Crônica da Cidade: homenagem ao mestre Almir Flores

O educador Almir Flores morreu, hoje pela manhã, após anos de luta contra um câncer. Há dois meses, o Correio publicou uma homenagem ao professor que tanto inspirou alunos de Brasília

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postado em 31/08/2017 16:32 / atualizado em 31/08/2017 16:37

Ao mestre,
com amor*

Essa história começa nos anos 1990. Lembro bem as circunstâncias — a iminência de uma reprovação escolar —, mas não sei com exatidão o enredo. Certeza é que caí nas mãos de Almir Flores sem ter ideia da revolução que se daria dali para a frente. O professor, orientador pedagógico, psicólogo, diretor de teatro, artista plástico, artesão e guru se revelaria um dos responsáveis pelas principais mudanças e decisões que eu logo tomaria na vida, da escolha da profissão à mudança de cidade, da experiência em outro país à paixão pela história e pela arte.

Almir recebia no Pronto-Socorro de Aprendizagem (PSA) todo tipo de aluno. Pouco importava se o estudante era bom, ruim, picareta, dedicado ou aéreo. O método dele era sem frescura ou hierarquia, mas exigia respeito e honestidade. Pegava no ar qualquer tipo de enrolação ou desculpa barata que se usava para justificar os tropeços escolares e na vida. Mal a gente abria a boca para, em seguida, ouvir a célebre frase: "Ah, me poupe, Fulano!". E Almir esfregava as mãos no próprio rosto, o que dava mais vergonha da tentativa de ludibriá-lo. Almir nos tratava como iguais, mas cobrava responsabilidade a cada vacilo — e não eram poucos.

O meu caso, reconheço, exigiu trabalho. Àquela época, só pensava em futebol. Não queria saber dos livros e dos números. Por isso, o atendimento precisava ser diário. Sob sol ou sob chuva, saía a pé da escola, na 913 Sul, e caminhava quase
em linha reta rumo à 412 Sul, atravessando a W3, os eixinhos, o Eixão e as quadras 200 antes de chegar ao prédio, sem pilotis e de ladrilhos azuis, às margens da L2. Diante da minha resistência às matérias de exatas, toda semana, Almir discursava: “Não gosta de matemática, física e química? Dane-se. Não farão amenor diferença para você? Dane-se. Para fazer o que se gosta, é preciso vencer essas etapas. A vida é assim”.

A franqueza pedagógica de Almir tinha consequências práticas. O aluno que soubesse apreender a riqueza que vinha de cada encontro e conversa com ele se preparava para a vida. E não há nenhum exagero nisso.Ojogo de palavras recorrente e oincentivo ao uso do raciocínio em vez da decoreba resultavam em confiança, segurança e autoestima. Por isso, Almir representa todos os educadores que contribuíram para a minha educação. É a imagem dele que me vem à cabeça sempre que penso em professores.

Após décadas de paciência, cuidado e dedicação a milhares de estudantes de Brasília, Almir se viu obrigado a deixar as salas de aula por questões de saúde. Busca o reequilíbrio e a simplicidade em uma bela casa erguida no povoado de Olhos D’Água, bem pertinho de Alexânia. O portão, uma obra de arte revelada em folhas verdes decoradas em metal, recebe os amigos. Depois dele, só é preciso passar por uma enorme porta giratória para se deparar com o lar com a assinatura do professor, repleto de cores fortes, desenhos nas paredes e artesanato.
 
O jardim, tomado por árvores, expõe trabalhos feitos por ele em barro, argila e todo tipo de material reciclável, muitos pintados com tinta à base de água. Por ali, cão, gato e o pavão Diego exploram tudo com liberdade. A casa não oferece tevê, mas uma vitrola dos tempos da adolescência, na qual se toca Elis, Bethânia, Joan Baez, Beatles. Apesar da aposentadoria precoce, Almir mantém a veia educadora pulsante em Olhos D’Água, incentivando pequenos artesãos a se tornarem empreendedores. Felizes e privilegiados aqueles que contam com grandes mestres pelo caminho. A eles o mais sincero agradecimento.

Para Almir, com amor. 
 
* Crônica publicada em 1º de julho de 2017
 
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