Rodoviários voltam ao trabalho após dia de transtorno para passageiros

Enquanto as garagens das empresas permaneceram cheias, cerca de 1,8 milhão de usuários do transporte público ficaram prejudicados ontem. Motoristas e cobradores reivindicam reajuste de 10% no salário, no vale-refeição e alimentação e na cesta básica e ameaçam com novas paralisações

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 Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
Após quase 24 horas de paralisação que causou muitos transtornos para a população, os rodoviários voltaram ao trabalho na madrugada desta terça-feira (29/8). Pouco depois das 6h de hoje, as paradas de ônibus estavam lotadas de passageiros em várias regiões do Distrito Federal, mas os coletivos passavam normalmente. Foi a sexta greve da categoria em menos de quatro meses e, dependendo do resultado da rodada de negociações prevista para amanhã, às 9h30, no Tribunal Regional do Trabalho, os serviços podem ser interrompidos novamente nesta semana. Enquanto as garagens das empresas permaneceram cheias, cerca de 1,8 milhão de usuários do transporte público ficaram prejudicados, de acordo com Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros (Transit).

Motoristas e cobradores reivindicam reajuste de 10% no salário, no vale-refeição e alimentação e na cesta básica, além do implemento da parcela paga pelos patrões para os planos de saúde e odontológico. Para o GDF, o pedido não condiz com a realidade econômica do DF. Em julho, os rodoviários aceitaram proposta de 4% — percentual acima dos 3,987% referentes ao INPC de abril de 2017 — e assumiram o compromisso de dar trégua de 30 dias nas paralisações. Passado o prazo, as ofertas garantidas foram de 4,5% nos vencimentos, mais reajustes relativos aos benefícios de alimentação (5%) e cesta básica (6%). Mas, na manhã de ontem, sem aviso prévio, veículos das empresas Pioneira, São José, Piracicabana, Urbi e Marechal, incluindo as linhas do BRT Gama e Santa Maria, não saíram das garagens.

Com as paradas lotadas, o transporte pirata se aproveitou da situação. Pela manhã, no centro de Taguatinga, filas de carros e vans se formavam para pegar quem não tinha opção. Muitos pagaram até R$ 10 pela passagem. A atendente Rebeca Lindauva, 28, foi uma das prejudicadas. Ela trabalha das 19h às 7h, e a falta de transporte fez com que pagasse R$ 5 por um veículo irregular para sair da Rodoviária do Plano Piloto e chegar ao Recanto das Emas, onde mora. A mulher esperou cerca de 3 horas. Com isso, perdeu a prova do curso de atendente de farmácia e terá de pagar R$ 45 por novo teste. Rebeca também não conseguiu levar os filhos à escola. “Além de prestarem serviço caro e de baixa qualidade, ainda fazem paralisação sem nos avisar. É uma falta de respeito”, disse.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

O secretário de Mobilidade, Fábio Ney Damasceno, informou que os rodoviários não aceitaram a proposta oferecida na última semana e “pararam de forma precipitada, inadmissível e descabida”. “A população é diretamente prejudicada e não pode pagar por uma frustração dos rodoviários em função de um pedido de reajuste salarial que não condiz com a realidade econômica do DF”, apontou Damasceno.

A paralisação também prejudicou empresas, escolas e serviços de saúde. A gerente de uma loja de suplementos e produtos naturais em Taguatinga, Carla Marques, teve de reorganizar os turnos. “Os que estão aqui é porque fizemos uma força-tarefa e saímos pegando nas paradas por perto. Também vamos mandar Uber para pegar alguns funcionários-chave, tipo estoquista e operadores de caixa. É um gasto a mais para a empresa”, lamentou. Mesmo com a faixa do BRT liberada, o trânsito ficou complicado na Estrada Parque Taguatinga (EPTG), em Sobradinho, no Colorado e na Granja do Torto.
As estações de metrô ficaram cheias. Normalmente, 160 mil pessoas usam o sistema por dia. Ontem, a empresa ampliou os horários de pico da manhã e da tarde para atender à demanda. Na Rodoviária do Plano Piloto, as filas para a compra de bilhetes chegavam perto da saída.

Ilegalidade
À tarde, o GDF conquistou uma liminar na Justiça, garantindo o funcionamento de 100% da frota de ônibus nos horários de pico e 50% nos demais. Com a decisão do juiz Carlos Fernando Fecchio dos Santos, da 4ª vara de Fazenda Pública do DF, o Sindicato dos Rodoviários teria de restabelecer imediatamente o serviço, sob pena de multa diária de R$ 1 milhão. Para o magistrado, as empresas não podem paralisar as atividades contratadas pelo governo.

A Transit também entrou com ação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), pedindo a declaração de ilegalidade da greve e o retorno imediato às atividades, o que foi concedido pela desembargadora Maria Regina Machado Magalhães. A Justiça obrigou o sindicato a não realizar novas paralisações sem cumprir o previsto na legislação e estabeleceu multa de R$ 150 mil por dia.

Em nota, o Sindicato dos Rodoviários informou que a paralisação tem como objetivo cobrar o GDF e os empresários do setor. “O descaso é também com a população, que só poderá ter um serviço de transporte coletivo de qualidade quando os trabalhadores do setor forem valorizados”, alegou.

Análise da notícia

E o cidadão comum?

» José Carlos Vieira

É indiscutível o direito de greve dos rodoviários. Mas, a forma como ela foi decidida, na calada da madrugada, atinge em cheio o direito do brasiliense menos favorecido, aquele que acorda ainda escuro para ir ao ponto de ônibus rumo ao trabalho. Aquele que tem o dinheiro contado para pegar a condução e que, de uma hora para outra, se viu desamparado, impotente numa parada, sem saber como chegar ao serviço. Foram milhares em várias regiões do Distrito Federal. Não tiveram tempo de planejar alguma solução para encarar a paralisação relâmpago dos rodoviários.

E, nessa briga entre a classe dos motoristas e rodoviários contra os donos de empresas (tendo o governo do DF como um dos agentes principais), o cidadão é, nas mesas de negociações, uma figura sem voz, ou seja, o lado mais fraco, que pagará o pato. O movimento paredista e a inépcia dos empresários alcançaram os prejudicados de sempre, os que não têm sindicato ou entidade de classe que possam fazer valer seus direitos. Mais respeito ao brasiliense.
 
 
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