UPAs do Distrito Federal sofrem defasagem de 45% no atendimento mensal

Falta de recursos e de funcionários resulta na ineficiência dos atendimentos nas unidades de pronto atendimento do Distrito Federal

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postado em 29/08/2017 06:00 / atualizado em 29/08/2017 07:12

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 
Pacientes estão deitados no chão e um princípio de confusão começa na recepção da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Ceilândia. Aos gritos, uma mulher cobra atendimento para o pai desmaiado e amparado por outros doentes. Apenas um médico faz o atendimento no local. Ele prioriza os casos mais críticos na sala vermelha, espaço de cuidados intensivos. O vigilante intervém. As vozes se calam, quando o segurança, com certa grosseria, explica o problema. “Não adianta brigar. Tem só um médico. É impossível receber novos atendimentos”, sentencia. Cerca de 150 pessoas aguardam a sua vez.


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A cena não é exclusividade da UPA de Ceilândia. Os problemas e as histórias de frustrações se repetem em todas as seis unidades de pronto atendimento da capital federal. O Correio percorreu 202km para traçar o panorama do serviço. A reportagem acompanhou o drama de pacientes que perambulam em busca de assistência. As estatísticas oficiais evidenciam o problema. As seis unidades deveriam fazer 6,7 mil atendimentos mensais, segundo regulamentação do Ministério da Saúde. Contudo, a média é de 3,7 mil, de acordo com cálculo da Secretaria de Saúde — defasagem de 45%.
 
Deitado em um amontoado de cadeiras, o pedreiro José Hermes Brito, 76 anos, esperava por um médico havia 13 horas. Após uma queda, o joelho e o tornozelo direitos ficaram comprometidos. Passava das 20h da última quarta-feira, quando o idoso tentava atendimento na UPA de Sobradinho. “O que deixa a gente revoltado é a falta de compaixão. Se explicassem onde há atendimento, a sensação de abandono seria menor, mas nem água aqui tem”, reclamou José. A recepcionista responsável pela organização dos atendimentos disse que, naquele dia, só pacientes graves foram admitidos. José desistiu de esperar. Amparado em uma bengala improvisada, deixou o local por volta das 21h30, com a ajuda de outra paciente também não atendida.

O desmonte é tanto que, em Samambaia, no Recanto da Emas e no Núcleo Bandeirante, parece que o serviço deixou de funcionar. Em Samambaia, as portas da unidade estavam semiabertas. Lá, a reportagem encontrou o jardineiro Josenaldo de Almeida Cortes, 44. Com dores musculares e nas costas, ele sequer entrou na UPA. A funcionária da recepção disse que era melhor nem esperar. Ele tomou um ônibus e, 12km adiante, no Recanto das Emas, também não recebeu atenção. “Há duas semanas, eu procuro hospitais, postos de saúde e UPAs. Em todos os locais, a situação é a mesma”, queixou-se.

Recursos em baixa 
A dificuldade de atendimento é reflexo do esvaziamento das UPAs. A Secretaria de Saúde reduziu a quantidade de médicos nesses locais para fortalecer o programa Saúde da Família. Na escala em que deveria haver nove profissionais, apenas quatro fazem o serviço, como o Correio mostrou no início do mês. Em muitas situações, os médicos faltam ou apresentam atestados. Com as falhas, o Ministério da Saúde cortou aportes financeiros. Se, antes, o Palácio do Buriti embolsava R$ 1 milhão por mês para a manutenção de quatro UPAs — outras duas estão com o processo suspenso —, agora, o recurso cairá pela metade: R$ 475 mil. Em um ano, as perdas chegam a R$ 6 milhões.

A mulher que gritava na UPA de Ceilândia, destaque no início da reportagem, é a analista de contas Alene Lacerda, 34. O senhor que desmaiou é o pai dela, de 64 anos. “Falta compaixão das autoridades públicas”, lamentou, ainda muito nervosa. O pai dela foi estabilizado, mas não teve o caso solucionado. A dura rotina imposta aos pacientes causa revolta. Cansada, a monitora Josilda Henrique Barbosa, 41, esperou mais de 10 horas para se encontrar com um médico. “As pessoas morrem aqui, e ninguém se preocupa com isso”, ressaltou a moradora da Chácara 51 do Sol Nascente ao ir embora sem ter a suposta pneumonia avaliada.
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