"Empresários são omissos na política", diz sócia do Sabin em entrevista

Pelo perfil empreendedor, Janete Vaz tem sido assediada a disputar eleições

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postado em 03/09/2017 08:00 / atualizado em 02/09/2017 23:43

Ed Alves/CB/D.A Press

 
A busca por um nome novo na política, com perfil ficha limpa, empreendedor e de realizações na cidade, transformou a empresária Janete Vaz em uma das personalidades mais assediadas de Brasília. Sócia da rede de laboratórios Sabin, a bioquímica tem sido sondada por parlamentares, presidentes de partidos e por líderes empresariais para uma possível candidatura majoritária em 2018. Ela reconhece o cerco, mas é categórica: não disputará eleições. Isso não significa que Janete ficará fora do pleito do ano que vem: ela defende um protagonismo mais forte da classe empresarial. “Infelizmente, os empresários brasileiros são omissos na política. Temos que falar mais, participar mais, precisamos estar juntos nessa hora da escolha, porque, certamente, teremos melhores pessoas no poder”, justifica. 
 
 
Janete critica a gestão do governador Rodrigo Rollemberg, especialmente por conta de indicações políticas para cargos estratégicos, mas elogia a primeira-dama do DF, Márcia Rollemeberg. “Disse a ela que, se fosse preciso, juntaria um grupo de mulheres para apoiar outra mulher. Brinquei: 'está todo mundo correndo atrás de mim, mas eu vou indicar o seu nome'. A Márcia é uma pessoa competente, determinada”, justifica.

Ao lado da sócia, Sandra Costa, a empresária tem previsão de faturamento de R$ 900 milhões para este ano e está à frente de uma das empresas que mais crescem na capital — são 225 unidades, em 22 cidades. Com a autoridade de empreendedora de sucesso, Janete deu 70 palestras no ano passado, contando bastidores de sua trajetória exitosa nos negócios. Também participa de grupos atuantes de empresários, nos âmbitos local e nacional, e tem como bandeira reduzir as desigualdades de gênero no país.

Nascida em Anápolis, mãe de três filhos e avó de três netos, Janete fala com orgulho da carreira, mas são os detalhes da vida pessoal que fazem brilhar os olhos da empresária. Ela se casou no ano passado, aos 62 anos, com o advogado Flávio Marcílio, em uma grande festa. “O importante é começar a enxergar que você pode transformar a sua vida em qualquer fase dela. Com a mesma ousadia que comecei o Sabin, lá atrás, com 29 anos, eu comecei outra vez, casando aos 62 anos”. 

 

 


Qual o impacto da corrupção na crise que o país enfrenta?

Infelizmente, o Brasil é um país corrompido. A pior coisa de uma sociedade é quando ela perde os valores. O primordial de uma família, de um Estado, são os valores. Até os princípios bíblicos foram esquecidos hoje, valores que são fundamentais. Falamos de Deus dentro da empresa com a maior naturalidade, não no sentido da religião, mas para valorizar princípios, como a gratidão, a humildade, a responsabilidade. Dar liberdade às pessoas, ser justo. São valores que fazem o crescimento, seja de uma empresa, seja de um país. Temos que trabalhar valores familiares dentro das empresas. Nosso legado, como empresa, será trazer valores e ter um propósito naquilo que queremos. Com ética e responsabilidade, é possível se tornar uma grande empresa. Ninguém vai seguir um líder que não seja otimista. As pessoas querem estar do lado de alguém que seja inspirador. Não temos medo de desafio. Quantas crises passamos e vencemos? Enxergamos o Brasil desse jeito.


Muito se fala a respeito da necessidade de um nome novo para a política, com espírito empreendedor, e, nos bastidores de Brasília, fala-se que o assédio à senhora tem sido grande. É verdade?

Eu ouço isso todos os dias, essa conversa de candidatura. No domingo passado, estava em um restaurante e o dono veio falar comigo, disse que poderia mobilizar um monte de gente para me ajudar.


Descarta ser candidata? 

Completamente. Nós fazemos políticas públicas todos os dias. Mas política partidária, não. Minha contribuição eu dou contratando quatro mil pessoas, pagando todos os impostos em dia, não fico devendo nada ao governo. Participo de grupos como o Codese (Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico do DF). São coisas que podem ajudar a contribuir com gestão ou filosofia.


