimento. “Ele levou nossos produtos e tentou vendê-los nas proximidades. Por isso, conseguimos localizá-lo e denunciá-lo”, recorda.

De acordo com o comandante do 19ª Batalhão de Polícia Militar de Goiás (Novo Gama), tenente-coronel Daniel Santana, “a dificuldade que a PM tem é com a impunidade. A gente prende alguém, em um dia, e a pessoa é solta no outro. Isso gera sensação de insegurança”, ressalta. Com isso, o comandante afirma que as próprias vítimas deixam de ir às delegacias. “Ninguém quer ser testemunha. Temem pela própria vida.”

O delegado de homicídios e repressão a narcóticos de Novo Gama, Daniel Martins, admite que a violência na região é grande. Segundo ele, mesmo com a redução nos índices de crime, em relação ao ano passado, o número ainda está acima do que seria o ideal. “Tivemos uma melhoria em relação aos equipamentos, mas ainda enfrentamos problemas de escassez de pessoal, o ideal seria a contratação de mais policiais”, afirma.

Uma região esquecida

Professora do Departamento de Sociologia da UnB e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança (Nevis), Maria Stella Grossi Porto avalia que o contexto da violência no Entorno “é complexo e com diversas variáveis”. Segundo ela, além da falta generalizada de condições de vivência urbana, como acesso a equipamentos públicos, saúde, educação, lazer e segurança, há, ainda, uma indefinição em termos governamentais sobre o responsável pelos municípios. “São cidades distantes de Goiânia e pouco interessantes para o governo estadual e, por outro lado, não são, a rigor, parte do Distrito Federal. Acaba se tornando uma terra de ninguém e, nesse sentido, faltam investimentos em todas as ordens”, explica.

Para o professor emérito do Departamento de Serviço Social da UnB e docente de psicologia social da Universidade Católica de Brasília (UCB) Vicente Faleiros, uma das alternativas para a diminuição da violência é a prevenção com um trabalho de rede estruturado. “É preciso envolver centros de saúde, assistência social, escola, conselhos tutelares, a igreja e a polícia. Os militares têm um papel importantíssimo nessa etapa, porque eles podem participar de palestras educativas, mas é preciso que essa rede esteja bem organizada”, avalia.

Na avaliação do estudioso, o desemprego, as drogas, a falta de acesso a políticas públicas e a ausência de espaços culturais nas cidades influenciam a entrada ao mundo do crime. “Não podemos estigmatizar o Entorno, mas há dimensões que precisam ser consideradas, porque são cidades onde há muita juventude desempregada, que servem como acesso para a rota do tráfico de drogas em Brasília e que não oferecem espaços de lazer e cultura, nem de acesso a políticas sociais”, alerta.

Apesar disso, ele considera que o crime organizado não tem limites. Na visão do professor, esses bandidos agem conforme a demanda. “Como, por exemplo, neste ciclo do crack, que é uma droga terrível, porque, além de inserir o jovem no mundo do crime, ele destrói o usuário”, pontuou.

* Sob supervisão de José Carlos Vieira

Três perguntas para
O comandante do policiamento do Entorno Sul, tenente-coronel Marques Nunes Azevedo


De que forma a polícia tem atuado no Entorno Sul, principalmente nas regiões de Valparaíso, Cidade Ocidental e Novo Gama?

Desde o ano passado, houve um incremento no policiamento ostensivo nas cidades entre o Novo Gama e Cristalina. O resultado refletiu nas reduções dos índices de criminalidade que estão caindo há mais de cinco anos seguidos, como os casos de homicídio, furtos, roubos a pedestres, roubo a residências e de veículo. De forma geral, no Entorno Sul, os homicídios reduziram mais de 23% e os outros casos de furtos e roubos em geral caíram 40%.

Qual é o efetivo policial das cidades de Valparaíso, Cidade Ocidental e Novo Gama?

Em Valparaíso, são 102 policiais divididos em escala de 24 por 72 horas. Já na Cidade Ocidental são 68 militares nessas condições. Além disso, a Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária de Goiás (SSPAP) disponibiliza, mensalmente, R$ 120 mil para pagamento de trabalhos extras remunerados. Um policial que está de folga recebe R$ 400 pelo dia de expediente. A partir do serviço remunerado e com o policiamento reforçado, os índices de criminalidade estão caindo. Hoje quase não existe mais latrocínio na região do Entorno Sul. Em Valparaíso e na Cidade Ocidental, estamos apreendendo quantidades expressivas de drogas e realizando várias prisões. Já em Novo Gama, nosso efetivo é de 129 homens. Temos, ainda, R$ 68 mil de verba extra remunerada dividida para complementar o serviço e, como em todo o Entorno Sul, os crimes na cidade estão reduzindo desde 2013.

Por que, mesmo com os índices em queda, os crimes no Entorno continuam assustando moradores?

Eu diria o contrário. Algumas regiões de Brasília impactam na segurança do Entorno. É o caso das cidades de Santa Maria, Gama e São Sebastião. Por terem uma população maior que as cidades do Entorno, isso acaba refletindo aqui. Além disso, há todo um estigma do Entorno como uma região violenta.
 
 
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