Como é esse assédio?

É diário. Tenho sido procurada por presidentes de partidos, por políticos.O clamor existe pela falta de nomes, infelizmente. Um senador me ligou esta semana. Ele quer que eu o oriente a escolher alguém que ele possa seguir.


Pretende apoiar alguém?

Não tenho nomes. Outro dia, estava em um fórum em São Paulo, com os presidentes das maiores empresas do Brasil, e percebi a ansiedade e a angústia de todos em ter um nome para a Presidência do Brasil. É claro que é uma angústia nacional essa falta de lideranças políticas prontas.


A eleição do empresário João Doria para a Prefeitura de São Paulo acelerou esse fenômeno?

Acredito que sim, pelo perfil dele de empreendedor. Doria estimula? Eu preferiria que ele passasse pelo processo de prefeito, governador, até chegar a candidato à Presidência. Mas acho que ele será candidato.


Eleger empresários de sucesso é uma fórmula que pode dar certo no DF?

O governo precisa de gestão, isso está muito claro. O diferencial do Doria nem é ele, acho que é um empreendedor que deu certo na política. As pessoas estão fazendo essa analogia, do mesmo jeito que deu certo em São Paulo pode dar certo em outros lugares. Mas a pessoa precisa ser política. O Doria tem um histórico, o avô atuou na política. Não é meu sonho, não...
 
Arquivo Pessoal
 


E como avalia a administração Rollemberg?

Até vejo que o governador teve boas intenções. É uma pessoa íntegra. Mas acredito que não foi bem assessorado. Ele tem boas escolhas na equipe, mas poderia ter escolhido melhor. Eu não daria conta de conduzir o Sabin se não tivesse equipe muito competente. Não saberia conduzir a empresa se não tivesse um grupo de gestão capacitado. A presidente e a maioria dos diretores são da casa, cresceram junto com a empresa. Na política, com os arranjos de partidos, às vezes, a escolha para secretarias ou ministérios não é com base na competência técnica. O que dificulta a política são esses arranjos. Ontem (última segunda-feira), até falei para a esposa dele que ela que deveria se candidatar (risos). Gosto muito da Márcia Rollemberg. 


Apoiaria a primeira-dama se ela fosse candidata?

Apoiaria, com certeza. Falei para ela que, se fosse preciso, juntaria um grupo de mulheres para apoiar outra mulher. Brinquei: “está todo mundo correndo atrás de mim, mas eu vou indicar o seu nome”. Ela é uma pessoa competente, determinada. 


E como ela reagiu?

Ela fica rindo... Já falei à Márcia duas vezes que ela deveria se candidatar. No dia do lançamento do Mulheres do Brasil, eu falei às participantes: “olha, nós temos uma boa candidata aqui em Brasília”. 


Mesmo que não seja candidata, como pretende se posicionar nas próximas eleições?

Nunca permiti nem santinho dentro do Sabin. Tenho muitos funcionários que têm parentes candidatos, mas não permitimos falar de política dentro da empresa. No último encontro de empresários em São Paulo, o Pedro Parente falou que a culpa de o Brasil ter candidatos tão ruins era nossa, porque não éramos protagonistas na política e que deveríamos mudar isso para indicar os bons candidatos que vão fazer o desenvolvimento econômicos do país. Infelizmente, os empresários brasileiros são omissos na política. Temos que falar mais, participar mais, precisamos estar juntos nessa hora da escolha, porque certamente teremos melhores pessoas no poder.


Por que então não apoiar alguém no DF?

Fazemos parte de um grupo chamado Empresários em Ação. Aqui em Brasília, esse grupo já conta com quase 300 integrantes e, no último encontro, ficou determinado que o candidato que sair do grupo, vamos apoiar. Já existe uma mudança, uma visão de querer ser protagonista. Ainda não temos nome.


Pode sair daí a novidade das eleições sobre a qual tanto se fala?

Sim. Já houve algumas indicações. Mas elas continuam caindo muito em cima de mim (risos). Os empresários têm que participar mais no momento oportuno, e não depois só para reclamar. É preciso recuperar os valores. Eu nunca paguei escola, sempre estudei em instituição pública. Deveria ser assim até hoje, principalmente para os políticos. Assim, teríamos boas escolas, como eu tive. Fiz graduação na Universidade Federal de Goiás. Também tive três filhos em instituições públicas. O meu caçula nasceu aqui no Hran, e eram excelentes hospitais. Acho que se todo político fosse obrigado a colocar filhos em escolas públicas e a usar os hospitais públicos, voltaríamos a ter boas e dignas instituições públicas. 


Por que os políticos resistem a isso?

Na política, o que mudou foi o comportamento dos políticos. Eles deveriam ser exemplo em tudo, pois são representantes do povo. Deveriam ser exemplo de como utilizar corretamente o dinheiro público, não ostentar, não esbanjar, dar exemplo de honestidade, de transparência. Hoje não existe mais confiança na palavra. Eu aprendi com o seu Antônio, meu pai, que dizia: “sua palavra vale mais do que sua assinatura”.

 
Como é a sua atuação em grupos organizados?

Participo de grupos como o Mulheres do Brasil, que nasceu em 2013, a partir de um encontro com a presidente da República. Ela pediu à Luiza (Trajano, dona do Magazine Luiza) para reunir empreendedoras. Somos 40 mulheres. A partir dali, criamos vários comitês. São mulheres de vários segmentos, inclusive donas de casa. Independentemente da questão social, todas estão ali em propósito comum, que é ajudar a mudar a situação do Brasil, e queremos ser protagonistas dessa mudança. É preciso dar um basta na violência contra a mulher. Além disso, pelas estatísticas, levaremos 170 anos para ter a mesma condição dos homens dentro das empresas. Temos que mudar isso. O Brasil ainda é um país machista, precisamos caminhar bastante para atingir o patamar dos países desenvolvidos. 


A crise afetou os negócios?

Temos 84% de exames de convênio. Se eu trabalho com convênio e as pessoas estão perdendo o emprego, tivemos que ser criativos para manter a meta de crescimento. Temos pé no chão, não colocamos nenhuma meta inatingível para ninguém se sentir sufocado por um problema do Brasil. De 2014 a 2016, a empresa quase dobrou, em pleno período de crise. Claro que passamos a fazer contenção totalmente diferenciada, trabalhamos a produtividade das pessoas. As próprias pessoas passaram a buscar apresentar melhor resultado a partir da crise, todo mundo tem um parente que perdeu emprego. Isso tudo nos ajudou na gestão. Se tem raiz forte, a empresa não cai. 


A economia está reagindo?

Sim, a gente tem percebido isso. Vai demorar um pouco, a recuperação não será rápida. Mas acho que muita coisa vai mudar depois dessa crise, vamos ter muito mais empreendedores. As pessoas começaram a correr atrás de realizar alguma coisa para sobreviver e isso trouxe a elas outros caminhos. O país será um novo Brasil, não tenho dúvidas. 


A empresa conseguiu crescer na crise?

Sim. Até 2010, nós tínhamos um crescimento orgânico. Em 2010, fizemos um planejamento do crescimento. Era tanta gente nos abordando para comprar o Sabin, que procuramos a Fundação Dom Cabral. Ficamos três dias com quatro professores e desenhamos o planejamento estratégico do crescimento. Desenhamos o Sabin em 2010, 2020 e agora temos desenhado até 2025. Temos objetivos estratégicos: queremos estar em 70% dos estados brasileiros até 2025. Temos tudo bem desenhado. Para enfrentar a crise, fizemos um bom planejamento estratégico. Hoje, estamos em 11 estados, temos 225 unidades, em 22 cidades. E tudo começou com uma salinha no Edifício de Clínicas, com três funcionários.


Qual o tamanho da rede de laboratórios hoje?

No DF, temos cerca de 100 unidades. Em 2010, quando fomos para a Fundação Dom Cabral, desenhamos o planejamento estratégico do crescimento. De 2010 a 2012, só fizemos planejamento. Em 2010, pedi para cada líder preparar um sucessor; em 2011, dois; em 2012, três sucessores. Formamos 30 pessoas que trabalharam só na expansão. Uberaba, Palmas, Manaus, Belém e Salvador, essas cinco foram abertas em 2012. Depois, crescemos a cada dois anos, adquirindo empresas. Agora, adquirimos um laboratório de imagem em Salvador, compramos um em Uberlândia, e outro em Uberaba. A partir de dezembro, teremos imagem em Brasília também. Fechamos o ano passado com faturamento de R$ 740 milhões e, este ano, devemos fechar em R$ 900 milhões.
 
Arquivo Pessoal
 


Como foi sua trajetória até chegar a Brasília?

Eu me formei em Goiânia e, depois, fiquei seis meses em Anápolis. Meu ex-marido estudava na UnB. Quando meu filho mais velho, Leandro, tinha sete meses, nós viemos para cá. Cheguei aqui em 2 de fevereiro de 1980. Abrimos o Sabin em 1984. Quando cheguei, já queria abrir um laboratório, eu dizia que queria ter a minha empresa. 


Foi difícil abrir o laboratório?

Reservei uma loja na Asa Norte mas, quando vi que não dava conta, arrumei um emprego. Cheguei a ter três trabalhos. Em 1984, abrimos o Sabin e passei na rede pública. Foi um período difícil, porque eu não podia largar os outros empregos. Depois, fiquei só na rede pública. Foram sete anos na fundação, cinco dos quais na chefia do laboratório do HRT (Hospital Regional de Taguatinga). Eu tinha 29 anos quando assumi a chefia do HRT, que era o segundo maior da rede, e fiquei até 1990, quando pedi demissão da rede pública. 


Hoje, muita gente tem medo de largar um emprego estável para empreender. Foi uma decisão difícil à época?

O Sabin estava ganhando corpo, já era uma criança prodígio. O período na rede foi de muito aprendizado para mim e me trouxe muita experiência de administração. Depois procurei um curso de gestão, fiz um MBA em gestão empresarial, levei uma gerente comigo e foi muito importante. Construímos a parte administrativa do laboratório. 


O que mudou no serviço público desde então?

Acho que piorou. Tínhamos dinheiro e tecnologia, na época. Hoje, com a escassez de recursos, é difícil priorizar a inovação tecnológica. Naquela época, o HRT era mais bem equipado que os hospitais privados. As tecnologias avançadas não estavam nos hospitais privados, mas na rede pública. Tínhamos muito mais inovação do que temos hoje. Essa longevidade que adquirimos é consequência disso, da inovação. Há 20 anos, as pessoas tinham uma média de idade de 63 anos e, agora, estamos com média acima de 80 anos. O que mudou foi a alimentação mais saudável, novos exames, novos equipamentos, inovações como a nanoterapia. Toda essa evolução tecnológica ocorreu aqui em Brasília. Temos o segundo polo tecnológico.


Acredita que os servidores públicos estão desestimulados?

O funcionário tem que estar sempre estimulado. Nosso diferencial foi colocar o RH como estratégia. É fácil comprar equipamentos, mas transformar pessoas para elas entenderem do seu negócio é diferente. Tem que de fato dar liberdade para todos ajudarem a construir a empresa. Todo mundo pode dar ideias. Esse sentimento de pertencimento é muito importante. 


Um secretário de Saúde ou ministro tem que ter formação na área?

Não necessariamente. José Serra é um exemplo bem-sucedido de um político que sabia fazer gestão. Precisa ter gente competente ao seu lado.


Como tem preparado a sucessão na empresa?

Pensei que estava construindo a empresa para os filhos, tanto que o Leandro fez medicina, a Raquel fazia relações internacionais, o Rafael fez administração, estava nos EUA e ia fazer um curso de finanças em saúde, quando a gente fez a governança, em maio de 2013. Construímos nosso conselho de administração e, quando terminou, o professor da Fundação Dom Cabral que nos acompanhava falou que era preciso escolher um novo presidente, porque eu não poderia transitar entre os dois papéis. Aquilo me deu um calafrio. Eu pedi um prazo de seis meses. Eu não via ninguém com capacidade, via a empresa como um filho do qual só eu tinha capacidade de cuidar. Eu tinha três superintendentes, as três muito competentes. Doutora Lígia, que era da técnica, assumiu a presidência. A empresa cresceu mais rápido do que a família. Então, é preciso sabedoria para lidar. Você acha que pode estar puxando o tapete dos filhos, e não é nada disso. 


Teve influência familiar para lidar com os negócios?

Meu pai era fazendeiro. Ele enfartou com 50 anos, faleceu aos 63. Quando ele matava um boi, passava a noite inteira fazendo contas. Ele pegava a moeda que conhecia, que era a arroba de boi, colocava do lado do dólar, e começou a ciranda financeira. Ele que ensinou os fundamentos do Plano Collor para os gerentes dos bancos de Anápolis. E só tinha a segunda série.


O Sabin já ganhou prêmios de melhor empresa para se trabalhar. A que atribui isso?

Além da liberdade e do sentimento de pertencimento, no Sabin temos também a questão dos benefícios, que fazem a euforia motivacional. Uma vez, a gente perdeu um grande número de funcionários para um laboratório concorrente. A partir dali, fizemos um pacote de benefícios. Nosso processo de seleção é auditado. Pode-se até indicar uma pessoa, mas todo mundo passa pelo mesmo processo de retenção. Se fizer uma boa seleção na entrada, você corre o risco de gastar menos em formação e a retenção é garantida. 


Qual é o segredo dessa política de RH?

A gente precisa ver se a competência da pessoa está adequada para o local onde ela atua. O maior desafio é reter e fidelizar clientes todos os dias. Desenvolver o funcionário sabendo que ele vai trabalhar com saúde, que é a parte mais sensível das pessoas. Ano passado, foram mais de 40 auditorias em busca da qualidade. Temos muito desenvolvimento. Existe um projeto de crescimento de todo mundo para que todos possam atender nossas expectativas. Oferecemos programa de participação de resultados, bônus, muitos projetos de reconhecimento, todos têm festa de aniversário, existe uma cadeia de motivação que traz entusiasmo. O recompensar vai além do salário. Envolvemos as famílias, com projetos como “eu cuido dos meus pais”, de check-up anual para os pais dos funcionários. Os filhos visitam o ambiente de trabalho. Queremos que eles voltem para casa levando essa interação que faz bem a eles. É um trabalho digno, todo mundo precisa respeitar todo mundo, não existe chefe que bate na mesa. A formação de liderança é importante e vai garantir esse projeto. É um grupo inteiro integrado e alinhado que tem condições de alavancar todo negócio na mesma direção. 


Sofre com o machismo por ser uma empresária de sucesso?

Quando o Sabin começou, mulher não era dona de empresa, era fim do regime militar. Muita gente fingia que eu e a Sandra não existíamos. Nossas propostas eram viradas de cabeça para baixo, as pessoas ficavam tentando descobrir quem era o verdadeiro dono do Sabin, porque achavam que por trás da empresa deveria ter um homem. E o negócio deu certo justamente por ter duas mulheres. Hoje, temos mais de 4 mil funcionários e 77% são mulheres. Temos 74% de liderança feminina. Tem muita empresa que tem mulheres, mas, quando chega na liderança, afunila. Nós, não. No Sabin, não temos diferenças de salários por gênero. 

 
Tem planos de se aposentar?

Ficamos no conselho, não participamos mais da operação do laboratório. Temos reunião do conselho uma vez por mês. A cada dois anos, estamos preparando um filho para ser acionista e herdeiro. Eles precisam aprender a tomar as decisões de conselho. Agora, completou dois anos, efetivamos dois filhos nossos e colocamos outros dois. Depois, virão outros dois. Cada uma tem três filhos. Depois, eles vão decidir a cada dois anos quem fica. Foi a forma de garantir que eles vão saber conduzir. 
 
Arquivo Pessoal
 


Com é o relacionamento com a sócia, Sandra Costa?

Antes de eu casar de novo, eu falava que era meu único casamento que tinha dado certo (risos). Esse casamento é garantido, os outros não são. Temos muito respeito uma pela outra. O principal valor de uma sociedade é esse. Às vezes, dois irmãos não conseguem ter uma sociedade de sucesso como nós duas. A Sandra ficou muito na parte técnica no começo e eu fui mais para a gestão. Com dois anos de Sabin, deixei a parte de exames e fiquei com a gestão da empresa. Trabalhei dentro do laboratório só dois anos dos 33. A melhor coisa foi ter conhecimento do negócio. Para ser empreendedor, o fator primordial é conhecer a fundo o negócio. Eu sabia comprar os equipamentos, definir os melhores. O meu jeito de ser e o da Sandra ajudaram muito. Juntamos uma mineira e uma goiana, a gente tem simplicidade para se envolver com todo mundo. Até 600 funcionários, eu conhecia todo mundo pelo nome, os nomes dos maridos, dos filhos. Hoje, temos mais de 4 mil funcionários.


Qual a fórmula para empreender?

No começo, quando não havia tanto dinheiro para investir em competência, a gente fazia tudo. Para fazer bem-feito é importante conhecer o que faz. Antes de fazer o MBA, eu conduzia muito por intuição, percepção e conhecimento do negócio. Essas três coisas foram importantes para o negócio ter dado certo. Outra coisa que faz dar certo é você acreditar no negócio, é você ter sonhos. Eu falo de sonho todos os dias dentro da empresa. Eu acredito que pessoas felizes produzem mais e melhor, e sempre falo para os meus funcionários tirarem os sonhos da gaveta. Pessoas com objetivo correm atrás deles e vão achar caminhos melhores. São os sonhos que nos movem a progredir e ter melhores resultados. Precisa acreditar, sonhar, ser otimista, uma pessoa pessimista tem medo, o que emperra. A gente precisa ter coragem, acreditar nas pessoas e amar todo mundo. Essa é a fórmula.


Você se casou recentemente, aos 62 anos. Como foi essa decisão? 

Conheci meu marido (Flávio Marcílio) no elevador do Brasília Shopping. Ele é advogado, tem um escritório no sexto andar, e era cliente do Sabin. No dia do nosso casamento, eu disse: se Deus nos deu a oportunidade de viver a longevidade, se a nossa geração é a que está recebendo de bandeja 30 anos a mais de vida, por que não procurar a felicidade? Mudei a lente. Separei depois de 31 anos de casada. Estou vivendo o melhor período da minha vida agora. Nunca conheci a felicidade antes. 


Como é o amor na maturidade?

O amor da maturidade é maravilhoso. Temos mais liberdade, cada um respeita o limite do outro, mais carinho, mais respeito. Ele tem um ano a mais do que eu. Éramos muito diferentes. Nós nos identificamos exatamente nisso, foram nossas diferenças que nos uniram. Eu era focada demais, trabalhava demais, minha vista era só para empreender. E ele era um aposentado que queria parar. Convergiu muito bem. Eu fui importante para ele e ele foi importante para mim. Foram 63 meses de namoro e, nesse período, recebi flores 63 vezes, a cada aniversário de namoro. Teve pedido de casamento com a mãe do lado e fiz uma festa de arrasar. O importante é começar a enxergar que você pode transformar a sua vida em qualquer fase dela. Com a mesma ousadia que comecei o Sabin, lá atrás, com 29 anos, eu comecei outra vez, casando aos 62 anos.  
 
Arquivo Pessoal
 


Brasília é a melhor cidade do mundo 

Brasília é uma cidade de portas abertas, que recebe todo mundo. É uma cidade muito generosa,  acolhedora, ela não rejeita ninguém. Todo mundo que chega consegue crescer, ser feliz e atingir os objetivos. Temos esse céu azul que nos protege. Quando viajo e volto, sempre digo: não tenho dúvida nenhuma de que moramos na melhor cidade do mundo. Aqui é o paraíso. Eu cheguei aqui em 1980 para seguir a carreira e investir no sonho de abrir o próprio negócio. Aqui vivi os momentos mais importantes e intensos da  minha história. Sou muito grata a Brasília. Nunca paguei escola, sempre estudei em instituição pública. Assim deveria ser até hoje para todos, principalmente para os políticos. Só assim teríamos boas escolas como eu tive. Estudei em grupo escolar na fazenda, depois ginásio  e cientifico no Colégio Estadual, em Anápolis, onde tínhamos inglês , francês e espanhol. Me formei na Universidade Federal de Goiás . Infelizmente, hoje não temos Saúde e Educação com qualidade.
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